Bíblia de Maria

Livro VI - O Que ficou em Maria

  1. Depois que tudo passou, nada voltou ao lugar.
  1. As coisas ficaram.
    Mas diferentes.
  1. O silêncio ganhou peso.
    E o tempo, outra forma.
  1. Aprendi que o depois não apaga o antes.
    Apenas o carrega.
  1. Fiquei com os objetos.
    Mas não eram eles.
  1. Fiquei com o nome.
    Mas não podia chamá-lo.
  1. O que ficou não foi presença.
    Foi memória.
  1. E a memória não consola.
  1. Ela insiste.
  1. Lembrar não dói sempre.
    Mas nunca deixa de doer um pouco.
  1. O mundo seguiu.
    Como sempre segue.
  1. As pessoas aprendem a falar baixo perto da dor.
  1. Depois, voltam a falar alto sobre coisas pequenas.
  1. E eu aprendi a existir entre isso.
  1. Não me tornei mais forte.
    Tornei-me mais lenta.
  1. A pressa é coisa de quem ainda espera.
  1. Eu já sabia que nada vinha.
  1. O que ficou comigo não foi resposta.
  1. Foi a pergunta que não se cala.
  1. Quem ele teria sido?
    Quem teria amado?
    Quem teria deixado?
  1. As mães aprendem a imaginar futuros que nunca existirão.
  1. Isso também é luto.
  1. Guardei seus gestos.
    O modo de entrar.
    O modo de olhar.
  1. Pequenas coisas que ninguém percebe.
  1. O amor sobrevive assim: em detalhes.
  1. Não construí altar.
    Não fiz promessa.
  1. Transformar a dor em símbolo é uma forma de perdê-la.
  1. Preferi mantê-la humana.
  1. Às vezes falo com ele.
    Não esperamos resposta.
  1. Falar também é lembrar.
  1. O que ficou em mim não foi missão.
  1. Foi continuidade.
  1. Continuei vivendo porque viver era a única coisa possível.
  1. E isso já exigia coragem.
  1. Descobri que seguir não é esquecer.
  1. É carregar sem deixar cair.
  1. Se alguém pergunta quem foi meu filho, respondo pouco.
  1. Porque quem explica demais perde o essencial.
  1. Ele foi aquele que passou por mim.
  1. E isso basta.
  1. O mundo pode dizer o que quiser.
  1. Eu fico com o que vivi.
  1. O que ficou em Maria não cabe em livros.
  1. Mas escrevo para que não se perca.
  1. Não como verdade.
    Mas como testemunho.
  1. Porque a memória é a última forma de amor.
  1. E amar, mesmo depois, é continuar dizendo sim à vida.
  1. Ainda que ela doa.
  1. Ainda que falte.
  1. Este é o resto.
    E com ele, eu permaneço.



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En el texto hay: poesia, filosifia, religião

Editado: 28.02.2026

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