Em A Bíblia de Maria, a narrativa da vida de um filho é reescrita a partir da experiência de sua mãe. Não há aqui a construção de um mito, mas o percurso de um vínculo: o nascimento, a infância, a distância progressiva, a morte e o que permanece depois.
A linguagem adota a cadência dos textos antigos sem reproduzi-los, criando uma prosa em forma de versículos que aproxima memória e oração, sem se fixar em nenhuma doutrina. O centro do livro não é a explicação do sagrado, mas a persistência do cuidado. Ao acompanhar o crescimento do filho e a transformação do amor materno ao longo do tempo, a narrativa revela a dimensão humana daquilo que costuma ser tratado apenas como símbolo.
Com sobriedade e economia de palavras, o texto propõe uma experiência de leitura meditativa. Cada capítulo se organiza como fragmento de lembrança, formando um testemunho contínuo sobre o que significa amar alguém que inevitavelmente se afasta e se perde.
Sem recorrer ao extraordinário, o livro afirma a força do que é comum: o corpo que cresce, a casa que muda, o silêncio que permanece. Ao final, o que se encontra não é uma resposta, mas uma forma de permanência na memória.