Vocês já tiveram aquela sensação de que alguma coisa terrível vai acontecer e, mesmo assim, continuam andando direto em direção a ela como se não fosse nada?
Bom, foi exatamente assim que eu me senti ao entrar na escola.
Como se estivesse indo direto para o matadouro...
Só que, em vez de uma faca, o que me ameaçava era um garoto com sorriso arrogante e um abdômen que deveria ser ilegal.
Caminhei pelo corredor como se estivesse em um filme de ação: devagar, dramática, com uma música de suspense tocando dentro da minha cabeça.
Tan-tan-tan.
— Anny! — minha melhor amiga, Zoe, apareceu como um furacão de laço rosa e perfume forte. — Você sobreviveu? Me diz que não chorou ontem à noite!
Olhei para ela.
Queria dizer: “sim, eu chorei. Comi metade de um pacote de biscoitos e conversei com o meu travesseiro durante duas horas como se ele fosse meu terapeuta”.
Mas só respondi:
— Não, estou bem.
Mentira número duzentos.
O Oscar é meu, obrigada pela presença.
— E então? Vai falar com o garoto responsável pelo probleminha que está crescendo no seu útero? — sussurrou Zoe, com voz de novela mexicana. — Já se passaram três dias desde que você fez o teste!
— Zoe, por favor...
— Três dias! Setenta e duas horas! Quatro mil trezentos e vinte minutos! — contou exageradamente, mexendo as mãos como se aquilo ajudasse a diminuir o pânico.
Respirei fundo.
— Talvez... hoje. No intervalo.
— Anny! Você sabe que horas são?
— Hora de correr? — perguntei com um sorriso nervoso.
— Hora de contar para o Cody que ele vai ser pai! — e ela disse tão alto que até a mulher da limpeza parou de varrer para olhar para a gente.
— Zoe! — tampei a boca dela. — Você quer que eu tenha um infarto agora ou depois?
— Desculpa, desculpa. É que eu me empolgo — disse entre risadas, abaixando a voz. — Mas falando sério, você precisa conversar com ele. E de preferência antes que a sua barriga comece a ter CEP próprio!
Andamos rapidamente até a sala antes que minha reputação passasse de “aluna exemplar” para “protagonista de novela adolescente”.
Sentei na minha carteira.
Cody entrou três minutos atrasado, como sempre.
Cabelo rebelde, cara de “não estou nem aí” e cheiro de desodorante caro misturado com problemas emocionais.
Sentou duas fileiras à minha frente.
Não olhou para mim.
Nem sequer um “oi” telepático.
Perfeito.
Mais sozinha que uma caneta azul no meio de uma prova.
As aulas passaram. Eu não ouvi uma única palavra. Se me perguntarem hoje o que é o teorema de Pitágoras, provavelmente vou responder: “um cara que não engravidou, então não me interessa”.
A lanchonete cheirava a pão torrado e drama adolescente.
Entrei com Zoe ao meu lado, repetindo para mim mesma como um mantra: Você consegue, Anny. É só falar e correr.
E lá estava ele.
Com o grupo barulhento de amigos, os mais “descolados” da escola. Eles riam de qualquer coisa, e um deles batia uma garrafa vazia na mesa.
Ele também ria. Sorriso de comercial, jaqueta de couro e aquele cabelo bagunçado que parecia cuidadosamente planejado para parecer “casual”.
Parei.
Como é que eu deveria contar uma coisa dessas?
“Oi, lembra daquela vez em que a gente não usou camisinha porque você disse que seria só uma vez?”
Ou talvez alguma coisa mais doce, tipo: “Surpresa, vamos ter um mini você com cara de ‘não estou nem aí’.”
Não.
Eu não posso simplesmente chegar perto e chamar ele.
Até porque a gente praticamente nem conversa, a não ser quando ele precisa de ajuda em matemática.
A gente diz “oi” quando se cruza. Só isso.
Nem uma conversa no chat.
Nem um emoji.
E agora eu tenho que contar que, graças ao desafio idiota da Zoe, a gente acabou numa noite maluca na cama dele.
Uma noite que se repetiu mais vezes do que eu consigo admitir sem ficar vermelha.
E que, às vezes, quando a gente se encontra nos corredores e não tem mais ninguém por perto...
Acabamos sem roupa.
Meu Deus.
Que desastre nós somos.
Um desastre que só ele e eu entendemos... ou será que não?
— Vai, Anny — sussurrou Zoe, me dando uma cotovelada. — Você precisa fazer isso!
— Já vou — menti.
Dei um passo.
Depois outro.
Eu estava prestes a me aproximar da mesa dele.
Ele me viu. Olhou direto nos meus olhos.
Meu Deus, contato visual!
ALERTA VERMELHO!
Pânico.
Suor.
Tremedeira.
E pernas pra que te quero!
Saí correndo.
Literalmente.
Dei meia-volta e disparei em direção à porta, deixando Zoe gritando atrás de mim:
— ANNY! PARA! PARA, SUA COVARDE!
Corri como se o SATANÁS da gravidez estivesse atrás de mim.
Porque, sim.
É melhor correr do que morrer.
Me escondi no banheiro do segundo andar, respirando como se tivesse acabado de correr uma maratona.
Zoe é a única que sabe dessa confusão.
A única que conhece todos os meus segredos desde que tínhamos cinco anos.
E, sim...
De certa forma, tudo isso é culpa dela.
Porque foi ela quem disse: “Vai, Anny, não seja medrosa. É só um beijo. Desafio é desafio.”
Um beijo.
Claro.
Aquele “beijo” terminou numa cama, com roupas espalhadas pelo chão e a minha dignidade pegando o primeiro táxi de volta para casa.
E agora...
Agora estou grávida de um garoto que mal me cumprimenta.
E eu nem consegui conversar com ele.
Hora de correr...
Sim.
Mas, desse jeito, vou acabar correndo com um barrigão.
#4785 en Novela romántica
#1480 en Otros
#503 en Humor
amor adolescente, amor tristeza y felicidad, bebé y embarazo inesperado
Editado: 30.09.2026