Mia respirou fundo antes de voltar à mesa.
O coração ainda batia acelerado, mas o corpo já tinha aprendido a continuar mesmo quando a alma implorava por pausa. Aproximou-se com o bloco de anotações nas mãos, postura firme, expressão neutra — uma armadura construída ao longo dos anos.
— Já escolheram? — perguntou, olhando primeiro para Lara.
— Sim — respondeu a noiva de Pedro, simpática. — Vou querer o prato da casa. E você, amor?
Pedro demorou alguns segundos para responder. Observava Mia em silêncio, como se tentasse encontrar nela algum traço da garota que deixara para trás.
— O mesmo — disse, por fim.
Mia anotou, sem erguer os olhos.
— Algo para beber?
— Dois sucos naturais, por favor — completou Lara.
Mia assentiu e se afastou.
Cada passo até a cozinha parecia mais pesado que o anterior. Ela sentia o olhar de Pedro em suas costas, e aquilo doía mais do que gostaria de admitir. Não era raiva. Era memória. Era tudo o que não teve tempo de cicatrizar.
Na cozinha, apoiou-se na pia por um instante, fechando os olhos. Respirou fundo. Não podia desabar. Não ali. Não agora. A vida não lhe dava esse luxo.
Quando voltou com os pedidos, o clima à mesa parecia mais leve — ao menos na superfície. Lara falava sobre a cidade, sobre planos, sobre como tudo ali parecia calmo demais para quem vinha de fora. Pedro sorria, concordava, mas sua atenção escapava constantemente para Mia.
— Você trabalha aqui há muito tempo? — perguntou Lara, sem desconfiança.
— Alguns anos — respondeu Mia, educada.
— Deve ser bom viver numa cidade pequena assim.
Mia esboçou um sorriso breve.
— É… tranquila.
Pedro pigarreou, como se quisesse dizer algo, mas desistiu. O silêncio entre eles era denso, cheio de coisas não ditas, promessas quebradas e sentimentos que nunca tiveram um fim de verdade.
Enquanto recolhia os pratos vazios, Pedro finalmente falou:
— Mia… — chamou baixo, quase com receio.
Ela parou.
Olhou para ele pela primeira vez desde que o atendimento começara. Seus olhos se encontraram e, por um segundo, o mundo pareceu suspenso.
— Sim? — respondeu.
— A gente… — ele hesitou. — A gente pode conversar depois?
O coração dela apertou, como se fosse espremido por lembranças antigas.
— Não sei se é uma boa ideia — disse, com honestidade e firmeza.
Lara percebeu o clima estranho, mesmo sem compreender totalmente.
— Depois a gente vê isso, amor — disse Pedro, tentando suavizar.
Mia assentiu e se afastou novamente.
Mais tarde, enquanto limpava uma mesa vazia, ela pensou em tudo o que aquele reencontro significava. Pedro tinha voltado. Mas não voltara sozinho. Voltava diferente. E ela também já não era a mesma.
Naquela noite, Mia entendeu algo que nunca havia conseguido admitir: o retorno de alguém não garante reconciliação. Às vezes, o passado volta apenas para mostrar o quanto mudou.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela começou a se perguntar se estava pronta para escolher a si mesma — mesmo que isso significasse deixar o amor onde ele sempre esteve: no passado.