O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 4 - SILÊNCIOS QUE GRITAM

Mia respirou fundo antes de voltar à mesa.

O coração ainda batia acelerado, mas o corpo já tinha aprendido a continuar mesmo quando a alma implorava por pausa. Aproximou-se com o bloco de anotações nas mãos, postura firme, expressão neutra — uma armadura construída ao longo dos anos.

— Já escolheram? — perguntou, olhando primeiro para Lara.

— Sim — respondeu a noiva de Pedro, simpática. — Vou querer o prato da casa. E você, amor?

Pedro demorou alguns segundos para responder. Observava Mia em silêncio, como se tentasse encontrar nela algum traço da garota que deixara para trás.

— O mesmo — disse, por fim.

Mia anotou, sem erguer os olhos.

— Algo para beber?

— Dois sucos naturais, por favor — completou Lara.

Mia assentiu e se afastou.

Cada passo até a cozinha parecia mais pesado que o anterior. Ela sentia o olhar de Pedro em suas costas, e aquilo doía mais do que gostaria de admitir. Não era raiva. Era memória. Era tudo o que não teve tempo de cicatrizar.

Na cozinha, apoiou-se na pia por um instante, fechando os olhos. Respirou fundo. Não podia desabar. Não ali. Não agora. A vida não lhe dava esse luxo.

Quando voltou com os pedidos, o clima à mesa parecia mais leve — ao menos na superfície. Lara falava sobre a cidade, sobre planos, sobre como tudo ali parecia calmo demais para quem vinha de fora. Pedro sorria, concordava, mas sua atenção escapava constantemente para Mia.

— Você trabalha aqui há muito tempo? — perguntou Lara, sem desconfiança.

— Alguns anos — respondeu Mia, educada.

— Deve ser bom viver numa cidade pequena assim.

Mia esboçou um sorriso breve.

— É… tranquila.

Pedro pigarreou, como se quisesse dizer algo, mas desistiu. O silêncio entre eles era denso, cheio de coisas não ditas, promessas quebradas e sentimentos que nunca tiveram um fim de verdade.

Enquanto recolhia os pratos vazios, Pedro finalmente falou:

— Mia… — chamou baixo, quase com receio.

Ela parou.

Olhou para ele pela primeira vez desde que o atendimento começara. Seus olhos se encontraram e, por um segundo, o mundo pareceu suspenso.

— Sim? — respondeu.

— A gente… — ele hesitou. — A gente pode conversar depois?

O coração dela apertou, como se fosse espremido por lembranças antigas.

— Não sei se é uma boa ideia — disse, com honestidade e firmeza.

Lara percebeu o clima estranho, mesmo sem compreender totalmente.

— Depois a gente vê isso, amor — disse Pedro, tentando suavizar.

Mia assentiu e se afastou novamente.

Mais tarde, enquanto limpava uma mesa vazia, ela pensou em tudo o que aquele reencontro significava. Pedro tinha voltado. Mas não voltara sozinho. Voltava diferente. E ela também já não era a mesma.

Naquela noite, Mia entendeu algo que nunca havia conseguido admitir: o retorno de alguém não garante reconciliação. Às vezes, o passado volta apenas para mostrar o quanto mudou.

E, pela primeira vez em muito tempo, ela começou a se perguntar se estava pronta para escolher a si mesma — mesmo que isso significasse deixar o amor onde ele sempre esteve: no passado.




Reportar




Uso de Cookies
Con el fin de proporcionar una mejor experiencia de usuario, recopilamos y utilizamos cookies. Si continúa navegando por nuestro sitio web, acepta la recopilación y el uso de cookies.