O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 5 — QUANDO ALGUÉM ESCUTA

Mia passou a semana inteira evitando qualquer possibilidade de encontro, passou a evitar certos corredores do supermercado.

Não por medo, mas por cansaço. Pedro aparecia quase todos os dias. Às vezes comprava algo pequeno, outras apenas caminhava entre as prateleiras, como se procurasse coragem. Ela fingia não notar, mantinha o foco no trabalho, no caixa, na reposição. Dizia a si mesma que ignorar era uma forma de sobreviver.

— Mia, a gente precisa conversar — ele insistia, em voz baixa.

— Não, Pedro — ela respondia, sempre firme. — Já passou.

Mas ele não aceitava. Havia algo inquieto nele, uma urgência que Mia conhecia bem: a mesma que ele tinha quando prometeu voltar… e não voltou.

À noite, no Restaurante Estrela da Serra, ele apareceu de novo. Sentou-se em uma mesa no fundo, sozinho, esperando. Mia tentou trocar de setor, mas o senhor Agenor precisou dela no salão. Não havia escapatória.

Ela serviu mesas, desviou o olhar, manteve distância. Até que, ao final do expediente, enquanto guardava o bloco de pedidos, sentiu a presença dele atrás de si.

— Mia, por favor… — a voz veio baixa, carregada. — Só cinco minutos.

— Eu já disse que não — respondeu, sem virar o rosto.

Tentou passar, mas Pedro segurou seu braço.

Não com força suficiente para machucar, mas o bastante para impedir que ela saísse.

O coração de Mia disparou.

— Pedro, me solta — disse, sentindo a voz falhar.

— Eu só quero explicar… — ele insistiu, aproximando-se demais. — Você precisa me ouvir.

— Não — ela respondeu, mais firme agora. — Eu não preciso.

Ela tentou se soltar, o desconforto crescendo como um nó no peito. Aquela sensação antiga voltou: a de não ser ouvida. A de sempre precisar ceder.

— Pedro… — ela repetiu, agora com medo. — Solta.

Antes que ele dissesse qualquer outra coisa, uma mão firme afastou a dele.

O movimento foi rápido, decidido.

— Ela disse não.

A voz veio grave, controlada.

Mia ergueu os olhos, surpresa.

Miguel estava ali.

Pedro deu um passo para trás, atônito.

— Quem é você? — perguntou, defensivo.

Miguel se colocou entre eles, postura tranquila, mas inabalável.

— Alguém que escuta — respondeu. — E alguém que respeita.

O silêncio caiu pesado sobre os três.

Pedro respirou fundo, passando a mão pelo rosto, visivelmente abalado.

— Isso não é da sua conta.

— Passa a ser quando alguém ultrapassa um limite — disse Miguel, sem elevar a voz.

Mia sentiu algo diferente. Não era alívio apenas. Era validação. Pela primeira vez, alguém tinha chegado não para salvá-la, mas para reforçar o que ela já tinha dito.

Ela endireitou os ombros.

— Eu pedi para você parar, Pedro — disse. — E vou pedir só mais uma vez.

Pedro a encarou por alguns segundos, o orgulho ferido, a culpa evidente. Depois assentiu, em silêncio.

— Desculpa — murmurou, antes de se afastar.

Miguel esperou até que ele saísse do restaurante. Só então voltou-se para Mia.

— Você está bem?

Ela respirou fundo antes de responder.

— Estou… agora estou.

Houve um breve silêncio entre eles. Necessário. Não constrangedor.

— Eu não apareci por acaso — disse Miguel. — Voltei como prometi. Só demorei mais do que queria.

Mia sorriu de leve, cansada.

— Promessas costumam falhar comigo.

— Eu sei — respondeu ele, sincero. — Mas eu ainda estou aqui.
Fez uma breve pausa, respeitosa.
— Se você permitir… eu posso te procurar amanhã. A gente conversa com calma. Sem pressa. Só se você quiser.

Mia hesitou por um instante. O passado ainda doía, mas, pela primeira vez, não gritava mais alto que o presente.

Ela assentiu devagar.

— Amanhã… tudo bem.

Miguel sorriu de forma contida, sem comemoração. Apenas alívio.

Ela o olhou, sentindo algo novo se formar. Não era amor. Ainda não.
Era segurança.
E isso, para Mia, já era tudo.

Naquela noite, enquanto caminhava para casa, Mia entendeu algo essencial: não era sobre quem voltava.
Era sobre quem ficava.
Sobre quem escutava.

E, talvez, pela primeira vez, o destino tivesse escolhido falar mais alto do que o passado.




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