O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 6 — O QUE FICA DEPOIS DO SILÊNCIO

Mia não dormiu direito naquela noite.

O teto do quarto parecia mais distante do que de costume, e o silêncio, pesado demais para ignorar. Cada vez que fechava os olhos, a cena no restaurante voltava em fragmentos desconexos: o movimento brusco de Pedro, sua mão segurando o braço dela, a surpresa estampada no próprio medo… e, logo depois, Miguel.

Pedro nunca havia sido agressivo.
Nunca.

E talvez por isso aquela atitude tivesse doído tanto.

Não fora a força do toque — ele não a machucara —, mas o desespero estampado no rosto dele, algo que Mia não reconhecia. Aquela urgência em ser ouvido, em não deixá-la ir, despertou nela uma sensação antiga e desconfortável: a de estar novamente em um lugar onde sua vontade não era prioridade.

Isso a assustou.

E, ao mesmo tempo, a fez perceber o quanto havia mudado.

A lembrança de Miguel surgia logo em seguida, quase como um contraste inevitável. Ele não gritou. Não avançou. Não tentou resolver nada por ela. Apenas chegou, ouviu e respeitou o que ela já tinha dito.

Isso a inquietava mais do que gostaria de admitir.

Na manhã seguinte, o Supermercado Bom Preço da Serra estava estranhamente calmo. O movimento lento dava espaço demais para pensamentos que Mia preferia manter ocupados. Ela organizava as prateleiras no piloto automático, empilhando caixas e alinhando produtos, enquanto a mente insistia na mesma pergunta silenciosa:

Por que agora?

Pedro reaparecera depois de anos.
Miguel voltara depois de uma promessa.
E ela… continuava ali, tentando sobreviver sem sentir demais.

— Mia? — a voz de Paulo veio do caixa. — Você tá bem hoje?

Ela se virou, forçando um sorriso que não alcançou os olhos.
— Tô sim. Só um pouco cansada.

Paulo assentiu, mas continuou observando-a por um instante a mais do que o habitual. Ele conhecia aquele olhar. Ainda assim, não perguntou nada.

Horas depois, durante o intervalo, Mia caminhava em direção à área externa quando o viu do outro lado da rua.

Miguel.

Ele não atravessou. Não acenou. Não entrou no supermercado. Apenas ficou ali, encostado no carro, esperando. Como se soubesse, instintivamente, que qualquer movimento brusco poderia afastá-la.

O coração de Mia acelerou.

Ela respirou fundo, hesitou por alguns segundos e voltou-se para o interior do mercado. Aproximou-se de Paulo mais uma vez, a voz baixa, quase contida.

— Paulo… posso sair um instante? Só pra resolver uma coisa rápida.

Ele a analisou com cuidado.
— Claro. Vai lá. Mas se precisar de mais tempo, me avisa.

— Obrigada.

Mia saiu sentindo o peso da própria decisão. Ao atravessar a rua, percebeu que Miguel manteve a distância, respeitando cada passo dela.

— Você não precisava ter feito aquilo ontem — disse ela, assim que parou a alguns metros dele.

Miguel levantou os olhos, atento.
— Eu sei. Mas faria de novo.

Ela franziu a testa.
— Mesmo sem saber se eu queria ajuda?

— Eu sabia que você queria respeito — respondeu ele, com simplicidade. — O resto foi consequência.

Aquela resposta desarmou Mia de um jeito inesperado.

Eles começaram a caminhar devagar pela calçada da pequena cidade. Não falaram de Pedro. Não falaram de música. Não houve promessas nem explicações longas. Apenas passos sincronizados e um silêncio que não pesava.

— Eu não quero que você se sinta pressionada — disse Miguel depois de um tempo. — Nem pra cantar. Nem pra mudar nada agora. A gente pode só… conversar. Sem pressa.

Mia parou por um instante, observando o vai e vem tranquilo da rua, as pessoas presas às próprias rotinas, alheias ao turbilhão que ela carregava por dentro.

— Eu não sei se estou pronta pra grandes mudanças — confessou. — Minha vida sempre foi… sobreviver.

Miguel assentiu.
— Então a gente começa daí. Do jeito que você consegue. No seu tempo.

Ela o encarou, procurando segundas intenções, expectativas escondidas, cobranças disfarçadas.

Não encontrou nada disso.

— Amanhã eu trabalho no Restaurante Estrela da Serra à noite — disse, quase sem perceber que falava. — Se quiser… pode passar lá. Só pra conversar.

O sorriso dele foi contido, respeitoso.
— Eu vou.

Mia voltou para o supermercado com o coração inquieto, mas diferente. Não era esperança exagerada. Não era medo absoluto.

Era a sensação de que, pela primeira vez, alguém estava disposto a ficar — não para salvá-la, mas para caminhar ao lado dela.

E aquilo… mudava tudo.




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