O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 7 — NO RITMO DELA

Mia passou o dia inteiro tentando se convencer de que aquela noite seria apenas isso: uma conversa.

Nada além.

Ainda assim, cada minuto parecia carregado de uma expectativa silenciosa. Não do tipo que acelera o coração por romance, mas daquela que surge quando algo novo ameaça sair do controle — e Mia sempre teve medo do que não conseguia controlar.

No supermercado, o corpo estava ali, mas a mente não. Ela organizava prateleiras, atendia clientes, respondia automaticamente, enquanto pensava nas palavras de Miguel, ditas com calma demais para serem ignoradas.

No seu ritmo.

Ela nunca tinha ouvido isso antes.

À noite, o Restaurante Estrela da Serra estava cheio, mas o ambiente seguia acolhedor. Luzes amareladas, o cheiro de comida quente, vozes misturadas em conversas comuns. Mia colocou o avental, prendeu o cabelo e respirou fundo.

Era só mais um turno.
Era só mais um dia.
Ela repetia isso como um mantra.

Miguel chegou discreto, como da outra vez. Não procurou por ela imediatamente, não chamou atenção. Sentou-se em uma mesa afastada, como quem entende que presença não precisa ser invasão.

Quando Mia o viu, sentiu o estômago se contrair levemente.

Não de nervosismo.
De consciência.

Ela se aproximou com o bloco de pedidos na mão.

— Boa noite — disse, profissional, mas com um sorriso que escapou sem esforço.

— Boa noite — respondeu ele, no mesmo tom. — Posso pedir um café? Sem pressa.

Ela assentiu, anotou e se afastou.

Enquanto preparava o pedido, Mia percebeu algo estranho: estava calma. O corpo não estava em alerta, não havia aquele peso constante de precisar agradar ou corresponder. Miguel simplesmente estava ali.

Quando voltou à mesa, ele agradeceu, mas não puxou assunto de imediato. Esperou. Respeitou o silêncio.

— Obrigado por me chamar — disse depois de alguns instantes. — Eu fiquei em dúvida se você iria querer.

— Eu também fiquei — respondeu ela, sincera.

Eles sorriram de leve.

— Eu pensei muito em você — continuou Miguel. — Não na sua voz apenas… mas em quem você é quando não está cantando.

Mia franziu a testa.
— E o que você acha que eu sou?

Miguel pensou antes de responder, como quem escolhe palavras com cuidado.

— Alguém que aprendeu cedo demais que depender dói. E que talvez tenha esquecido como é ser escolhida sem precisar provar nada.

Aquilo a atingiu de um jeito silencioso.

— Você fala como se me conhecesse — disse ela, desviando o olhar.

— Não conheço — concordou ele. — Mas eu escuto. E observo.

Ela respirou fundo. Era exatamente isso que a deixava vulnerável.

— Eu não sei viver fora da rotina — confessou. — Sobreviver virou meu plano principal. Sonhar sempre pareceu… irresponsável.

Miguel não discordou.
— Sobreviver também é uma forma de coragem. Só não precisa ser a única.

Ela o encarou, buscando pressão, insistência, promessas grandes demais.

Não encontrou.

— E se eu nunca quiser mudar isso? — perguntou.

— Então eu continuo aqui do mesmo jeito — respondeu ele. — Conversando. Caminhando. Sem pressa.

O sino da porta tocou naquele instante.

Mia sentiu o corpo enrijecer antes mesmo de olhar.

Pedro havia entrado.

O coração acelerou, mas algo era diferente dessa vez. Não havia pânico, apenas consciência. Ele ficou parado por alguns segundos, observando. Não se aproximou, não tentou falar.

Miguel percebeu imediatamente a tensão.

— Quer que eu vá? — perguntou, baixo.

Mia respirou fundo.

— Não — disse, com firmeza. — Fica.

Pedro entendeu. Pela primeira vez, respeitou o limite silencioso que ela impunha. Sentou-se em uma mesa distante e não tentou contato.

Aquilo foi um fechamento que Mia não sabia que precisava.

Ela voltou o olhar para Miguel.

— Eu ainda tenho medo — admitiu. — Não de você. De mim. De acreditar.

— Então a gente acredita só no agora — respondeu ele. — No café. Na conversa. No silêncio confortável.

Ela sorriu, cansada, mas verdadeira.

— No agora eu consigo.

— Então é o suficiente — disse ele.

Quando Mia saiu do restaurante naquela noite, caminhando pelas ruas tranquilas da cidade, percebeu algo novo se acomodando dentro dela.

Não era amor.
Não era promessa.
Não era destino.

Era escolha consciente.

E, pela primeira vez, Mia não estava apenas sobrevivendo.

Ela estava começando a viver — no próprio ritmo.




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