Naquela noite, depois que Miguel foi embora do restaurante, Mia demorou a ir para casa.
Sentou-se por alguns minutos na pequena área externa dos fundos, apoiando os cotovelos na mesa de metal frio, observando as luzes amareladas refletirem no chão úmido. O movimento já tinha acabado, o cheiro de comida ainda pairava no ar, e, mesmo assim, algo dentro dela estava inquieto demais para simplesmente seguir a rotina.
Não era ansiedade.
Era consciência.
Miguel não tinha feito promessas grandiosas. Não falara de contratos, palcos ou futuro. Tinha falado de tempo. De respeito. De escuta. E isso mexia com Mia de um jeito inesperado, porque nunca tinha sido o que as pessoas lhe ofereciam.
Ela estava acostumada a ter que escolher sozinha. A decidir sem rede de apoio. A sobreviver.
Mas agora… havia alguém disposto a ficar no espaço entre uma decisão e outra.
Nos dias que se seguiram, Miguel não apareceu todos os dias — e isso, curiosamente, fez Mia confiar ainda mais. Ele mandava mensagens curtas, simples.
“Espero que seu dia esteja leve.”
“Se estiver cansada hoje, descansa.”
Nada que exigisse resposta imediata. Nada que cobrasse.
No supermercado, Mia seguia com sua rotina. Prateleiras, caixas, clientes apressados. Pedro não voltou. E, embora parte dela sentisse alívio, outra parte carregava um luto silencioso — não pelo homem que ele era agora, mas pelo que tinham sido um dia.
Ela entendia, aos poucos, que algumas histórias não terminam com reconciliação. Terminam com aceitação.
Foi numa tarde de movimento fraco que Paulo se aproximou.
— Mia, você canta mesmo, né? — perguntou, quase casualmente.
Ela congelou por um segundo.
— Quem te disse isso?
— O Agenor comentou. Disse que você canta no restaurante às vezes. — Ele sorriu. — Minha esposa adora música ao vivo. Você devia cantar mais.
Mia sorriu de volta, educada, mas por dentro sentiu o velho medo se mexer. Exposição sempre foi sinônimo de risco. E ela ainda estava aprendendo a confiar no chão.
À noite, Miguel apareceu de novo no restaurante. Não para ouvir música. Não para pedir nada.
Sentou-se com um café e ficou ali, conversando com ela entre um atendimento e outro, como se aquilo fosse o bastante.
Quando o movimento diminuiu, ele perguntou, com cuidado:
— Posso te fazer uma pergunta… sem obrigação de resposta?
— Pode — disse Mia.
— O que mais te assusta: cantar… ou ser vista?
Ela demorou a responder.
— Ser vista — admitiu. — Porque quando alguém vê, pode ir embora depois.
Miguel assentiu, compreendendo mais do que respondendo.
— Eu não posso te prometer que nada muda — disse ele. — Mas posso te prometer que não vou desaparecer sem ouvir o que você tem a dizer.
Aquelas palavras ficaram com ela.
Mais tarde, já fechando o restaurante, Agenor apagou as luzes do salão e se virou para Mia.
— Quer cantar uma? Só pra fechar a noite.
Ela olhou para Miguel. Ele não disse nada. Apenas esperou.
Mia respirou fundo.
Não cantou para impressionar.
Não cantou para ser descoberta.
Cantou como quem fala.
Sua voz saiu baixa no começo, insegura, mas aos poucos foi preenchendo o espaço. Não havia plateia. Não havia expectativa. Só alguém escutando de verdade.
Miguel não se moveu. Não gravou. Não interrompeu.
Quando ela terminou, o silêncio foi inteiro. Respeitoso.
— Obrigada — ela disse, sentindo a voz tremer, mas sem arrependimento.
— Por confiar — respondeu ele.
Naquela noite, caminhando para casa, Mia percebeu algo novo: ela não estava mais correndo do futuro. Também não estava se jogando nele.
Estava parada no meio do caminho.
E, pela primeira vez, isso não parecia um erro.
Parecia escolha.