O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 9 — ENTRE O QUE FICOU E O QUE COMEÇA

Mia acordou com a sensação de que algo dentro dela ainda ecoava.

Não era um som alto.
Não era urgência.

Era como uma lembrança viva da noite anterior.

Da forma como cantou.
Do silêncio depois.
Do jeito como Miguel simplesmente ouviu.

Ela passou a mão pelo rosto, ainda deitada, tentando voltar para a rotina antes que os pensamentos tomassem espaço demais.

Porque pensar… sempre complicava tudo.

O dia começou como todos os outros.

O despertador tocou cedo, o café foi rápido, o uniforme do Supermercado Bom Preço da Serra vestia nela como uma segunda pele — uma que já conhecia todos os movimentos, todos os horários, todas as pausas.

Mas por dentro… não era igual.

Enquanto organizava os produtos nas prateleiras, Mia se pegou distraída mais de uma vez. Não por algo específico, mas por uma sensação estranha de possibilidade.

E isso a deixava desconfortável.

— Mia, cuidado com esses preços aí — alertou Paulo, passando pelo corredor.

— Tô conferindo — respondeu ela, voltando ao foco.

Ela precisava disso. Do controle. Da previsibilidade.

No intervalo, sentou-se no banco do lado de fora, como sempre fazia.

O movimento da rua seguia normal. Pessoas indo e vindo. Nada fora do lugar.

Mas o celular vibrou.

Ela olhou.

Miguel.

“Bom dia. Espero que você esteja bem.”

Simples. Direto. Sem pressão.

Mia ficou alguns segundos olhando a mensagem.

Não era o tipo de coisa que mudava a vida de alguém.
Mas, ainda assim… mexia com ela.

Ela respondeu:

“Tá tudo bem. Indo.”

Simples também.

Mas suficiente.

O restante do dia passou sem grandes acontecimentos.

Até que, no final do turno, Mia sentiu algo estranho.

Aquela sensação.

Ela conhecia.

Virou o olhar.

E viu.

Pedro.

Ele estava ali, parado próximo à entrada, como se ainda estivesse decidindo se devia entrar completamente naquele espaço — ou sair de novo.

Mia ficou imóvel por um segundo.

Não havia surpresa.

Mas também não havia preparo.

Ele se aproximou devagar.

— Mia… — disse, baixo.

Ela respirou fundo.

— Oi, Pedro.

— Posso falar com você?

Ela hesitou.

Mas não fugiu.

— Pode falar.

Pedro passou a mão no cabelo, nervoso.

— Eu sei que eu não tenho direito de chegar assim… mas eu precisava te ver.

Mia sustentou o olhar.

— Já viu.

O silêncio caiu entre eles.

— Você tá diferente — disse ele.

— Talvez eu só esteja sendo quem eu devia ter sido antes.

Paulo chamou ao fundo.

— Mia!

Ela olhou rapidamente.

— Eu preciso ir.

— Posso te acompanhar? — perguntou Pedro.

Ela negou com a cabeça.

— Não.

Simples. Sem dureza. Mas firme.

Naquela noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento era leve.

Mia tentava manter o foco no trabalho, mas não conseguiu evitar quando chegou à mesa do fundo.

Pedro estava sentado.

E, ao lado dele…

Lara.

Elegante. Presente. Real.

— Boa noite — disse Mia, profissional.

— Boa noite — respondeu Lara, educada, observando com atenção sutil.

Pedro permaneceu em silêncio.

— Já sabem o que vão pedir?

— Pode nos dar um minuto? — pediu Lara.

— Claro.

— É ela? — perguntou Lara, assim que Mia se afastou.

Pedro assentiu.

— É.

Mia voltou, anotou o pedido sem se prolongar.

Sem fugir.
Sem encarar demais.

Equilíbrio.

Era isso que ela estava aprendendo.

Mais tarde, já perto do fim do turno, a porta do restaurante se abriu novamente.

Mia sentiu antes de ver.

Miguel.

Ele entrou, olhou ao redor… e encontrou ela.

Não chamou.
Não interferiu.

Apenas ficou.

E, naquele instante, Mia entendeu algo importante:

O passado podia voltar.
Podia doer.
Podia estar ali, diante dela.

Mas o que realmente importava…

era quem permanecia.




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