O Som Do Meu Destino

 CAPÍTULO 10 — ENTRE OLHARES E SILÊNCIOS

Miguel não se aproximou imediatamente.

Ficou ali, próximo à entrada do restaurante, como se ainda estivesse decidindo até onde deveria ir. O olhar dele percorreu o salão com calma, sem pressa — até encontrar Mia.

Ela já o tinha visto.

Mas não fez nenhum gesto.

Continuou o atendimento, anotando pedidos, organizando mesas, mantendo a postura profissional que aprendeu a sustentar mesmo quando tudo por dentro parecia instável.

Só que, dessa vez… não estava.

Havia um equilíbrio estranho dentro dela.

Como se, pela primeira vez, ela não estivesse sendo puxada em direções opostas.

Na mesa do fundo, Pedro acompanhava cada movimento.

Não de forma evidente.

Mas o suficiente para que Lara percebesse.

Ela apoiou o braço na mesa, observando-o com atenção silenciosa.

— Você ainda olha pra ela do mesmo jeito — disse, sem acusação.

Pedro demorou a responder.

— Não é tão simples.

Lara inclinou levemente a cabeça.

— Nunca é.

Silêncio.

Mas não era um silêncio confortável.

Era o tipo de silêncio que revela mais do que palavras.

Mia terminou de atender uma mesa e respirou fundo antes de se aproximar de Miguel.

— Boa noite — disse, mantendo o tom profissional.

Ele sorriu de leve.

— Boa noite.

— Vai querer alguma coisa?

— Um café tá ótimo.

Ela anotou, mas não saiu imediatamente.

Houve um pequeno espaço entre eles.

— Você tá bem? — perguntou ele, com cuidado.

Mia sustentou o olhar.

— Tô.

E, dessa vez… estava mesmo.

Quando voltou com o café, Miguel não puxou assunto.

Não perguntou sobre Pedro.
Não comentou sobre a mesa ao fundo.

Apenas ficou ali.

Presente.

E aquilo, mais uma vez, fez diferença.

Do outro lado do salão, Lara observava.

Não Mia.

Mas Miguel.

— Ele é o motivo? — perguntou, de repente.

Pedro franziu o cenho.

— Do quê?

— De você estar assim — respondeu ela, tranquila.

Pedro seguiu o olhar dela… até Miguel.

E entendeu.

Mas não respondeu.

Porque, naquele momento, nem ele mesmo sabia ao certo.

O movimento do restaurante seguiu.

Clientes entrando e saindo.

Pedidos sendo entregues.

Mas, entre os olhares que se cruzavam no salão — Mia, indo e vindo entre pedidos; Pedro e Lara, imóveis na mesa do fundo; e Miguel, quieto próximo à entrada — existia uma tensão silenciosa que ninguém mais percebia.

Só eles.

Em um momento mais calmo, Mia se apoiou por alguns segundos no balcão, organizando os pedidos.

Sentiu o olhar.

Não de Pedro.

Mas de Lara.

Quando levantou o rosto, encontrou o dela.

Não havia hostilidade.

Mas também não havia ingenuidade.

Era um olhar de quem observa para entender.

Mia sustentou por um segundo.

Depois voltou ao trabalho.

Sem fugir.

Sem confrontar.

Pouco tempo depois, Pedro se levantou.

— Vou pagar — disse, pegando a carteira.

Lara assentiu, observando.

Ele caminhou até o caixa.

Mia já estava lá.

Os dois ficaram frente a frente.

Mais uma vez.

— Eu não queria que fosse assim — disse ele, baixo.

Mia passou os itens, sem parar o movimento.

— Mas foi.

Ele engoliu seco.

— A gente podia tentar conversar direito…

Ela levantou o olhar.

Não havia raiva.

Mas havia limite.

— Pedro… tem coisas que não voltam pro começo.

Silêncio.

— Nem tudo precisa voltar — insistiu ele.

Mia respirou fundo.

— Mas também não precisa continuar.

A frase foi calma.

E definitiva o suficiente.

Pedro não respondeu.

Pagou.

E saiu.

Lara demorou alguns segundos antes de se levantar.

Caminhou até o caixa.

Parou diante de Mia.

— Você canta bem? — perguntou, direta.

Mia se surpreendeu levemente, mas manteve a postura.

— Às vezes.

Lara assentiu.

— Dá pra perceber.

Houve uma pequena pausa.

— Cuida de você — disse Lara, antes de sair.

Não como ameaça.

Mas como alguém que entende mais do que diz.

Quando a porta se fechou, o ar pareceu mudar.

Não mais pesado.

Mas diferente.

Miguel terminou o café e se levantou devagar.

Aproximou-se do balcão.

— Quer companhia na volta pra casa? — perguntou.

Mia pensou por um instante.

Não por medo.

Mas por escolha.

— Pode ser.

Eles saíram juntos.

A rua estava silenciosa.

O vento leve.

Sem pressa.

Sem obrigação.

— Hoje foi… estranho — disse Mia.

— Foi — concordou Miguel.

Silêncio.

Mas não desconfortável.

Depois de alguns passos, ela falou:

— Eu achei que ia me abalar mais.

Miguel olhou para ela.

— E não abalou?

Mia pensou.

— Abalou… mas não me quebrou.

Ele assentiu, com um leve sorriso.

— Isso já é muita coisa.

Ela olhou para frente.

— Eu acho que tô aprendendo a não voltar pro lugar onde eu já me perdi.

Miguel não respondeu imediatamente.

— E eu acho que você já começou — disse, depois.

Caminharam mais alguns metros.

Sem pressa.

Sem necessidade de preencher o silêncio.

Quando chegaram perto da casa dela, Mia parou.

Olhou para ele.

— Obrigada… por não invadir.

Miguel sustentou o olhar.

— Obrigado por deixar eu ficar.

Ela entrou.

Ele ficou ali por alguns segundos antes de ir embora.

Naquela noite, Mia deitou com a sensação de que algo dentro dela finalmente estava no lugar.

Não resolvido.

Não completo.

Mas… firme.

Porque, pela primeira vez, ela não estava tentando recuperar o passado.

Nem se jogando no futuro.

Ela estava escolhendo o presente.

E isso… mudava tudo.




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