O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 11 — O QUE AINDA ECOA

Naquela noite, Mia demorou a pegar no sono.

Não por causa de Pedro.
Pela primeira vez… não era sobre ele.

Era sobre o que tinha mudado dentro dela.

A caminhada até em casa, o silêncio compartilhado com Miguel, as palavras simples — tudo parecia ter encontrado um lugar inesperado dentro do peito dela.

“Obrigada… por não invadir.”

Ela repetiu a frase mentalmente, como se ainda estivesse tentando entender o peso daquilo.

Ninguém nunca tinha feito isso.

Na manhã seguinte, o céu amanheceu nublado.

O tipo de dia que parecia mais lento, mais introspectivo.

No Supermercado Bom Preço da Serra, o movimento estava tranquilo. Mia organizava algumas prateleiras com atenção, mas a mente não estava completamente ali.

Não estava distante… só mais consciente.

— Mia, você tá mais quieta hoje — comentou Paulo, passando por ela.

Ela deu um leve sorriso.

— Tô pensando.

— Isso é perigoso — brincou ele.

Ela soltou um pequeno riso.

— Às vezes é.

Durante o intervalo, sentou-se no banco de sempre.

Mas, dessa vez, não pegou o celular imediatamente.

Ficou apenas ali.

Sentindo.

O vento leve, o movimento da rua, o som distante de carros passando.

E percebeu algo que antes passaria despercebido:

Ela não estava ansiosa.

Não estava esperando mensagem.

Não estava presa a expectativa.

E, mesmo assim… estava bem.

O celular vibrou.

Miguel.

“Bom dia. Espero que hoje esteja leve pra você.”

Mia leu.

Sorriu de canto.

E respondeu:

“Tá tranquilo. E o seu?”

Simples.

Mas, dessa vez, sem medo.

Horas depois, já no fim do turno, Mia saiu do supermercado com passos mais leves do que nos dias anteriores.

Não porque tudo estava resolvido.

Mas porque ela já não estava tentando resolver tudo de uma vez.

À noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento era moderado.

Mia se mantinha concentrada no trabalho, mas havia algo diferente nela.

Uma calma.

Uma presença maior.

Ela não desviava mais o olhar com tanta facilidade.

Não evitava tanto sentir.

Miguel chegou mais tarde.

Como sempre, sem chamar atenção.

Sentou-se em uma mesa lateral, pediu algo simples e ficou ali.

Observando o ambiente.

Esperando o tempo dela.

Quando Mia se aproximou, não houve tensão.

— Boa noite — disse ela.

— Boa noite — respondeu ele, com um leve sorriso.

— O de sempre?

— Pode ser.

Ela anotou, mas não se afastou imediatamente.

— Como foi seu dia? — perguntou ela, quase sem perceber.

Miguel percebeu.

E respondeu com naturalidade.

— Produtivo… mas faltou silêncio.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— E você gosta de silêncio?

— Gosto quando ele não pesa.

Ela entendeu.

Porque conhecia bem o contrário.

Depois de alguns minutos, com o movimento mais tranquilo, Mia voltou até a mesa dele.

Dessa vez, não como atendimento.

Mas como escolha.

— Posso sentar um minuto?

Miguel assentiu, sem surpresa.

— Claro.

Ela se sentou.

Um gesto simples.

Mas carregado de significado.

— Eu pensei no que você disse ontem — começou Mia.

— Sobre o quê?

— Sobre não desaparecer.

Ela apoiou as mãos sobre a mesa.

— Eu ainda não sei o que eu quero fazer com a música… nem com nada disso.

Miguel ouviu, atento.

— Mas eu sei que… não quero mais fugir só porque tenho medo.

Ele não respondeu de imediato.

Deixou que ela continuasse.

— Só que eu também não quero me perder tentando ser algo que eu não sou — completou ela.

Miguel assentiu lentamente.

— Então não tenta ser — disse ele. — Só continua sendo quem você é… e vê até onde isso te leva.

Mia soltou um pequeno suspiro.

— Parece simples quando você fala.

— Não é simples — respondeu ele. — Só é mais leve quando não tem cobrança.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Pensando.

Sentindo.

— Você sempre foi assim? — perguntou.

— Assim como?

— Calmo.

Miguel sorriu de leve.

— Não.

— O que mudou?

Ele pensou por um instante antes de responder.

— Eu cansei de perder coisas importantes por agir sem pensar.

Mia absorveu aquilo.

Sem perguntar mais.

Porque, às vezes, o silêncio também era resposta.

Do outro lado da cidade, Pedro estava sentado no sofá de casa.

Lara estava em silêncio, olhando para a tela da TV desligada.

— Você foi vê-la de novo hoje? — perguntou ela, sem olhar para ele.

Pedro não respondeu imediatamente.

— Fui.

Lara assentiu.

Sem surpresa.

— E?

Ele passou a mão no rosto.

— Ela não é mais a mesma.

Lara finalmente virou o olhar.

— Ou talvez ela só tenha deixado de ser quem você lembrava.

A frase foi calma.

Mas direta.

Pedro abaixou o olhar.

Porque, no fundo… sabia que era verdade.

De volta ao restaurante, Mia se levantou.

— Eu preciso voltar — disse.

Miguel assentiu.

— Eu vou estar por aqui.

Ela sorriu de leve.

E voltou ao trabalho.

Naquela noite, algo se consolidava.

Não como uma decisão final.

Mas como um começo consciente.

Porque Mia já não estava mais tentando voltar ao passado.

E também não estava se jogando no futuro.

Ela estava aprendendo a permanecer.

E, pela primeira vez…

isso era suficiente.




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