Os dias seguintes passaram mais silenciosos.
Não vazios.
Mas diferentes.
Mia já não se sentia presa ao que tinha acontecido. Também não estava correndo atrás de respostas. Era como se, pela primeira vez, ela estivesse apenas vivendo… sem tentar controlar tudo.
E isso, de certa forma, assustava.
No Supermercado Bom Preço da Serra, a rotina seguia.
Clientes, caixas, prateleiras.
Mas havia algo no ar que Mia não sabia explicar. Uma sensação leve de mudança… como se algo estivesse prestes a acontecer, mesmo sem sinais claros.
Foi no meio da tarde que ela o viu.
Pedro.
Parado no final de um dos corredores.
Não havia hesitação dessa vez.
Ele veio direto até ela.
— Mia — disse, com a voz mais firme do que das outras vezes.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Pedro.
— A gente precisa conversar. De verdade.
Ela olhou ao redor.
O movimento estava baixo. Paulo estava no caixa, distraído com um cliente.
Mia voltou o olhar para Pedro.
Por alguns segundos, pensou em recusar.
Mas não recusou.
— Cinco minutos — disse.
Eles foram até a parte externa, perto da lateral do mercado.
O silêncio entre os dois era diferente dessa vez.
Mais pesado.
Mais definitivo.
Pedro passou a mão no rosto, como se tentasse organizar tudo o que queria dizer.
— Eu errei com você.
Mia não respondeu.
Ele continuou.
— Eu achei que… que podia voltar quando estivesse pronto. Como se nada tivesse mudado.
Ela fechou os olhos por um instante.
Porque aquelas palavras… ela já tinha esperado ouvir antes.
Mas não agora.
— Você demorou — disse ela, abrindo os olhos.
Pedro assentiu.
— Eu sei.
— E não foi só o tempo — completou Mia. — Foi a escolha.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez… não havia espaço para fuga.
— Eu nunca deixei de sentir — disse Pedro, mais baixo.
Mia o encarou.
E, pela primeira vez, não foi tomada pela emoção.
— Mas você deixou de ficar.
A frase saiu calma.
Sem acusação.
Mas cheia de verdade.
Pedro abaixou o olhar.
Porque não havia argumento contra aquilo.
— Eu não sou mais a mesma pessoa que você deixou — continuou Mia. — E você também não é mais o mesmo pra mim.
Ele respirou fundo.
— Ainda tem alguma coisa?
Ela pensou.
E foi sincera.
— Tem… mas não é o suficiente.
Aquilo o atingiu de um jeito diferente.
Não era rejeição total.
Mas também não era esperança.
Era fim.
— Eu não queria que terminasse assim — disse ele.
Mia deu um pequeno passo para trás.
— Mas terminou.
O vento passou entre eles.
Leve.
Frio.
Como se marcasse aquele momento.
— Eu espero que você fique bem — disse Mia, por fim.
Pedro assentiu.
— Você também.
E, dessa vez… ele não tentou segurar.
Não insistiu.
Apenas saiu.
Mia ficou ali por alguns segundos.
Respirando.
Sentindo.
Não havia alívio imediato.
Mas havia… encerramento.
Naquela noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento estava tranquilo.
Mia trabalhava com mais leveza.
Como se tivesse deixado algo para trás.
Algo que, por muito tempo, ela carregou sem perceber.
Miguel chegou um pouco mais cedo do que o normal.
Sentou-se na mesa de sempre.
Mas havia algo diferente nele.
Um silêncio mais pensativo.
Quando Mia se aproximou, percebeu.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
Miguel hesitou por um instante.
— Posso falar com você depois?
Ela assentiu.
— Pode.
O turno passou devagar.
E, pela primeira vez, Mia sentiu uma leve ansiedade.
Não desconfortável.
Mas presente.
Quando o restaurante começou a esvaziar, ela se aproximou.
— Agora pode falar.
Miguel apoiou os braços na mesa, olhando para ela com mais seriedade do que o habitual.
— Eu vou precisar voltar.
Ela franziu levemente o cenho.
— Voltar?
— Pra produtora. — Ele respirou fundo. — Em alguns dias.
O silêncio caiu entre eles.
Não era surpresa.
Mas… também não era fácil.
— Entendi — disse Mia, tentando manter a voz estável.
Miguel observou.
— Eu não queria simplesmente desaparecer de novo.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Obrigada por avisar.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu ainda acho que você deveria tentar.
Mia olhou para ele.
— Eu sei.
— Mas não vou te pressionar — completou.
Ela assentiu.
Mas, dessa vez, algo dentro dela se moveu.
Mais forte.
Porque, de repente…
o tempo deixou de parecer infinito.
Naquela noite, caminhando para casa, Mia não estava em silêncio.
Estava em conflito.
Se ele fosse embora…
E se ela não tentasse…
Aquilo acabaria ali?
Pela primeira vez, não era o medo de falhar que falava mais alto.
Era o medo de… não tentar.
Ela parou no meio do caminho.
Respirou fundo.
Olhou para frente.
E percebeu:
Talvez o tempo não fosse algo que ela pudesse esperar.
Talvez fosse algo que ela precisava escolher.
E, pela primeira vez…
a escolha começou a pesar.