O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 13 — O QUE FICA QUANDO VOCÊ NÃO VAI

Mia não dormiu bem naquela noite.

Não era apenas pensamento.

Era escolha.

E escolher… sempre pesava mais do que imaginar.

Na manhã seguinte, o despertador tocou como sempre. O quarto ainda estava escuro, e por alguns segundos ela ficou ali, deitada, olhando para o teto, como se ainda houvesse tempo de decidir outra coisa.

Mas não havia.

A vida não pausava para decisões difíceis.

No Supermercado Bom Preço da Serra, o movimento estava intenso. Um dos funcionários faltou, e Paulo já parecia sobrecarregado.

— Mia, hoje vai ser corrido — avisou ele, passando apressado.

Ela apenas assentiu.

Já sabia.

Durante o dia, entre clientes e prateleiras, Mia tentou não pensar.

Mas era impossível.

A proposta de Miguel.

A possibilidade.

O tempo que estava acabando.

No intervalo, ela se sentou no banco de sempre, mas dessa vez não havia calma.

Havia peso.

Ela pegou o celular.

Abriu a conversa com Miguel.

Ficou alguns segundos olhando.

Digitou.

Apagou.

Digitou de novo.

Apagou.

Porque, no fundo… ela já tinha decidido.

Naquela noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento também estava maior do que o normal.

Joana ainda não tinha voltado, e Mia precisou cobrir mais mesas.

Era simples.

Direto.

Inevitável.

Ela precisava daquele trabalho.

Precisava dos dois.

Do mercado.

Do restaurante.

Era ali que ela pagava as contas.

Era ali que a vida dela existia, de forma concreta.

E sonhos… não pagavam contas.

Ainda não.

Miguel chegou mais tarde.

Mais silencioso do que o normal.

Como se já soubesse.

Mia o viu de longe.

E, dessa vez, não houve expectativa.

Houve realidade.

Quando se aproximou da mesa, tentou manter o tom neutro.

— Boa noite.

— Boa noite — respondeu ele.

Houve um pequeno silêncio.

Até que Mia falou:

— Eu não posso ir.

Simples.

Sem rodeios.

Sem dramatização.

Miguel assentiu.

Como se já esperasse.

— Eu imaginei.

Ela desviou o olhar por um instante.

— Eu preciso dos meus dois trabalhos… eu não tenho ninguém pra cobrir. Eu não posso simplesmente sair.

Ele a observou com atenção.

Sem julgamento.

— Eu entendo.

E ele realmente entendia.

Mas entender… não anulava o que aquilo significava.

— Eu queria que fosse diferente — disse Mia, mais baixo.

— Eu também — respondeu ele.

O silêncio entre eles não era pesado.

Mas também não era leve.

Era… real.

Mais tarde, quando o movimento diminuiu, Miguel a chamou com um gesto leve.

Ela se aproximou.

Ele tirou algo do bolso.

Um cartão.

— Aqui — disse, entregando.

Mia pegou.

Era o endereço da produtora.

E um telefone.

— Qualquer coisa… me liga — disse ele. — Eu volto.

Ela olhou para o cartão por alguns segundos.

Como se aquilo pesasse mais do que papel deveria pesar.

— Eu não quero que você sinta que perdeu sua chance — continuou Miguel.

Ela levantou o olhar.

— Mas e se eu perdi?

Ele sustentou o olhar dela.

— Então você cria outra.

Aquilo ficou com ela.

Mais do que qualquer promessa.

— Eu vou amanhã — disse ele.

Mia assentiu.

— Eu sei.

Nenhum dos dois tentou prolongar.

Nenhum dos dois tentou transformar aquilo em algo maior do que era.

Porque, às vezes…

o mais difícil não é dizer adeus.

É aceitar que não dá pra segurar.

Naquela noite, quando ele saiu do restaurante, Mia não o chamou.

Não correu atrás.

Não fez nada impulsivo.

Mas também não ficou indiferente.

Ela apenas ficou parada por alguns segundos.

Com o cartão nas mãos.

Sentindo.

Os dias passaram.

Lentos.

Mais do que o normal.

No supermercado, tudo parecia igual.

No restaurante, também.

Mas, para Mia… não era.

Ela pegava o celular algumas vezes.

Pensava em ligar.

Não ligava.

Miguel mandava mensagens.

Menos do que antes.

Mais espaçadas.

“Cheguei.”
“Tá tudo corrido aqui.”
“Espero que você esteja bem.”

E Mia respondia.

Simples.

Contida.

Com o tempo, as mensagens diminuíram ainda mais.

Não por falta de vontade.

Mas por falta de tempo.

E isso… doía de um jeito diferente.

Porque não era abandono.

Não era escolha.

Era distância.

E a distância… era silenciosa.

Numa noite qualquer, depois do expediente, Mia voltou para casa mais cansada do que o normal.

Sentou-se na cama.

Pegou o cartão.

O endereço ainda estava ali.

O número também.

Nada tinha mudado.

Mas tudo parecia mais distante.

Ela segurou o cartão por alguns segundos.

Respirou fundo.

E, pela primeira vez desde que Miguel foi embora…

sentiu medo.

Não de falhar.

Mas de… deixar passar.




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