Mia não dormiu bem naquela noite.
Não era apenas pensamento.
Era escolha.
E escolher… sempre pesava mais do que imaginar.
Na manhã seguinte, o despertador tocou como sempre. O quarto ainda estava escuro, e por alguns segundos ela ficou ali, deitada, olhando para o teto, como se ainda houvesse tempo de decidir outra coisa.
Mas não havia.
A vida não pausava para decisões difíceis.
No Supermercado Bom Preço da Serra, o movimento estava intenso. Um dos funcionários faltou, e Paulo já parecia sobrecarregado.
— Mia, hoje vai ser corrido — avisou ele, passando apressado.
Ela apenas assentiu.
Já sabia.
Durante o dia, entre clientes e prateleiras, Mia tentou não pensar.
Mas era impossível.
A proposta de Miguel.
A possibilidade.
O tempo que estava acabando.
No intervalo, ela se sentou no banco de sempre, mas dessa vez não havia calma.
Havia peso.
Ela pegou o celular.
Abriu a conversa com Miguel.
Ficou alguns segundos olhando.
Digitou.
Apagou.
Digitou de novo.
Apagou.
Porque, no fundo… ela já tinha decidido.
Naquela noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento também estava maior do que o normal.
Joana ainda não tinha voltado, e Mia precisou cobrir mais mesas.
Era simples.
Direto.
Inevitável.
Ela precisava daquele trabalho.
Precisava dos dois.
Do mercado.
Do restaurante.
Era ali que ela pagava as contas.
Era ali que a vida dela existia, de forma concreta.
E sonhos… não pagavam contas.
Ainda não.
Miguel chegou mais tarde.
Mais silencioso do que o normal.
Como se já soubesse.
Mia o viu de longe.
E, dessa vez, não houve expectativa.
Houve realidade.
Quando se aproximou da mesa, tentou manter o tom neutro.
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu ele.
Houve um pequeno silêncio.
Até que Mia falou:
— Eu não posso ir.
Simples.
Sem rodeios.
Sem dramatização.
Miguel assentiu.
Como se já esperasse.
— Eu imaginei.
Ela desviou o olhar por um instante.
— Eu preciso dos meus dois trabalhos… eu não tenho ninguém pra cobrir. Eu não posso simplesmente sair.
Ele a observou com atenção.
Sem julgamento.
— Eu entendo.
E ele realmente entendia.
Mas entender… não anulava o que aquilo significava.
— Eu queria que fosse diferente — disse Mia, mais baixo.
— Eu também — respondeu ele.
O silêncio entre eles não era pesado.
Mas também não era leve.
Era… real.
Mais tarde, quando o movimento diminuiu, Miguel a chamou com um gesto leve.
Ela se aproximou.
Ele tirou algo do bolso.
Um cartão.
— Aqui — disse, entregando.
Mia pegou.
Era o endereço da produtora.
E um telefone.
— Qualquer coisa… me liga — disse ele. — Eu volto.
Ela olhou para o cartão por alguns segundos.
Como se aquilo pesasse mais do que papel deveria pesar.
— Eu não quero que você sinta que perdeu sua chance — continuou Miguel.
Ela levantou o olhar.
— Mas e se eu perdi?
Ele sustentou o olhar dela.
— Então você cria outra.
Aquilo ficou com ela.
Mais do que qualquer promessa.
— Eu vou amanhã — disse ele.
Mia assentiu.
— Eu sei.
Nenhum dos dois tentou prolongar.
Nenhum dos dois tentou transformar aquilo em algo maior do que era.
Porque, às vezes…
o mais difícil não é dizer adeus.
É aceitar que não dá pra segurar.
Naquela noite, quando ele saiu do restaurante, Mia não o chamou.
Não correu atrás.
Não fez nada impulsivo.
Mas também não ficou indiferente.
Ela apenas ficou parada por alguns segundos.
Com o cartão nas mãos.
Sentindo.
Os dias passaram.
Lentos.
Mais do que o normal.
No supermercado, tudo parecia igual.
No restaurante, também.
Mas, para Mia… não era.
Ela pegava o celular algumas vezes.
Pensava em ligar.
Não ligava.
Miguel mandava mensagens.
Menos do que antes.
Mais espaçadas.
“Cheguei.”
“Tá tudo corrido aqui.”
“Espero que você esteja bem.”
E Mia respondia.
Simples.
Contida.
Com o tempo, as mensagens diminuíram ainda mais.
Não por falta de vontade.
Mas por falta de tempo.
E isso… doía de um jeito diferente.
Porque não era abandono.
Não era escolha.
Era distância.
E a distância… era silenciosa.
Numa noite qualquer, depois do expediente, Mia voltou para casa mais cansada do que o normal.
Sentou-se na cama.
Pegou o cartão.
O endereço ainda estava ali.
O número também.
Nada tinha mudado.
Mas tudo parecia mais distante.
Ela segurou o cartão por alguns segundos.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez desde que Miguel foi embora…
sentiu medo.
Não de falhar.
Mas de… deixar passar.