Na manhã seguinte, Mia acordou com uma decisão.
Não era leve.
Mas era clara.
No Supermercado Bom Preço da Serra, o movimento já começava intenso. Mia tentava se concentrar, mas os pensamentos insistiam em voltar para o mesmo ponto.
O cartão.
O número.
A chance.
Durante o intervalo, sentou-se no banco de sempre.
Dessa vez, não hesitou tanto.
Pegou o celular.
Respirou fundo.
E ligou.
O telefone chamou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
Ela afastou o celular do ouvido, olhando para a tela.
Nenhuma resposta.
Mia tentou se convencer:
— Deve estar ocupado…
Mas, mesmo assim, algo apertou dentro dela.
Determinada, olhou novamente para o cartão.
Havia outro número.
O da produtora.
Ela ligou.
Do outro lado da cidade, em um prédio moderno e silencioso, o telefone tocou na recepção.
— Produtora Andrade, bom dia — atendeu uma voz feminina, firme e profissional.
— Bom dia… — disse Mia, um pouco hesitante. — Eu… eu gostaria de falar com o Miguel.
— Com quem eu falo, por favor?
— Mia.
Houve uma breve pausa do outro lado.
— O Miguel está em reunião no momento — respondeu a atendente. — Posso anotar o recado?
— Pode dizer pra ele que eu liguei… por favor.
— Claro — respondeu a mulher.
Mas aquela mulher tinha nome.
Manuela.
Manuela desligou o telefone devagar.
Ficou alguns segundos olhando para o aparelho, em silêncio.
“Mia.”
O nome ecoou em sua mente.
A voz do outro lado não parecia distante.
Parecia próxima demais.
Íntima demais.
Manuela conhecia Miguel há anos.
Desde o primeiro dia em que começou a trabalhar na produtora.
Sempre esteve ali.
Organizando horários, filtrando ligações, resolvendo imprevistos.
Sempre presente.
Sempre disponível.
Mas nunca foi escolhida.
E, de repente, aquela ligação.
Aquela voz.
Manuela respirou fundo.
Olhou na direção da sala de reuniões, onde Miguel estava.
E tomou uma decisão.
Não anotou o recado.
Não avisou.
Como se aquela ligação… nunca tivesse existido.
Do outro lado, Mia ainda segurava o celular.
O silêncio depois da ligação parecia maior do que deveria.
Mas ela tentou se tranquilizar:
— Ele vai retornar.
O restante do dia passou arrastado.
Mais do que o normal.
Mia olhou o celular várias vezes.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
À noite, no Restaurante Estrela da Serra, ela trabalhou como sempre.
Mas algo dentro dela… já não estava tão firme.
No dia seguinte, ela esperou.
No outro também.
E no outro.
Nada.
Com o passar dos dias, a expectativa mudou de forma.
Primeiro virou dúvida.
Depois silêncio.
E, por fim… resposta.
“Ele seguiu.”
Mia não disse isso em voz alta.
Mas começou a sentir.
As mensagens pararam.
As ligações nunca vieram.
E, aos poucos, o que antes parecia possibilidade… começou a parecer ausência.
E ausência… ela conhecia bem.
Dois meses se passaram.
No supermercado, tudo continuava igual.
No restaurante, também.
Mas Mia… não.
Ela se fechou novamente.
Não completamente.
Mas o suficiente para não sentir tanto.
O cartão ainda estava guardado.
Mas já não era esperança.
Era lembrança.
E, no fundo, uma certeza silenciosa começou a crescer:
Talvez ele fosse diferente.
Mas, no fim…
também foi embora.