Com o passar dos dias, Mia começou a sentir o peso do silêncio.
Não era só a ausência de Miguel.
Era o que aquela ausência representava.
Ela continuava indo ao Supermercado Bom Preço da Serra todos os dias, atendendo clientes, organizando prateleiras, vivendo a mesma rotina de sempre.
Mas, por dentro… algo tinha mudado.
À noite, no Restaurante Estrela da Serra, o movimento seguia normal.
As mesas, os pedidos, as conversas.
Tudo igual.
Mas Mia já não era.
Em alguns momentos, ela se pegava pensando:
“E se eu tivesse ido?”
“E se eu tivesse tentado?”
E, aos poucos, aquela dúvida começou a doer mais do que o medo.
Naquela noite, depois do expediente, Mia voltou para casa em silêncio.
O caminho parecia mais longo.
Mais pesado.
Quando chegou, deixou a bolsa de lado, tomou um banho demorado e tentou afastar os pensamentos.
Mas eles não foram embora.
Ela saiu do banheiro, vestiu uma roupa simples e se sentou na cama.
O quarto estava quieto.
E foi então que ela viu.
O cartão.
Ali, na cabeceira.
Como se estivesse esperando por ela.
Mia pegou o cartão devagar.
Passou o polegar sobre o papel, sentindo o relevo do nome, do endereço, do número.
Ficou ali por alguns minutos.
Pensando.
Sentindo.
Lembrando.
Do silêncio dele.
Da ausência.
Da espera que não foi respondida.
Um aperto subiu no peito.
— Então foi isso… — murmurou.
Por um momento, pensou em simplesmente guardar o cartão de volta.
Seguir.
Esquecer.
Mas não conseguiu.
Porque, no fundo…
aquilo não era mais sobre Miguel.
Era sobre ela.
Sobre tudo o que ela nunca tentou.
Sobre todas as vezes que escolheu ficar por medo.
Sobre todas as oportunidades que deixou passar antes mesmo de começar.
Mia respirou fundo.
Fechou os olhos por um instante.
E tomou uma decisão.
— Eu vou — disse, baixo.
Mesmo com medo.
Mesmo com dúvidas.
Mesmo achando que talvez já fosse tarde.
Ela ia.
Porque, pela primeira vez…
não era alguém oferecendo um caminho.
Era ela escolhendo seguir.
Na manhã seguinte, Mia acordou diferente.
Não mais leve.
Mas mais decidida.
No supermercado, procurou Paulo assim que chegou.
— Paulo, posso falar com você um minuto?
Ele percebeu o tom sério e assentiu.
— Claro.
Ela respirou fundo antes de falar.
— Eu preciso de alguns dias de folga.
Ele franziu o cenho.
— Agora? Mia, você sabe que tá complicado… a gente tá com gente faltando…
Ela assentiu.
— Eu sei. E eu nunca pedi isso antes.
Paulo ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando.
— Pra quanto tempo?
— Uma semana.
Ele soltou um suspiro.
— Uma semana é difícil…
Mia sustentou o olhar.
— Eu preciso tentar uma coisa.
Paulo a observou com mais atenção.
Como se estivesse vendo algo diferente nela.
E, talvez, estivesse.
Depois de alguns segundos, ele assentiu.
— Tá… eu me viro aqui. Uma semana.
Mia sentiu um alívio imediato.
— Obrigada, Paulo. De verdade.
À noite, no restaurante, ela foi direto até Joana, que tinha voltado havia poucos dias.
— Joana, posso te pedir um favor?
— Claro — respondeu ela.
— Eu preciso me ausentar por uma semana… você consegue me cobrir?
Joana sorriu.
— Consigo sim. Você já me ajudou várias vezes.
Mia sorriu de volta.
— Obrigada.
Depois disso, ela foi até o senhor Agenor.
— Senhor Agenor, posso falar com o senhor?
— Pode, Mia.
Ela explicou o combinado com Joana.
Ele ouviu com atenção.
— E o que você pretende fazer nesse tempo? — perguntou ele.
Mia respirou fundo.
Pela primeira vez, sem hesitar.
— Eu vou atrás do meu sonho.
O silêncio que veio depois não foi de dúvida.
Foi de reconhecimento.
O senhor Agenor assentiu lentamente.
— Então vá.
Mia sorriu.
Mas não era um sorriso qualquer.
Era o sorriso de quem, finalmente…
decidiu tentar.