Na manhã seguinte, Mia não pensou duas vezes.
Pegou algumas roupas simples, colocou tudo em uma mochila e olhou ao redor do quarto por alguns segundos.
Não havia muito.
Mas era tudo o que ela tinha.
E, ainda assim… ela estava deixando para trás.
Com o pouco dinheiro que havia guardado, seguiu para a rodoviária da cidade.
O movimento era intenso, pessoas indo e vindo, histórias cruzando sem se conhecer.
Mia comprou a passagem com as mãos levemente trêmulas.
Não era muito dinheiro.
Mas era o suficiente para começar.
Durante a viagem, ela ficou em silêncio.
Observando a paisagem passar pela janela.
Pensando.
Não em Miguel.
Mas nela.
Pela primeira vez, ela não estava indo porque alguém acreditava nela.
Ela estava indo… porque decidiu acreditar.
Horas depois, chegou à cidade onde ficava a produtora.
Tudo parecia maior.
Mais rápido.
Mais distante da realidade que ela conhecia.
Com cuidado, Mia procurou um lugar simples para ficar.
Depois de andar por algumas ruas, encontrou uma pequena pensão.
Nada luxuoso.
Mas limpo.
Acessível.
Suficiente.
Deixou a mochila no quarto, respirou fundo e se olhou no espelho por alguns segundos.
Simples.
Cansada.
Mas decidida.
Sem perder tempo, seguiu até a produtora.
Quando chegou em frente ao prédio, parou.
Os olhos se abriram levemente.
O lugar era imenso.
Moderno.
Imponente.
Mia sentiu o coração apertar.
— Ele tem tudo isso… — murmurou.
E então, um pensamento veio:
Por que ele ainda parecia triste?
E por que ele me procurava… se eu não chego nem perto do mundo dele?
Por um instante, ela pensou em ir embora.
Dar meia-volta.
Voltar para o que era seguro.
Mas não se moveu.
Porque, dessa vez…
não era sobre Miguel.
Era sobre ela.
Mia respirou fundo.
E entrou.
O ambiente interno era ainda mais impressionante.
Pessoas bem vestidas, movimentação constante, vozes, agendas, pressa.
Ela se sentiu deslocada.
Mas não recuou.
Foi até a recepção.
E então…
encontrou Manuela.
Manuela levantou os olhos lentamente.
E, ao ver Mia, a analisou de cima a baixo.
Roupas simples.
Sem produção.
Sem status.
Um pensamento passou pela mente dela:
O que essa mulherzinha quer com o Miguel?
Mas, por fora, manteve o tom profissional.
— Pois não?
Mia engoliu seco.
— Eu… eu vim falar com o Miguel.
— Nome?
— Mia.
Por um segundo, algo mudou no olhar de Manuela.
Ela reconheceu.
Mas não demonstrou.
— O Miguel não está — disse, fria. — Está em uma reunião externa.
Mia sentiu o coração cair um pouco.
— Ah… entendi…
Houve um breve silêncio.
— Pode avisar que eu estive aqui? — pediu Mia.
— Aviso — respondeu Manuela.
Mas, por dentro, já havia decidido.
Não avisaria.
— Eu posso esperar? — perguntou Mia, com um fio de esperança.
Manuela cruzou os braços discretamente.
— Acho melhor não. Ele vai demorar.
O tom foi firme.
Encerrando possibilidades.
Mia assentiu devagar.
— Tá bom… obrigada.
Ela se virou.
Com o coração apertado.
Não era rejeição direta.
Mas… parecia.
Enquanto caminhava em direção ao elevador, tentou se manter firme.
— Eu vim por mim… — sussurrou.
Mas, ainda assim… doía.
A porta do elevador se abriu.
Ela entrou.
Apertou o botão.
E ficou em silêncio.
Quando o elevador começou a descer…
Miguel entrou no prédio.
Passos rápidos.
Expressão cansada após a reunião.
Ele parou em frente ao elevador.
Esperando.
E então…
as portas se abriram.
O tempo pareceu desacelerar.
Miguel congelou.
Os olhos se arregalaram.
Porque ali, diante dele…
estava ela.
Mia.
Por um segundo, nenhum dos dois falou.
Nenhum dos dois se moveu.
Era como se tudo tivesse voltado de uma vez.
O silêncio.
A distância.
Os meses.
E, ainda assim…
ela estava ali.
— Mia…? — a voz dele saiu baixa, incrédula.
E, naquele instante…
nenhum dos dois sabia ainda…
que quase não tinham se encontrado.