O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 17 — ENTRE O QUE SE DIZ E O QUE SE ESCONDE

Por um instante, o tempo parou.

Mas só por um instante.

Mia sentiu o coração acelerar ao ver Miguel ali, tão perto, tão real… depois de tudo.

A vontade de sorrir, de correr até ele, de dizer tudo o que ficou preso nesses dois meses… veio com força.

Mas ela não deixou transparecer.

Porque agora… não era sobre isso.

Era sobre ela.

Sobre o motivo que a trouxe até ali.

Mia respirou fundo, controlando as emoções, e saiu do elevador com postura firme.

— Oi — disse, simples.

Miguel ainda parecia sem acreditar.

— Mia… o que você tá fazendo aqui?

Ela sustentou o olhar.

— Eu vim.

Não explicou.

Não se justificou.

Mas aquilo já dizia tudo.

Miguel deu um pequeno passo à frente.

— Vem comigo — disse. — Vamos até minha sala.

Mia hesitou por um segundo.

— Não… eu não quero atrapalhar. Eu sei que você é ocupado…

Miguel negou com a cabeça, quase imediato.

— Você não atrapalha.

Houve firmeza na voz dele.

Mais do que isso… havia verdade.

Ele indicou o elevador novamente.

— Vem.

Dessa vez, Mia não recusou.

Os dois entraram.

O silêncio dentro do elevador era carregado.

Mas não desconfortável.

Era cheio de coisas não ditas.

Do lado de fora, Manuela observava.

Imóvel.

O olhar fixo nos dois.

O ciúme veio rápido.

Intenso.

Difícil de disfarçar.

Mesmo vestida de forma simples, Mia chamava atenção.

E aquilo incomodava mais do que Manuela gostaria de admitir.

Então é ela…
Essa é a Mia.

As portas do elevador se fecharam.

E, junto com elas… a paciência de Manuela começou a desaparecer.

No escritório, Miguel fechou a porta com calma.

Ainda olhando para Mia como se estivesse tentando entender se aquilo era real.

— Você veio mesmo…

Mia assentiu.

— Vim.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Eu pensei muito… e senti que era o certo a fazer.

Fez uma pequena pausa.

— Mesmo com a possibilidade de dar errado.

Miguel a observava com atenção total.

— Eu não podia deixar passar — continuou ela. — Mas eu também não posso ficar muito tempo. Eu consegui só alguns dias de folga.

Havia verdade em cada palavra.

Sem romantizar.

Sem exagero.

Miguel assentiu devagar.

— Você fez certo em vir.

O silêncio que veio depois foi diferente.

Mais próximo.

Até que algo mudou na expressão dele.

— Mas… por que você não me avisou? — perguntou.

Mia franziu a testa, confusa.

— Eu avisei.

Miguel a olhou, sem entender.

— Como?

— Eu liguei — disse ela. — Algumas vezes. E também liguei pra produtora… falaram que você tava em reunião.

O silêncio caiu pesado.

Miguel ficou imóvel por um segundo.

Depois outro.

Algo começou a se encaixar.

E não de um jeito bom.

— Quem atendeu? — perguntou ele, agora mais sério.

Mia pensou.

— Não sei o nome… mas disse que ia avisar.

Miguel desviou o olhar por um instante.

Já sabia.

— Manuela… — murmurou, baixo.

A expressão dele mudou.

Não era só surpresa.

Era frustração.

Ele caminhou até o telefone da mesa.

E apertou um botão.

— Manuela, vem até minha sala. Agora.

Mia observou, sem entender completamente.

Mas sentindo que algo estava errado.

Minutos depois, a porta se abriu.

Manuela entrou.

Com postura impecável.

Mas o olhar… tenso.

Ela viu Mia ali.

Sentada.

Presente.

E aquilo foi como uma confirmação.

— Você me chamou? — perguntou, tentando manter o tom neutro.

Miguel foi direto.

— A Mia disse que ligou pra cá. Algumas vezes.

Manuela manteve a expressão.

— Sim… pode ser que…

— Você não me avisou — interrompeu ele.

O silêncio caiu.

Manuela hesitou por um segundo.

— Eu… devia estar ocupada. Pode ter passado.

Antes que Miguel dissesse algo, Mia falou.

Calma.

— Ela pode ter esquecido — disse. — Às vezes acontece… o dia é corrido.

Miguel olhou para Mia, surpreso.

Manuela também.

Mas, diferente dele…

o sentimento dela não foi alívio.

Foi raiva.

Porque, naquele momento, Mia não parecia uma ameaça direta.

Parecia… melhor.

E isso incomodava ainda mais.

Manuela assentiu levemente.

— Foi isso — disse. — Deve ter passado.

Miguel não parecia totalmente convencido.

Mas também não insistiu naquele momento.

— Tudo bem — disse, mais contido. — Pode voltar.

Manuela saiu da sala.

Mas, ao fechar a porta…

o olhar dela mudou completamente.

Frio.

Duro.

Incomodado.

Porque agora não era mais dúvida.

Era certeza.

Mia tinha voltado.

E, dessa vez…

não parecia disposta a ir embora tão fácil.

Dentro da sala, o silêncio voltou.

Miguel passou a mão no rosto, ainda processando.

— Eu não sabia…

Mia assentiu.

— Eu achei que você tinha seguido.

Ele olhou para ela, firme.

— Eu não segui.

Aquilo ficou entre os dois.

Mas, dessa vez…

não era o passado que pesava.

Era o que vinha depois.




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