Por um instante, o tempo parou.
Mas só por um instante.
Mia sentiu o coração acelerar ao ver Miguel ali, tão perto, tão real… depois de tudo.
A vontade de sorrir, de correr até ele, de dizer tudo o que ficou preso nesses dois meses… veio com força.
Mas ela não deixou transparecer.
Porque agora… não era sobre isso.
Era sobre ela.
Sobre o motivo que a trouxe até ali.
Mia respirou fundo, controlando as emoções, e saiu do elevador com postura firme.
— Oi — disse, simples.
Miguel ainda parecia sem acreditar.
— Mia… o que você tá fazendo aqui?
Ela sustentou o olhar.
— Eu vim.
Não explicou.
Não se justificou.
Mas aquilo já dizia tudo.
Miguel deu um pequeno passo à frente.
— Vem comigo — disse. — Vamos até minha sala.
Mia hesitou por um segundo.
— Não… eu não quero atrapalhar. Eu sei que você é ocupado…
Miguel negou com a cabeça, quase imediato.
— Você não atrapalha.
Houve firmeza na voz dele.
Mais do que isso… havia verdade.
Ele indicou o elevador novamente.
— Vem.
Dessa vez, Mia não recusou.
Os dois entraram.
O silêncio dentro do elevador era carregado.
Mas não desconfortável.
Era cheio de coisas não ditas.
Do lado de fora, Manuela observava.
Imóvel.
O olhar fixo nos dois.
O ciúme veio rápido.
Intenso.
Difícil de disfarçar.
Mesmo vestida de forma simples, Mia chamava atenção.
E aquilo incomodava mais do que Manuela gostaria de admitir.
Então é ela…
Essa é a Mia.
As portas do elevador se fecharam.
E, junto com elas… a paciência de Manuela começou a desaparecer.
No escritório, Miguel fechou a porta com calma.
Ainda olhando para Mia como se estivesse tentando entender se aquilo era real.
— Você veio mesmo…
Mia assentiu.
— Vim.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu pensei muito… e senti que era o certo a fazer.
Fez uma pequena pausa.
— Mesmo com a possibilidade de dar errado.
Miguel a observava com atenção total.
— Eu não podia deixar passar — continuou ela. — Mas eu também não posso ficar muito tempo. Eu consegui só alguns dias de folga.
Havia verdade em cada palavra.
Sem romantizar.
Sem exagero.
Miguel assentiu devagar.
— Você fez certo em vir.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais próximo.
Até que algo mudou na expressão dele.
— Mas… por que você não me avisou? — perguntou.
Mia franziu a testa, confusa.
— Eu avisei.
Miguel a olhou, sem entender.
— Como?
— Eu liguei — disse ela. — Algumas vezes. E também liguei pra produtora… falaram que você tava em reunião.
O silêncio caiu pesado.
Miguel ficou imóvel por um segundo.
Depois outro.
Algo começou a se encaixar.
E não de um jeito bom.
— Quem atendeu? — perguntou ele, agora mais sério.
Mia pensou.
— Não sei o nome… mas disse que ia avisar.
Miguel desviou o olhar por um instante.
Já sabia.
— Manuela… — murmurou, baixo.
A expressão dele mudou.
Não era só surpresa.
Era frustração.
Ele caminhou até o telefone da mesa.
E apertou um botão.
— Manuela, vem até minha sala. Agora.
Mia observou, sem entender completamente.
Mas sentindo que algo estava errado.
Minutos depois, a porta se abriu.
Manuela entrou.
Com postura impecável.
Mas o olhar… tenso.
Ela viu Mia ali.
Sentada.
Presente.
E aquilo foi como uma confirmação.
— Você me chamou? — perguntou, tentando manter o tom neutro.
Miguel foi direto.
— A Mia disse que ligou pra cá. Algumas vezes.
Manuela manteve a expressão.
— Sim… pode ser que…
— Você não me avisou — interrompeu ele.
O silêncio caiu.
Manuela hesitou por um segundo.
— Eu… devia estar ocupada. Pode ter passado.
Antes que Miguel dissesse algo, Mia falou.
Calma.
— Ela pode ter esquecido — disse. — Às vezes acontece… o dia é corrido.
Miguel olhou para Mia, surpreso.
Manuela também.
Mas, diferente dele…
o sentimento dela não foi alívio.
Foi raiva.
Porque, naquele momento, Mia não parecia uma ameaça direta.
Parecia… melhor.
E isso incomodava ainda mais.
Manuela assentiu levemente.
— Foi isso — disse. — Deve ter passado.
Miguel não parecia totalmente convencido.
Mas também não insistiu naquele momento.
— Tudo bem — disse, mais contido. — Pode voltar.
Manuela saiu da sala.
Mas, ao fechar a porta…
o olhar dela mudou completamente.
Frio.
Duro.
Incomodado.
Porque agora não era mais dúvida.
Era certeza.
Mia tinha voltado.
E, dessa vez…
não parecia disposta a ir embora tão fácil.
Dentro da sala, o silêncio voltou.
Miguel passou a mão no rosto, ainda processando.
— Eu não sabia…
Mia assentiu.
— Eu achei que você tinha seguido.
Ele olhou para ela, firme.
— Eu não segui.
Aquilo ficou entre os dois.
Mas, dessa vez…
não era o passado que pesava.
Era o que vinha depois.