Depois da conversa, o clima entre eles mudou.
Não ficou leve.
Mas ficou… possível.
Miguel respirou fundo, como se decidisse algo.
— Vem — disse. — Quero te mostrar uma coisa.
Mia o seguiu pelos corredores da produtora.
Cada passo revelava um novo mundo.
Salas com isolamento acústico, equipamentos modernos, vozes sendo testadas, músicas nascendo.
Ela observava tudo em silêncio.
Encantada.
— Aqui é onde a mágica acontece — disse Miguel, abrindo a porta de um estúdio.
Mia entrou devagar.
O olhar percorreu cada detalhe.
O microfone no centro.
Os fones.
A cabine.
— É aqui que você vai gravar sua primeira música.
Ela ficou imóvel por um segundo.
O coração acelerou.
— Isso… é real? — murmurou.
Miguel sorriu de leve.
— É.
Mia passou a mão no próprio braço, como se precisasse sentir que estava mesmo ali.
— Eu nunca imaginei…
— Agora imagina — disse ele, tranquilo.
Ela sorriu.
Mas não era só alegria.
Era incredulidade.
Era emoção.
Era um sonho, pela primeira vez, com forma.
Mais tarde, já saindo da produtora, Miguel perguntou:
— Você tá hospedada onde?
Mia hesitou um pouco.
— Em uma pensão.
Ele franziu levemente o cenho.
— Quer que eu te leve?
— Não precisa — respondeu ela rápido. — Eu me viro.
Miguel negou com a cabeça.
— Você não conhece a cidade.
Ela tentou insistir.
— Tá tudo bem, eu—
— Mia — interrompeu ele, com calma. — Deixa eu te levar.
Havia cuidado na voz dele.
Não imposição.
Ela acabou cedendo.
— Tá bom.
O caminho foi silencioso.
Mas confortável.
Quando chegaram, Miguel diminuiu a velocidade ao observar o local.
Simples.
Antigo.
Mal iluminado.
Ele olhou para Mia.
— É aqui que você tá ficando?
Ela assentiu, tranquila.
— Era o que eu podia pagar. É só por alguns dias.
Miguel ficou em silêncio por um momento.
Claramente incomodado.
— Você podia ficar lá em casa — disse.
Mia virou o rosto rapidamente.
— Não.
Ele a olhou, surpreso.
— Por quê?
— Porque não é certo — respondeu ela, firme. — A gente não precisa disso.
Miguel abriu a boca para argumentar.
Mas ela continuou:
— Eu tô aqui por mim. Não quero misturar as coisas.
Aquilo fez ele respeitar ainda mais.
Mas não diminuiu a preocupação.
— Então pelo menos eu subo com você — disse.
Ela hesitou.
Mas aceitou.
Quando abriram a porta do quarto…
algo estava errado.
A mochila de Mia estava no chão.
Aberta.
Revirada.
O quarto inteiro parecia mexido.
— Não… — ela sussurrou.
Mia correu até a mochila.
Começou a procurar desesperadamente.
Abrindo tudo.
Virando tudo.
— Não… não… não…
O desespero crescia a cada segundo.
Ela parou.
As mãos tremendo.
— O dinheiro… — disse, quase sem voz.
Miguel se aproximou.
— O que tem?
Ela o olhou, os olhos cheios.
— Não tá aqui.
O silêncio veio pesado.
Mia passou a mão no rosto, tentando se controlar.
Mas não conseguiu.
— Era tudo que eu tinha… — a voz falhou. — Eu… eu não devia ter vindo…
O medo voltou.
Mais forte.
Mais cruel.
— Eu fui burra… — murmurou. — Saí de lá pra isso…
Miguel se aproximou mais.
Sem pressa.
Sem invadir.
— Ei — disse, firme, mas calmo. — Olha pra mim.
Ela demorou, mas olhou.
— Isso não muda o que você veio fazer aqui — continuou ele. — Só muda o que a gente precisa resolver agora.
A palavra “a gente” ficou.
— Pega suas coisas — disse ele.
Mia hesitou.
— Pra onde?
— Primeiro a gente vai na delegacia.
O tom não deixava espaço pra dúvida.
— E depois?
Miguel sustentou o olhar dela.
— Depois você vai pra um lugar seguro.
Ela já sabia o que ele queria dizer.
— Miguel…
— Não é discussão — disse ele, com calma. — É cuidado.
Mia respirou fundo.
Dessa vez, não discutiu.
Porque, naquele momento…
ela não precisava provar força.
Precisava aceitar ajuda.
Na delegacia, registraram a ocorrência.
Procedimento simples.
Mas necessário.
Depois, já de noite, Miguel dirigiu em silêncio.
Mia olhava pela janela.
Cansada.
Emocionalmente exausta.
Quando o carro parou, ela percebeu.
Era o prédio dele.
Ela respirou fundo.
Sabia o que aquilo significava.
— É só por uns dias — disse ele, antes que ela falasse. — Até você se organizar.
Ela olhou para ele.
Dessa vez… sem resistência.
Porque, no fundo…
ela sabia.
Ela não tinha mais pra onde ir.
— Tá bom — disse, baixo.
E, naquele momento…
sem perceber completamente…
Mia deu mais um passo.
Não só em direção ao sonho.
Mas em direção a uma nova fase da vida dela.