O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 18 — ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Depois da conversa, o clima entre eles mudou.

Não ficou leve.

Mas ficou… possível.

Miguel respirou fundo, como se decidisse algo.

— Vem — disse. — Quero te mostrar uma coisa.

Mia o seguiu pelos corredores da produtora.

Cada passo revelava um novo mundo.

Salas com isolamento acústico, equipamentos modernos, vozes sendo testadas, músicas nascendo.

Ela observava tudo em silêncio.

Encantada.

— Aqui é onde a mágica acontece — disse Miguel, abrindo a porta de um estúdio.

Mia entrou devagar.

O olhar percorreu cada detalhe.

O microfone no centro.

Os fones.

A cabine.

— É aqui que você vai gravar sua primeira música.

Ela ficou imóvel por um segundo.

O coração acelerou.

— Isso… é real? — murmurou.

Miguel sorriu de leve.

— É.

Mia passou a mão no próprio braço, como se precisasse sentir que estava mesmo ali.

— Eu nunca imaginei…

— Agora imagina — disse ele, tranquilo.

Ela sorriu.

Mas não era só alegria.

Era incredulidade.

Era emoção.

Era um sonho, pela primeira vez, com forma.

Mais tarde, já saindo da produtora, Miguel perguntou:

— Você tá hospedada onde?

Mia hesitou um pouco.

— Em uma pensão.

Ele franziu levemente o cenho.

— Quer que eu te leve?

— Não precisa — respondeu ela rápido. — Eu me viro.

Miguel negou com a cabeça.

— Você não conhece a cidade.

Ela tentou insistir.

— Tá tudo bem, eu—

— Mia — interrompeu ele, com calma. — Deixa eu te levar.

Havia cuidado na voz dele.

Não imposição.

Ela acabou cedendo.

— Tá bom.

O caminho foi silencioso.

Mas confortável.

Quando chegaram, Miguel diminuiu a velocidade ao observar o local.

Simples.

Antigo.

Mal iluminado.

Ele olhou para Mia.

— É aqui que você tá ficando?

Ela assentiu, tranquila.

— Era o que eu podia pagar. É só por alguns dias.

Miguel ficou em silêncio por um momento.

Claramente incomodado.

— Você podia ficar lá em casa — disse.

Mia virou o rosto rapidamente.

— Não.

Ele a olhou, surpreso.

— Por quê?

— Porque não é certo — respondeu ela, firme. — A gente não precisa disso.

Miguel abriu a boca para argumentar.

Mas ela continuou:

— Eu tô aqui por mim. Não quero misturar as coisas.

Aquilo fez ele respeitar ainda mais.

Mas não diminuiu a preocupação.

— Então pelo menos eu subo com você — disse.

Ela hesitou.

Mas aceitou.

Quando abriram a porta do quarto…

algo estava errado.

A mochila de Mia estava no chão.

Aberta.

Revirada.

O quarto inteiro parecia mexido.

— Não… — ela sussurrou.

Mia correu até a mochila.

Começou a procurar desesperadamente.

Abrindo tudo.

Virando tudo.

— Não… não… não…

O desespero crescia a cada segundo.

Ela parou.

As mãos tremendo.

— O dinheiro… — disse, quase sem voz.

Miguel se aproximou.

— O que tem?

Ela o olhou, os olhos cheios.

— Não tá aqui.

O silêncio veio pesado.

Mia passou a mão no rosto, tentando se controlar.

Mas não conseguiu.

— Era tudo que eu tinha… — a voz falhou. — Eu… eu não devia ter vindo…

O medo voltou.

Mais forte.

Mais cruel.

— Eu fui burra… — murmurou. — Saí de lá pra isso…

Miguel se aproximou mais.

Sem pressa.

Sem invadir.

— Ei — disse, firme, mas calmo. — Olha pra mim.

Ela demorou, mas olhou.

— Isso não muda o que você veio fazer aqui — continuou ele. — Só muda o que a gente precisa resolver agora.

A palavra “a gente” ficou.

— Pega suas coisas — disse ele.

Mia hesitou.

— Pra onde?

— Primeiro a gente vai na delegacia.

O tom não deixava espaço pra dúvida.

— E depois?

Miguel sustentou o olhar dela.

— Depois você vai pra um lugar seguro.

Ela já sabia o que ele queria dizer.

— Miguel…

— Não é discussão — disse ele, com calma. — É cuidado.

Mia respirou fundo.

Dessa vez, não discutiu.

Porque, naquele momento…

ela não precisava provar força.

Precisava aceitar ajuda.

Na delegacia, registraram a ocorrência.

Procedimento simples.

Mas necessário.

Depois, já de noite, Miguel dirigiu em silêncio.

Mia olhava pela janela.

Cansada.

Emocionalmente exausta.

Quando o carro parou, ela percebeu.

Era o prédio dele.

Ela respirou fundo.

Sabia o que aquilo significava.

— É só por uns dias — disse ele, antes que ela falasse. — Até você se organizar.

Ela olhou para ele.

Dessa vez… sem resistência.

Porque, no fundo…

ela sabia.

Ela não tinha mais pra onde ir.

— Tá bom — disse, baixo.

E, naquele momento…

sem perceber completamente…

Mia deu mais um passo.

Não só em direção ao sonho.

Mas em direção a uma nova fase da vida dela.




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