O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 20 — O SOM DE QUEM ELA SE TORNOU

O estúdio estava em silêncio.

Mia segurava o fone com as duas mãos, tentando controlar a respiração.

Do outro lado do vidro, Miguel a observava com atenção.

Sem pressão.

Sem pressa.

— Quando quiser — disse ele pelo microfone.

Mia fechou os olhos por um instante.

E então… começou.

“Encontrei meu lugar
Não foi longe, nem além
Tava dentro de mim
E eu não via também…”

A voz saiu suave.

Levemente insegura no início.

Mas… verdadeira.

Miguel não interrompeu.

Apenas ouviu.

“Minha voz me chamou
Quando eu quis me esconder…”

Houve um pequeno tremor.

Falta de técnica.

Respiração ainda irregular.

Mas havia algo que não se ensinava.

Sentimento.

Quando ela terminou, o silêncio no estúdio foi diferente.

Não era vazio.

Era preenchido.

Mia abriu os olhos devagar.

Insegura.

— Ficou ruim? — perguntou.

Miguel apertou o botão do microfone.

— Ficou real.

Ela soltou o ar, ainda sem saber se aquilo era bom ou não.

— A técnica vem com o tempo — continuou ele. — Mas isso aqui… não se ensina.

Mia sorriu de leve.

Pela primeira vez… sem se diminuir.

Era o começo.

Sua primeira música.

Autoral.

Imperfeita.

Mas… dela.

Do lado de fora, Manuela observava.

Em silêncio.

O olhar fixo.

Frio.

Ela não via apenas uma garota cantando.

Via uma ameaça.

Mais tarde, Miguel saiu do estúdio e chamou:

— Manuela.

Ela se aproximou, controlada.

— Sim?

— Reserva um restaurante pra hoje à noite.

— Claro. Quantas pessoas?

— Duas.

Manuela já sabia.

Mas perguntou mesmo assim:

— Alguma preferência?

Miguel respondeu simples:

— Um lugar bom.

Ela assentiu.

Mas, por dentro…

decidiu mais do que isso.

Reservou um dos restaurantes mais caros e exclusivos da cidade.

Frequentado por empresários, artistas e gente que vivia em um mundo muito distante do de Mia.

E sorriu discretamente.

No fim da tarde, Miguel se aproximou de Mia.

— Quer jantar comigo hoje?

Ela hesitou na hora.

— Eu… não sei.

Ele percebeu.

— O que foi?

Mia desviou o olhar.

— Eu não tenho roupa pra esse tipo de lugar.

Não era vergonha.

Era realidade.

Miguel pensou por um segundo.

E sorriu de leve.

— Então vem comigo.

— Pra onde?

— Confia.

Ela hesitou.

Mas foi.

O carro parou em frente a uma loja elegante.

Mia olhou, confusa.

— Miguel…

— Só entra — disse ele.

Lá dentro, uma senhora simpática os recebeu.

— Quanto tempo, Miguel!

— Dona Helena — respondeu ele, sorrindo. — Preciso de uma ajuda.

Ele olhou para Mia.

— Pra ela.

Mia arregalou levemente os olhos.

— Não, Miguel, eu não—

— Calma — interrompeu ele, tranquilo. — É só um vestido.

— Eu não posso aceitar isso.

Ele a olhou, sério… mas gentil.

— Pode, sim.

Ela negou com a cabeça.

— É demais.

Miguel respirou fundo.

E disse, simples:

— Depois do jantar que você fez ontem… isso aqui é o mínimo.

O silêncio veio.

Não era sobre o valor.

Era sobre o gesto.

Mia hesitou mais um pouco.

Mas, no fundo…

entendeu.

Não era caridade.

Era cuidado.

— Tá bom… — disse, baixo.

Dona Helena sorriu.

— Vamos encontrar algo à altura dela.

Mia ficou sem graça.

Mas, pela primeira vez…

se permitiu.

Enquanto isso, Manuela conferia a reserva no restaurante.

Tudo pronto.

Tudo perfeito.

E, na mente dela…

tudo calculado.

Porque, naquela noite…

ela acreditava que Mia perceberia

que não pertencia àquele mundo.

Mas o que Manuela ainda não entendia…

era que Mia não estava mais tentando pertencer.

Ela estava aprendendo a ser.




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