Mia ainda não estava convencida de que deveria estar ali.
Desde que o carro havia parado em frente à loja de Dona Helena, ela sentia o coração bater mais rápido. O lugar era elegante, iluminado por grandes vitrines e repleto de vestidos que pareciam pertencer a outro mundo.
Um mundo que definitivamente não era o dela.
— Miguel, isso é exagero — disse pela terceira vez.
— Não é exagero — respondeu ele, tranquilo. — É só um jantar.
— Um jantar em um lugar onde as pessoas provavelmente pagam mais numa refeição do que eu gasto em um mês.
Miguel segurou o riso.
— Então é melhor você não olhar o preço do cardápio.
Mia revirou os olhos, arrancando dele um sorriso sincero.
Dona Helena observava a cena de longe.
Ela conhecia Miguel havia muitos anos. Era mãe de um dos melhores amigos dele da época da faculdade e, durante muito tempo, viu o rapaz frequentar aquela loja acompanhando artistas, empresários e pessoas importantes.
Mas nunca daquela forma.
Nunca olhando para alguém daquele jeito.
— Venha comigo, querida — disse ela, aproximando-se de Mia. — Vamos encontrar o vestido certo.
Mia a acompanhou entre os corredores, sentindo-se cada vez mais deslocada.
Vestidos longos, tecidos delicados, bordados discretos e etiquetas que a faziam arregalar os olhos.
— Isso deve custar um rim inteiro — murmurou.
Dona Helena riu.
— Fique tranquila. Hoje você só precisa experimentar.
Durante vários minutos, Mia recusou praticamente tudo.
Achava alguns vestidos bonitos demais.
Outros chamativos demais.
Outros simplesmente não pareciam ela.
Até que seus olhos pararam em um modelo específico.
Era elegante sem ser exagerado.
Um vestido longo em tom lilás suave, quase pastel, que valorizava delicadamente sua pele clara e seus cabelos castanhos ondulados. O tecido caía de forma leve, com pequenas camadas que se movimentavam suavemente a cada passo.
As mangas eram delicadas e os detalhes discretos davam ao vestido um ar romântico e sofisticado ao mesmo tempo.
Mia ficou olhando para ele por alguns segundos.
— Esse... — disse baixinho.
Dona Helena sorriu imediatamente.
— Eu sabia.
— Sabia?
— Assim que você entrou.
Mia acabou rindo.
Minutos depois, entrou no provador.
Quando vestiu a peça e se virou para o espelho, ficou parada.
Por alguns segundos, não se reconheceu.
Não porque tivesse mudado.
Mas porque nunca havia se permitido se enxergar daquela forma.
A garota simples do supermercado ainda estava ali.
Mas agora ela conseguia vê-la.
E ela era bonita.
Muito mais bonita do que acreditava.
Dona Helena percebeu a emoção nos olhos dela.
— Você está vendo agora, não está?
— Vendo o quê?
— A mulher que todo mundo vê.
Mia desviou o olhar, sem jeito.
Ainda era difícil acreditar.
Depois do vestido escolhido, Dona Helena insistiu em ajudá-la com os últimos detalhes.
Prendeu parte dos cabelos castanhos ondulados em um penteado delicado, deixando algumas mechas soltas emoldurando o rosto. Em seguida, fez uma maquiagem leve, realçando seus olhos castanhos sem esconder a naturalidade que a tornava tão especial.
Enquanto trabalhavam, a conversa fluiu naturalmente.
E, inevitavelmente, chegou até Miguel.
— Então você trabalha com ele? — perguntou Dona Helena.
— Na verdade... não exatamente.
— Mas pretende trabalhar.
Mia sorriu.
— Talvez.
Dona Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse algo que fez Mia prestar atenção imediatamente.
— Sabe... eu achei que nunca mais fosse vê-lo sorrir daquele jeito.
— Daquele jeito?
— Como ele sorri quando fala de você.
Mia ficou surpresa.
— Ele fala de mim?
— Mais do que imagina.
O coração dela acelerou.
— Eu não sabia.
Dona Helena suspirou.
— Depois do que aconteceu no passado, eu sinceramente achei que Miguel nunca mais deixaria ninguém se aproximar.
Mia levantou os olhos.
— O que aconteceu?
A senhora pareceu perceber que tinha falado mais do que deveria.
— Não é minha história para contar.
Mas já era tarde.
A curiosidade tinha sido plantada.
Porque, naquele momento, Mia percebeu algo importante.
Ela sabia muito pouco sobre Miguel.
Sabia quem ele era hoje.
Sabia como ele a tratava.
Mas não sabia o que havia quebrado seu coração.
Nem o que ainda o fazia parecer triste às vezes.
Pouco depois, Dona Helena terminou os últimos ajustes.
— Pronto.
Mia respirou fundo.
Era hora de sair do camarim.
Quando abriu a cortina, Miguel ergueu os olhos.
E simplesmente ficou em silêncio.
Por alguns segundos, esqueceu completamente o que estava dizendo.
A mesma garota que ele encontrara cantando entre caixas de frutas no supermercado parecia agora saída de um sonho.
O vestido destacava sua elegância natural.
Os cabelos caíam suavemente sobre os ombros.
E o brilho em seus olhos fazia todo o resto desaparecer.
Miguel demorou alguns instantes para encontrar as palavras.
— Uau...
Mia imediatamente ficou vermelha.
— Tá ruim?
— Se eu disser que está ruim, vou estar mentindo.
Ela abaixou os olhos, sem graça.
Miguel sorriu.
— Você está linda.
Dona Helena observava a cena com satisfação.
Depois desapareceu por alguns minutos e voltou trazendo uma pequena caixa.
— Quase esqueci.
Miguel abriu a caixa.
Dentro havia um conjunto delicado de joias.
Um colar discreto com uma pequena pedra brilhante e brincos combinando.
Elegantes.
Simples.
Mas valiosos.
— Miguel, não... — começou Mia.
— Aceita.
— É demais.
— Não é.
Ela tentou protestar mais uma vez.