O restaurante era ainda mais bonito por dentro do que parecia do lado de fora.
Luzes suaves refletiam nos lustres de cristal. Um piano tocava ao fundo, preenchendo o ambiente com uma melodia tranquila. Garçons caminhavam silenciosamente entre as mesas, e conversas baixas se misturavam ao som dos talheres.
Mas nada disso ocupava a mente de Mia.
Ela ainda estava tentando entender como tinha ido parar ali.
Sentada em um dos restaurantes mais sofisticados da cidade.
Usando um vestido que jamais imaginou vestir.
Ao lado de Miguel.
Às vezes ela tinha a sensação de que acordaria e descobriria que tudo não passava de um sonho.
Miguel percebeu o olhar dela vagando pelo salão.
— Ainda tentando acreditar?
Mia sorriu sem graça.
— Um pouco.
— Vai passar.
— Acho que não.
Ele riu.
— Vai sim.
Durante alguns minutos, conversaram sobre coisas simples.
Sobre a viagem de Mia.
Sobre a gravação da música.
Sobre a cidade.
Era fácil conversar com Miguel quando ele deixava de ser o produtor e voltava a ser apenas... Miguel.
Aquele homem que ela conheceu entre corredores de supermercado.
Aquele que ouviu sua voz antes de qualquer outra pessoa.
Em determinado momento, porém, Mia percebeu algo.
Mesmo sorrindo.
Mesmo parecendo tranquilo.
Havia uma tristeza escondida nele.
Uma tristeza antiga.
Ela já tinha visto aquele olhar antes.
Algumas vezes no restaurante.
Outras na produtora.
Era como se ele carregasse uma saudade permanente.
Uma ausência.
E, sem perceber, ela acabou lembrando da conversa que teve com Dona Helena naquela tarde.
A frase continuava ecoando em sua mente.
"Achei que nunca mais fosse vê-lo sorrir daquele jeito."
Mia hesitou por alguns segundos.
Depois criou coragem.
— Posso te fazer uma pergunta?
Miguel apoiou o copo na mesa.
— Pode.
— Hoje, na loja... Dona Helena disse uma coisa que ficou na minha cabeça.
Miguel a observou com atenção.
— O que ela disse?
— Ela falou que achou que nunca mais veria você sorrindo daquele jeito.
O efeito foi imediato.
Não dramático.
Não explosivo.
Mas imediato.
O sorriso dele enfraqueceu.
Não completamente.
Mas o suficiente.
Miguel baixou os olhos por um segundo.
Apenas um segundo.
Mas Mia percebeu.
E aquilo bastou.
Ela sentiu o arrependimento chegar na mesma hora.
— Desculpa.
Miguel voltou a olhá-la.
— Não precisa pedir desculpas.
— Preciso sim.
Ela mexeu nervosamente nos dedos.
— Eu não devia ter perguntado.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
O piano continuava tocando ao fundo.
As pessoas continuavam conversando.
Mas, naquela mesa, o clima havia mudado.
Miguel respirou fundo.
— Algumas histórias demoram mais para serem contadas.
A resposta foi simples.
Mas carregava muito mais do que dizia.
Mia assentiu.
Ela entendeu.
Não porque soubesse o que tinha acontecido.
Mas porque conhecia aquele tipo de dor.
Existiam feridas que ainda não estavam prontas para ver a luz.
— Tudo bem — respondeu baixinho. — Eu não vou insistir.
Miguel observou o rosto dela por alguns instantes.
E algo dentro dele relaxou.
Porque Mia não exigia respostas.
Não pressionava.
Não tentava entrar em lugares onde ele ainda não conseguia abrir a porta.
Ela apenas respeitava.
E aquilo era raro.
Muito raro.
O assunto mudou naturalmente depois disso.
Mas, de alguma forma, a conversa ficou ainda mais sincera.
Eles falaram sobre infância.
Sobre sonhos.
Sobre medos.
Sobre as coisas que ninguém costuma admitir.
Mia contou que, por muito tempo, acreditou que seus sonhos eram grandes demais para alguém como ela.
Miguel respondeu que os maiores sonhos geralmente nascem exatamente em pessoas que aprenderam a viver com pouco.
E, pela primeira vez naquela noite, ela acreditou nele.
Do outro lado do salão, porém, Manuela observava tudo.
E quanto mais observava...
Mais raiva sentia.
Porque Miguel não sorria daquele jeito com ninguém havia anos.
E ela sabia disso melhor do que qualquer pessoa.