A manhã chegou devagar.
Mia acordou antes do despertador.
Por um instante, ficou deitada em silêncio, olhando o teto branco do quarto.
Tudo parecia igual.
Mas nada era igual.
Ela respirou fundo e se levantou.
Ainda havia uma sensação estranha no peito.
Uma mistura de gratidão e aperto.
Como se estivesse vivendo algo que já estava acabando antes mesmo de terminar.
Do outro lado do apartamento, Miguel já estava acordado.
Mas não saiu do quarto.
Sentado à beira da cama, com o cotovelo apoiado nos joelhos, ele encarava o chão como se tentasse organizar pensamentos demais ao mesmo tempo.
A gravação de Mia.
O jantar da noite anterior.
A forma como ela o olhou quando perguntou sobre o passado.
E principalmente…
o silêncio que ele não conseguiu preencher depois.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado.
Não era só trabalho.
Era outra coisa.
Algo que ele ainda não sabia nomear.
Na cozinha, Mia preparava um café simples.
Os movimentos eram automáticos, mas a mente não estava ali.
Ela olhava pela janela às vezes, distraída.
Pensando no tempo.
Três dias.
Só isso.
O som de passos a fez virar o rosto.
Miguel apareceu no corredor.
Camiseta simples, expressão mais fechada do que o normal.
— Bom dia — ele disse.
— Bom dia — respondeu ela, tentando sorrir.
Houve um pequeno silêncio.
Diferente dos outros dias.
Mais pesado.
Mais consciente.
Miguel pegou uma xícara.
Mas não bebeu de imediato.
— Hoje você vai ao estúdio?
Mia assentiu.
— Acho que sim… quero ver como ficou a gravação.
Ele concordou.
— Ótimo.
Mas não disse mais nada.
E isso, de alguma forma, incomodou Mia.
No caminho até a produtora, o carro seguia em silêncio.
Miguel dirigia com atenção, mas parecia distante.
Mia observava a cidade pela janela.
E pela primeira vez, percebeu algo que não tinha notado antes:
Ela estava começando a se sentir em casa ali.
E isso era perigoso.
Porque “casa” era algo que não deveria mudar tão rápido.
Na produtora, o ambiente estava movimentado.
Técnicos andando de um lado para o outro.
Som sendo testado.
Pessoas falando sobre projetos.
Mas quando Mia entrou no estúdio, tudo pareceu diminuir.
Miguel mostrou a ela a gravação finalizada.
— Quer ouvir?
Ela assentiu.
Colocou os fones.
E ouviu.
Sua voz.
Mas agora… mais limpa.
Mais forte.
Mais profissional.
Mesmo assim, ainda era ela.
Quando terminou, ficou em silêncio.
Miguel a observava do outro lado do vidro.
— E então? — ele perguntou.
Mia tirou os fones devagar.
— Parece… real.
Ele sorriu levemente.
— Porque é.
Ela abaixou o olhar por um instante.
E então disse:
— Eu acho que ainda não entendi tudo isso.
Miguel respondeu depois de um tempo:
— Nem eu.
Do lado de fora do estúdio, Manuela observava novamente.
Mas agora não havia apenas raiva.
Havia decisão.
Ela já não estava apenas incomodada.
Estava incomodada demais.
E isso começava a virar ação.
Mais tarde, no final do dia, Miguel recebeu uma ligação.
Ele olhou para o celular antes de atender.
— Alô?
Mia continuou organizando algumas coisas no estúdio, mas percebeu que a expressão dele mudou aos poucos.
Miguel ouviu em silêncio por alguns segundos.
— Certo. Eu resolvo isso.
Desligou.
Mia olhou para ele.
— Aconteceu alguma coisa?
Miguel respirou fundo antes de responder.
— Surgiu um compromisso profissional que eu preciso resolver pessoalmente. Vou ter que viajar antes do que imaginava.
Mia ficou em silêncio por alguns segundos.
— Quando?
— Daqui a dois dias.
Ela tentou disfarçar a pequena decepção que sentiu.
Dois dias.
O tempo que já parecia curto agora parecia ainda menor.
Miguel percebeu.
— Eu não queria que fosse assim.
Mia sorriu de leve.
— Você tem trabalho. Eu entendo.
Mas, enquanto dizia aquilo, sentiu algo apertar dentro do peito.
Porque agora ela sabia que não eram apenas os seus dias na cidade que estavam chegando ao fim.
Miguel também iria embora.
E, de repente, aqueles dois dias pareciam pouco demais para tudo aquilo que ainda não tinham dito.