O Som Do Meu Destino

CAPÍTULO 25 — DOIS DIAS

Dois dias.

Era pouco tempo.

Mia repetiu aquelas palavras várias vezes naquela noite, deitada na cama e olhando para o teto.

Dois dias.

Até então, ela ainda tinha a sensação de que havia tempo. Tempo para conhecer melhor a cidade, para entender o que estava acontecendo com sua música, para descobrir um pouco mais sobre Miguel.

Agora, tudo parecia ter ganhado uma contagem regressiva.

Ela virou de lado e fechou os olhos.

Não queria pensar na partida dele.

Mas quanto mais tentava evitar, mais a ideia voltava.

Miguel iria embora.

E, depois, ela também.

Cada um seguiria seu caminho.

Talvez fosse assim que deveria ser.

Talvez aquilo tudo tivesse acontecido apenas para mostrar a ela que era capaz de tentar.

Mas uma pequena parte de Mia não queria acreditar que terminaria ali.

Na manhã seguinte, ela acordou cedo.

Vestiu-se em silêncio e saiu do quarto.

Encontrou Miguel na cozinha, preparando café.

Ele ergueu os olhos quando percebeu sua presença.

— Bom dia.

— Bom dia.

Por alguns segundos, os dois apenas se olharam.

Mia ainda estava pensando na conversa do dia anterior.

Miguel percebeu.

— Você dormiu bem?

Ela hesitou.

— Mais ou menos.

Ele sorriu de leve.

— Eu também.

Mia se aproximou da mesa.

— Você já sabe quando vai voltar?

Miguel ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Ainda não.

Ela assentiu.

— Entendi.

Ele colocou uma xícara de café diante dela.

— Não precisa ficar pensando nisso agora.

Mia segurou a xícara com as duas mãos.

— É difícil não pensar.

Miguel se sentou à frente dela.

— Eu sei.

Ela ergueu os olhos.

— Você sempre sabe.

Ele sorriu.

— Nem sempre.

A resposta fez Mia sorrir também.

E, por alguns segundos, o peso da partida pareceu desaparecer.

Naquele dia, Miguel decidiu levá-la novamente à produtora.

Não porque houvesse uma gravação marcada.

Mas porque queria mostrar a ela algumas coisas que ainda não tinha conseguido explicar.

Mia caminhou pelos corredores observando tudo com atenção.

Já não sentia o mesmo estranhamento dos primeiros dias.

As pessoas começavam a reconhecê-la.

Alguns técnicos sorriam.

Outros a cumprimentavam.

E aquilo fez seu coração bater diferente.

Talvez ela realmente pudesse pertencer àquele lugar.

Miguel abriu a porta de uma sala pequena.

Dentro havia um piano.

Mia parou na entrada.

— Você toca?

— Um pouco.

— Então toca.

Ele riu.

— Eu não sabia que você dava ordens agora.

— Não estou dando ordens.

Ela sorriu.

— Estou pedindo.

Miguel se sentou diante do piano.

Por alguns segundos, ficou olhando para as teclas.

Então começou a tocar.

A melodia era simples.

Suave.

Melancólica.

Mia permaneceu em silêncio.

Não sabia explicar, mas havia algo naquela música que parecia combinar com ele.

Quando terminou, Miguel levantou os olhos.

— Não é nada pronto.

— É bonita.

— É antiga.

Mia se aproximou.

— Você escreveu?

Miguel assentiu.

— Há alguns anos.

Ela percebeu novamente aquela sombra no olhar dele.

A mesma que tinha visto no restaurante.

Mas dessa vez não perguntou.

Apenas ficou ao lado dele.

E, de alguma forma, o silêncio entre os dois pareceu suficiente.

— Sabe o que eu pensei quando ouvi você cantar pela primeira vez? — perguntou Miguel.

Mia balançou a cabeça.

— O quê?

— Que você cantava como alguém que tinha passado muito tempo guardando coisas dentro de si.

Ela sorriu sem graça.

— Talvez eu tenha passado.

Miguel olhou para ela.

— E agora?

Mia pensou por alguns segundos.

— Agora acho que estou aprendendo a colocar algumas delas para fora.

— Através da música?

— Através da música.

Miguel sorriu.

— Então continue.

Mia ficou olhando para ele.

— Mesmo quando você não estiver aqui?

A pergunta escapou antes que ela pudesse impedir.

O silêncio que veio depois fez Mia perceber o que tinha acabado de dizer.

Ela desviou o olhar.

— Desculpa. Eu não quis...

— Mia.

Ela voltou a olhar para ele.

Miguel estava sorrindo.

— Mesmo quando eu não estiver aqui.

Ela respirou fundo.

— Então eu vou tentar.

— Não.

Ele se levantou.

— Você vai fazer.

Mia sorriu.

Talvez fosse exatamente aquilo que ela precisava ouvir.

Não uma promessa.

Não uma garantia de que ele ficaria.

Apenas alguém acreditando nela.

Mais tarde, enquanto Miguel resolvia algumas questões de trabalho, Mia ficou no estúdio.

Pegou um papel e começou a escrever.

Não sabia exatamente o que estava fazendo.

Só sabia que precisava colocar no papel aquilo que estava sentindo.

As primeiras palavras vieram devagar.

Depois outras.

Quando percebeu, havia escrito quase uma página.

Miguel entrou na sala e a encontrou concentrada.

— O que está escrevendo?

Mia cobriu o papel rapidamente.

— Nada.

Ele sorriu.

— Parece importante.

— Ainda não sei.

— Quando souber, me mostra.

Ela assentiu.

Naquele momento, Manuela apareceu na porta.

— Miguel, você precisa assinar alguns documentos.

— Já vou.

Manuela olhou para Mia.

O sorriso que tentou oferecer não chegou aos olhos.

— Claro.

Ela saiu.

Miguel voltou a olhar para Mia.

— Está tudo bem?

— Está.

Mas Mia percebeu que Manuela continuava sendo uma presença estranha naquele lugar.

E, pela primeira vez, começou a entender que nem todos estavam felizes com a presença dela.

No fim da tarde, Miguel a levou para casa.




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