Palavras Ditas ao Acaso

Episodio 2: As dezesseis torres

Depois morreu o Taizu dos Ming e subiu ao trono seu neto. O principe de Yan, Zhu Di, enfeitiçado pelo monge calvo Yao Guangxiao, levantou tropas em Beiping, tomou o imperio de Jianwen e mudou o periodo de reinado para Yongle. Odiava os leais da campanha de Jingnan porque nao se submetiam a ele. Mandou matar fieis; entre os homens, velhos e crianças, muitos foram executados; entre as mulheres de suas casas, grandes e pequenas, muitas foram entregues aos registros oficiais de musica e prazer.

Dentro e fora da cidade, mandou construir dezesseis torres: Chongyi, Shicheng, Heming, Zuixian, Lemin, Jixian, Qingyan, Danfen, Meiyan, Liucui, Gufu, Ouge, Nanshi, Beishi, Qingliang e Laibin. Ali as distribuiu e colocou o Jiaofang Si para governa-las, sob a musica ritual da Corte de Taichang.

O Jiaofang Si tinha gorros de gaze, cintos, tunicas redondas com insígnias; tinha repartição, assentos oficiais, pinceis vermelhos, escrivães, serventes, varas de castigo e tubos de sorteio. Parecia uma autoridade verdadeira. So que, ao encontrar clientes, nao ousava cruzar as maos com dignidade.

Ano apos ano, recolhiam-se os lucros e entregavam-se ao Tesouro Jinhua do palacio, para os gastos de po e pintura das consortes. Deram a isso um nome bonito: prata das flores douradas. O que vinha da vergonha de baixo servia para adornar rostos de cima. Nao se pode dizer mais sem rir com amargura.

Essas dezesseis torres foram, portanto, obra do imperador Yongle para tirar proveito. Nao eram como outros bordeis ou casas de canto. Tinham vigas entalhadas e colunas pintadas, edificios de jade e pavilhoes luminosos. Os beirais voavam com figuras de animais; as janelas eram lavradas como flores de castanha-d'agua. Ao anoitecer, lanternas de gaze e velas preciosas iluminavam tudo ate parecer dia. Taças, cantos baixos, danças delicadas, cordas e flautas alegravam os olhos ao amanhecer e ensurdeciam os ouvidos ao anoitecer.

Quanto as mulheres belas que continham, ninguem podia conta-las. Era o primeiro esplendor antigo e moderno, e tambem a primeira politica estranha ja inventada. Estranha, sim; cruel, tambem.

Houve um poema que lamentou aquelas torres:

Prosperam norte e sul: dezesseis torres.
As cordas movem um rio de tristeza.
Se ha lei para advertir e punir,
por que fazer cair a culpa sobre mulheres?
Flores nos becos unem Qin e alvoradas;
nos palcos canta o outono de Han.
No inicio foi para abrir comercio;
quem sabia que haveria prisioneiras do prazer?

Lido esse poema, entende-se o cenário daquele tempo. Numa so frase cabiam elogio e cusparada.

Na epoca de Jiajing, esse costume começou a enfraquecer. Mas dele nasceu outra especie, ainda mais risivel: as cortesãs cegas.

Pensemos. Uma mulher com os cinco sentidos completos pode, mesmo assim, ser feia e desagradavel. Se lhe faltam os olhos, o que resta para olhar? Nas mulheres de canto, o encanto costuma depender de insinuar sentimento com os olhos, de transmitir desejo pelo canto do olhar. Se as palpebras estao fechadas, onde esta a graça?

Conta-se que antigamente houve quem amasse uma mulher caolha com paixao estranha, a ponto de se casar com ela. Todos riram. Ele respondeu: "Desde que a tenho, todas as mulheres do mundo me parecem ter um olho a mais." Isso nao passava da loucura de um homem, nao muito diferente de outros gostos tortos. Mas uma mulher cega dos dois olhos podia ainda tornar-se objeto de desejo?

A razao existia, e vinha dos costumes daquele lugar.

Quando as dezesseis torres ja nao brilhavam como antes, surgiu outro sitio famoso: o Patio Antigo, tambem chamado Patio da Canção. A porta da frente olhava para a ponte Wuding; a de tras dava para a rua Chaoku. As casas das cortesãs se apertavam umas contra as outras como escamas. Os quartos eram limpos e finos; flores e arvores se distribuiam com gosto; balaustradas pintadas, janelas de seda, cortinas bordadas: parecia morada de imortais, nao lugar de po.

Nos patios havia bonsais de flores raras; dentro, vasos antigos, caldeiroes velhos, pinturas e caligrafias dos Tang, Jin, Song e Yuan; as louças ostentavam Guan, Ge, Ru e Ding. Para queimar incenso usavam peças preciosas; para fazer cha, bolos de dragao e linguas de pardal. Peixes dourados brilhavam nos tanques; aves verdes repetiam vozes nas gaiolas. Ate uma pedra de Taihu devia ser porosa, magra e digna de contemplacao; ate algumas flores em ramo deviam parecer recem-lavadas.

Quando chegava um cliente, a argola de bronze da porta se abria so pela metade, e a cortina de perolas descia. Ao subir os degraus, cachorrinhos latiam e um papagaio pedia cha. Na sala, a falsa mae recebia com severidade cortês. No aposento, criadas bem vestidas acompanhavam a jovem. Se a visita demorava, chegavam pratos da terra e da agua, e a musica começava a competir. Se havia entendimento, olhos e coracoes se chamavam. Ao cair da noite, flautas e cítaras, companhias de teatro e canções enchiam o ar ate a alvorada.

Nos dias de verão tambem havia seu encanto: vinho desde cedo, banhos perfumados, brisa morna, cheiro de roupas. Ao meio-dia, jovens de cabelo oleado e braços nus passavam vendendo flores: ervas contra o suor, crisântemos de criança, jasmins. As criadas levantavam as cortinas, jogavam moedas, riam e brincavam. Logo, nuvens negras de cabelo se amontoavam sobre neve de pele, e o corpo inteiro ficava perfumado.

Mas, em tal lugar, comprar um sorriso com mil moedas de ouro e dar prata como presente de cabeça nao era coisa para pobres. Ali iam naturalmente filhos de familias nobres, rapazes de casas ricas, senhores que haviam comprado favores oficiais ou velhos endinheirados que tinham pago graus. E esses homens nao apenas jogavam dinheiro: queriam fingir-se entendidos. Precisavam frequentar cortesãs famosas e dormir com beldades reconhecidas para que outros dissessem: "Tal mulher celebre e a escolhida daquele jovem; tal beleza conhece o coração daquele rico."



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Editado: 03.07.2026

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