O juiz, ao lado, deu suas ordens. Entregou a sentenca anterior aos servidores infernais, e estes tambem levaram todos os envolvidos. De repente o galo cantou; tudo desapareceu num instante. Dao Ting se revirou entre o sono e a vigilia, sem saber que o oriente ja comecava a clarear.
Dao Ting concentrou o pensamento. Tudo continuava vivo diante dos olhos. Recordava as palavras de antes sem perder uma so. Enquanto ainda estava assombrado, saiu o encarregado do templo para abrir a porta. Ao ve-lo ali, assustou-se e perguntou:
-Quem e voce? Por que passou a noite guardado neste lugar?
Dao Ting contou que na noite anterior tinha se embriagado, que sua casa ficava longe e que por isso adormecera ali. Depois lhe relatou, uma por uma, as coisas que vira e ouvira durante a noite. O encarregado escutou, tomou aquilo por uma desculpa fantastica, soltou uma gargalhada e foi embora.
Dao Ting, porem, tinha aquilo por coisa extraordinaria. Sempre que encontrava parentes ou amigos, contava a historia. Mesmo quando topava com alguem conhecido apenas de vista, narrava tudo com detalhes. Ninguem acreditava muito, porque de costume ele era homem dado a recolher novidades e soltar conversas. Embora nao cressem que fosse verdade, todos tomavam aquilo por relato raro e o repetiam uns aos outros. Houve tambem gente de sua propria especie, apreciadores de ouvir pelo caminho e dizer pela rua, que o contaram de um lado a outro, ate a historia se espalhar por Baixia. Ate hoje, dizem, ha velhos do lugar capazes de repeti-la. Mas isso pertence ao que vira depois.
Certa vez, Dao Ting estava no meio de uma multidao, falando alto e largo, em plena narracao daquela novidade. Quando estava no ponto mais animado, um jovem entre os presentes perguntou:
-Irmao, essas coisas voce ouviu acordado ou ouviu dormindo, dentro de um sonho?
Dao Ting respondeu:
-Ouvi acordado.
O outro disse:
-E agora, irmao, voce fala acordado ou fala dormindo?
Dao Ting retrucou:
-O que esse irmao diz e muito estranho. Em plena luz do dia, com o ceu claro, estou aqui de pe falando. Como pode dizer que estou dormindo?
O jovem disse:
-Nao se zangue, irmao. Se esta acordado, por que diz coisas de sonho com os olhos tao abertos?
Todos riram as gargalhadas.
Dao Ting ia se defender quando outro disse:
-Nao se deve falar assim. Irmao, essas coisas voce ouviu sozinho ou ouviu junto com outros?
Dao Ting respondeu:
-A meia-noite, na terceira vigilia, eu estava sozinho. Onde haveria outro?
O outro disse:
-Entao voce se enganou, irmao. Nao pode culpar os outros por falarem.
-Em que me enganei?
-Ha pouco voce disse que viu muitos juizes e pequenos demonios. Devia ter agarrado um desses juizes, ou ao menos um desses demonios, e trazido como testemunha. Assim, agora que conta essas coisas de fantasmas, ninguem poderia refutar. Nao ter pensado nisso nao foi um erro?
Os presentes bateram palmas e tornaram a rir.
Dao Ting, aflito, disse:
-O que digo e verdade de mil verdades, e voces me tomam por mentiroso. Por que me despedacam assim?
Entre os presentes havia um que o conhecia e tinha certa amizade com ele. Disse:
-Mao Kong, se voce quer contar uma mentira nova, endureca o rosto e deixe que falem. Para que se alterar?
Outro acrescentou:
-Ah, entao este e o famoso irmao Dao. Desculpe minha falta de respeito. Nos falamos por falar; nao se zangue. Vou procurar uma testemunha para o irmao, e garanto que eles nao terao mais o que dizer.
Dao Ting pensou que ele falava de boa-fe e sorriu.
-Que testemunha o irmao vai me arranjar?
O outro perguntou:
-Em que lugar voce ouviu essas coisas naquele dia?
-Acordei debaixo das patas do cavalo de barro, dentro do grande portao, e ali ouvi aquelas palavras.
Entao aquele homem se voltou para os demais e disse:
-Viram? Eu sabia que o irmao Dao nao mentia. Voces o acusam em vao. Ja temos testemunha.
Os outros perguntaram:
-Quem e a testemunha?
O homem respondeu:
-Ele diz que dormiu debaixo das patas do cavalo de barro. Ali esta de pe o tratador que segura o cavalo. Vamos perguntar a ele juntos, e saberemos se e verdade ou nao. Para que continuar discutindo?
Os outros disseram:
-Esse tratador e de barro. Como vai falar? Voce tambem entrou a contar novidades.
O homem disse:
-Voces nao entendem. Quero perguntar justamente porque ele nao sabe falar. Se soubesse falar, tambem diria que o irmao Dao mente, e entao o assunto ficaria ainda mais confuso.
Ao ouvirem isso, todos riram ate quase cair.
Dao Ting queria discutir, mas nao conseguia vencer a multidao; se nao discutisse, sufocava de raiva. O rosto e o pescoco ficaram vermelhos, e as veias se incharam como dedos. Entao, do meio da gente, saiu um daoista. Aproximou-se sorrindo e disse:
-No mundo, que coisa estranha nao existe? Talvez este leigo nao tenha inventado tudo do nada; quem sabe haja alguma sombra de verdade. Por que levar tao a serio? Se acreditam que e verdade, escutem esta novidade. Se suspeitam que sao palavras de fantasmas, nao acreditem. As pessoas pagam dinheiro para ouvir contadores de historias e suas cantigas de tambor cheias de mentiras. Agora escutam de graca uma historia nova; que alegria maior ha? Para que discutir tanto?
A gente olhou para o daoista. Tinha sobrancelhas espessas, olhos grandes, estatura mediana, uns quarenta anos, gorro de bambu, manto de pano, sapatos de canhamo e cinturao de seda. Era de porte muito correto. Todos disseram:
-O mestre tem razao. Quem corta lenha nao precisa seguir quem pastoreia ovelhas; cada um cuide do seu oficio.
E se dispersaram de uma vez.
Dao Ting, de cabeca baixa e animo no chao, tambem ia embora. O daoista o segurou pelo braco.
-Leigo, espere um momento.
Dao Ting perguntou:
-Mestre, que quer me dizer?