Palavras Ditas ao Acaso

Capitulo 12

Depois daquela afronta na casa de Qian Gui, ela ficou tomada de remorso. Pensava que um ramo de jade nao devia cair na lama, e que, embora a vida fosse curta e todos tivessem de morrer, nem por isso convinha manchar-se por medo do poder. Dali em diante, ainda que a ameacassem com caldeiro e machado, jurava nao se rebaixar outra vez diante dos violentos.

Ao lembrar Zhong Sheng, tao fino nos modos e tao claro no talento, o coracao tornou a se mover. O exame ja havia passado; ela nao sabia se ele fora bem. Quis chama-lo e escreveu uns versos:

O coracao aflito lamenta a lua da noite;
o corpo enfermo teme o vento do outono.
Por recordar o homem de tanto sentimento,
meu pensamento o traz para dentro do sonho.

Mas, escrita a carta, nao encontrava a quem confia-la. No dia seguinte, deitada sem animo, Daimu entrou avisando que Mei Sheng viera visita-la. Qian Gui, que justamente precisava de mensageiro, saiu para recebe-lo. Mei Sheng perguntou por sua saude; ela disse que, desde a despedida do fim da primavera, a tristeza a consumia. Ele perguntou por Zhong Sheng, e ela respondeu que ele nao voltara porque estava entregue ao estudo, embora ja devesse ter terminado o exame.

Mei Sheng disse que tambem pretendia procura-lo. Qian Gui entao lhe pediu que, se o encontrasse, transmitisse seu desejo: havia meses o esperava com os olhos quase gastos; agora que o exame passara, rogava que viesse aliviar sua pena. Tambem lhe entregou a poesia. Mei Sheng aceitou sorrindo e disse que bastaria repetir a Zhong Sheng dois versos antigos: "Desde que partiste, perdeu o brilho; metade por pensar no amado, metade por culpa-lo." Talvez, acrescentou, ele viesse naquela mesma noite; embora fosse o dia depois do Festival do Meio do Outono, ainda era noite de lua redonda.

Qian Gui, certa de que Zhong Sheng viria, preparou o quarto. Acendeu bom incenso, trocou a roupa da cama, dispos vinho e pratos, e cuidou do proprio corpo com especial esmero.

Ao cair da tarde, enquanto esperava com o ouvido atento, ouviu de repente: "Zhong xianggong chegou." Para ela aquelas palavras foram como um trovao feliz. Saiu tateando, e Zhong Sheng ja estava diante dela para ampara-la. Entraram de maos dadas. Daimu acendeu uma grande vela e serviu cha. Hao Shi, ao saber que o "pobre letrado" chegara outra vez, irritou-se, mas ao ve-lo mais apresentavel que antes pensou que talvez trouxesse dinheiro; por isso fingiu alegria, sentou-se um momento e se retirou.

A sos, Zhong Sheng disse que desde a despedida quase esquecera sono e comida; nao viera por estar ocupado com os livros, e depois do exame descansara alguns dias. Naquela manha quis sair, mas uma visita o reteve; ao meio-dia encontrou Mei Sheng, recebeu os versos e veio imediatamente. Qian Gui perguntou pelo exame. Ele respondeu com modestia: esforcara-se muito, mas temia que seu talento fosse pobre e seu destino raso. Ela contou entao um sonho. Desde que haviam firmado a promessa, mandara pintar uma imagem de Cihang Dashi, e toda manha e noite queimava incenso pedindo protecao para ele. Certa noite, entre sono e vigilia, ouvira uma voz no ar: "O numero quarenta e oito, Zhong Qing, por duas vezes viu a beleza e nao se deixou confundir; seja posto entre os altos aprovados." Ao despertar, a lampada estalou, e Daimu viu a chama se dividir em duas.

Zhong Sheng pensou nos episodios recentes com Kou Shi e Li Shi. Entendeu, com medo e alegria, que os espiritos nao estavam longe: faltar a consciencia era ferir a si mesmo; enganar os outros era enganar o ceu. Mas nao quis revelar esses assuntos. Disse apenas que era um pobre letrado sem meritos ocultos, e que em sua vida nunca ousara desonrar esposa ou filha alheia.

Daimu trouxe vinho e pratos. Qian Gui ofereceu-lhe uma taca cheia. Zhong Sheng a recebeu, e os dois beberam entre palavras ternas. A conversa passou dos exames a gratidao, do sonho ao futuro. Qian Gui, embora vivesse num lugar de poeira e fumaca, falava com uma delicadeza que a Zhong Sheng parecia mais alta que a de muitas casas respeitaveis. A noite foi de reencontro e consolo; o texto fonte a envolve em desejo, mas o ponto moral e claro: ela distinguia entrega afetuosa de humilhacao pela forca, e ele se mantinha longe da violencia dos poderosos.

Enquanto isso, o relato volta a casa de You Xialiu. Depois da cena anterior, You Xialiu comprou comida e vinho para receber Huan E e Yang Weiying. Sabia que os acompanhantes da familia Huan eram muitos, e preparou duas grandes talhas. Primeiro separou bons bocados para Bu Shi. Perto do meio-dia chegou Yang Weiying, e pouco depois Huan E. A casa era estreita; nao havia como montar banquete formal, por isso You Xialiu serviu ganso, pato, frango defumado, frutas e outras coisas compradas prontas.

Bu Shi, com algumas tacas na cabeca e ha muito sem satisfacao, espiou pela janela. Viu Huan E gordo, vestido de luxo, servido por criados, e Yang Weiying com roupa mais simples, mas jovem e agradavel. Olhou os dois e escolheu o mais robusto. Foi ao quarto, passou po no rosto em excesso ate a pele escura ficar esverdeada, pintou a boca de um vermelho violento, arrumou o cabelo amarelo e pos flores grandes na cabeca. Mirou-se no espelho e se julgou capaz de fazer imortais e arhats quebrarem votos. Depois vestiu camisa vermelha, saia verde bordada e sapatos enormes. O narrador a pinta como figura grotesca, mais proxima de espectro que de beleza.

Quando Yang Weiying saiu ao patio para urinar, Bu Shi espiou e nao se impressionou. Pouco depois saiu Huan E; como estivera brincando com Yang, seu desejo estava desperto. Bu Shi, ao ve-lo, se incendiou a ponto de perder toda prudencia. Quando Huan E terminou e se arrumava, ela saltou da cozinha, tomou-o de surpresa e tentou beija-lo. Huan E, vendo na sombra aquele rosto branco sobre corpo escuro e quase acreditando tratar-se de fantasma, livrou-se como pode e fugiu.

A paixao de Bu Shi virou furia. Da janela insultou You Xialiu, acusou-o de lhe prometer cavalheiros ricos quando na verdade trouxera rapazes de prazer, e expulsou todos da casa. Huan E, que nao suportava insultos mas nao podia bater numa mulher em casa alheia sem se expor, virou a mesa e saiu furioso. Yang Weiying fugiu tambem; Bu Shi jogou agua nele ao sair e fechou a porta.



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Editado: 24.07.2026

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