Diz-se que Tong Zida, embora fosse homem rico, vivia em casa sob a sombra de Tie Shi, mulher de corpo enorme e genio de tigre. Em outro tempo, ao ver Xiantao, ficara olhando com cara de bobo e quase provocara uma calamidade. Desde entao, diante de qualquer mulher de aparencia razoavel, abaixava a cabeca e fugia como quem teme processo. Mas na casa de Qian Gui vira outra especie de beleza, e aquele fogo, aceso e frustrado, voltou com ele para casa. Separado de Huan E e dos demais no caminho, chegou sem entender direito o que acontecera e, em vez de entrar no quarto de Tie Shi, foi dormir um pouco no estudo.
Ao anoitecer, quando acenderam a lampada, seus pensamentos se desordenaram. Tinha no estudo um rapaz de Suzhou chamado Meilang, esperto, letrado, encarregado de cartoes, contas e pequenos servicos. Ate entao Tong Zida nao se atrevera a olha-lo com intencao, por medo da autoridade domestica de Tie Shi. Mas naquela noite, sem lugar onde descarregar o desejo que trazia, chamou-o. O rapaz entrou com uma xicara de cha, e a luz da lampada lhe tornou o rosto ainda mais delicado. Tong Zida o puxou, abracou-o e fechou a porta. O que se seguiu e descrito no original com crueza; aqui basta dizer que Tong Zida descobriu um prazer novo e perdeu por completo a pouca prudencia que tinha.
Enquanto isso, Tie Shi, entediada depois da refeicao, fora ao estudo e encontrara numa gaveta um album de pinturas eroticas: o mesmo que Huan E vira antes e do qual aprendera varias posturas. Olhou-o com crescente curiosidade, primeiro irritada porque Tong Zida o escondesse, depois inflamada pelas figuras. Bebeu vinho para se acalmar, mas o vinho so alimentou o fogo. Ao ver que o marido nao voltava, saiu apoiada na criada Kuixin. A luz do estudo brilhava. Tie Shi chegou a janela e, espiando por uma fresta, viu Tong Zida com Meilang.
Seu grito caiu como trovao. Tong Zida desabou de susto. Meilang, apavorado, tentou fugir, trombou com Tie Shi e a derrubou; ela, por sua corpulencia, nao se feriu muito, mas a indignacao foi maior que o golpe. O rapaz desapareceu. Tong Zida tremeu, pensou em se enforcar, lembrou-se da fortuna e por fim escolheu se apresentar a mulher. Ajoelhou-se junto da cama, pediu perdao e, em sua tolice, inventou que o rapaz apenas lhe servira para aliviar uma dor de ventre. Tie Shi, que entendia perfeitamente o ocorrido e ao mesmo tempo tinha seus proprios desígnios, fingiu raiva e devolveu a desculpa: se precisava de calor para a barriga, por que nao procurara ela?
Tong Zida, que esperava pancadas, recebeu um convite. Naquela noite, exausto e agradecido por conservar a vida, serviu Tie Shi com todo o esforco de que foi capaz. Ela, que transformara o ciúme em apetite e o apetite em governo domestico, perdoou-o pela metade e reservou a punicao para Meilang: no dia seguinte vendeu-o por meio de um corretor. Tong Zida sofreu por perde-lo, mas se julgou afortunado por nao perder coisa maior.
Querendo nao ficar outra vez em falta, Tong Zida comprou em segredo certos objetos de prazer chamados, com ironia letrada, "senhores de chifre". O vendedor, vendo que era inexperiente e rico, cobrou demais e lhe deu ainda uma cinta medicinal. Tong Zida voltou orgulhoso. Naquela noite mostrou-os a Tie Shi como oferta de reconciliacao. Ela se assustou e se alegrou ao mesmo tempo. Primeiro experimentaram com prudencia, depois com excesso. As duas criadas, Kuixin e Lianban, acabaram envolvidas por ordem dos amos. O texto fonte descreve a cena com abundancia obscena; a versao publica conserva o sentido: a luxuria de Tie Shi, a inventividade tola de Tong Zida e a humilhacao da casa transformam o castigo em costume. Desde entao Tie Shi ja nao vigiava Tong Zida com a antiga ferocidade. As criadas passaram de servidoras a instrumentos de seu prazer, e Tong Zida, aproveitando esse relaxamento, tambem se entendia com elas. Assim, por uma via absurda e vergonhosa, a casa ficou mais pacifica.
Enquanto isso, dois caixoes sairam da casa de Ruan Dacheng. Eram os de Ruan Zui e Jiaojiao. Ruan Zui adoecera de epidemia. Jia Shi, sua mulher, longe de cuidar dele, entregava-se em segredo ao criado Ainu. Quando Ruan Zui, debilitado, os surpreendeu, nao pode denuncia-los: ele proprio vivia ligado a Jiaojiao, concubina de seu pai, e qualquer acusacao tambem o arrastaria. A doenca se agravou. Ao se recuperar mal, foi ver Jiaojiao, mais para desabafar a amargura que por antigo amor. Jiaojiao, abandonada por Ruan Dacheng, Ruan You e Ruan Zui, passava dias consumida de desejo. Ao ve-lo, recebeu-o como salvador. Ruan Zui contou a traicao de Jia Shi e Ainu; ela o aconselhou a calar e o reteve. A cena terminou em desgraca: Ruan Zui, fraco demais, morreu sobre ela. Jiaojiao, sem saida, enforcou-se. Uma criada os descobriu. Mao Shi, esposa principal de Ruan Dacheng, alegrou-se em segredo, mas para fora a casa teve de levantar luto.
A morte de Jiaojiao nao limpou a casa. Jia Shi, viuva de Ruan Zui, aprendera com ela os gestos de seducao e os levou mais longe. Ainu continuava entrando em seu quarto. Ruan Dacheng, velho e sogro, comecou a deseja-la. Ruan You, irmao mais novo de Ruan Zui, tambem a rondava. Jia Shi percebeu o interesse de ambos e calculou que, se ganhasse o sogro, poderia mover-se com menos medo.
Ruan Dacheng serviu-se de Ma Shi, sua concubina favorita, para atrair Jia Shi. Ma Shi convidou-a ao seu quarto, mostrou-lhe pinturas indecentes e deu-lhe vinho doce. Quando Jia Shi ficou adormecida, chamou Ruan Dacheng. O velho entrou e obteve o que queria. Jia Shi despertou, envergonhou-se o bastante para parecer mulher de familia, mas nao o suficiente para resistir. Desde entao, com Ma Shi como intermediaria, Ruan Dacheng e sua nora se encontravam com frequencia. Depois subornaram tambem a criada de Jia Shi para usar o proprio quarto da viuva.
Ruan You, ao ouvir rumores, decidiu agir. Uma noite se escondeu atras da cama de Jia Shi. Ela voltou depois de estar com Ruan Dacheng e adormeceu. Ruan You saiu, entrou na cama e a tomou de surpresa. Jia Shi, longe de gritar, reconheceu a voz e o aceitou. Desde entao o pai a visitava de dia e o filho de noite. A narracao insiste que nao se trata de amor, mas de uma divida moral que se multiplica: o que Ruan Zui fizera com Jiaojiao volta sobre sua mulher; o que o pai encobre em si mesmo se repete no filho.