Quando morreu a esposa ciumenta de Wu You, o velho tomou uma bela concubina. Ela era filha de Cui, antigo oficial das prisoes do Ministerio dos Castigos em Beijing. Esse Cui juntara dinheiro com carcereiros, dividindo subornos e maltratando presos com crueldade; depois seus superiores descobriram tudo e ele foi destituido.
A filha era tao bonita que os pais a amavam como a propria vida e a chamavam Ming'er. Nao quiseram casa-la com familia comum: buscavam um genro com cargo e dinheiro. Os anos passaram e ninguem apareceu. Wu You ouvira falar de sua beleza e mandou pedi-la. Cui sabia que ela iria como concubina, mas, como nao havia esposa principal na casa, aceitou de bom grado. Assim Ming'er se tornou uma "senhora aguda": nem inteiramente principal, nem inteiramente secundaria.
O velho ficou fascinado desde a primeira noite. Depois buscou duas criadas jovens para acompanhar aquela flor: uma de dezesseis anos, chamada Zuojie, e outra de quatorze, chamada Xunjie. Um amigo brincou com os nomes, dizendo que uma devia "fazer" filhos e a outra "procurar" filhos. O mesmo amigo comentou a parte que Wu You, naquela idade, comprara nao prazer, mas morte.
E assim foi. Wu You, ansioso por descendencia e cansado de uma vida ao lado de uma mulher ferozmente ciumenta, entregou-se as tres jovens com uma tolice sem medida. No comeco ainda sustentava a aparencia; depois encurvou-se, tossiu, perdeu vista e ouvido, e mal conseguia se mover. Ming'er, em plena juventude, nao o deixava se esconder: lembrava que ele a tomara para gerar filhos, nao para contempla-la. O velho falava de terras, casas e bens; ela zombava, dizendo que uma mulher nao se casava so para comer e vestir.
Para sustentar o que a natureza ja nao sustentava, Wu You comecou a tomar remedios ardentes. Ming'er, vendo algum efeito, apressava-o a noite a tomar mais. Aquilo, num corpo esgotado, foi como lancar fogo numa lamparina sem oleo. Antes de um ano nao havia filho algum, e o velho foi ser filho de outra casa.
Wu You fora avarento e duro com os parentes. Morto sem filhos, todos do cla vieram repartir a heranca. Disseram a Ming'er que, se quisesse casar de novo, quase nada poderia levar; se quisesse guardar viuvez, receberia uma parte para sustento, mas devia viver em Cibei An e raspar a cabeca como religiosa. Ela entendeu que a empurravam para sair sem bens. Preferiu fazer-se monja por enquanto e esperar outra oportunidade.
Depois do funeral, Ming'er mudou-se para Cibei An com Zuojie, Xunjie, baus e objetos. Uma velha monja a tonsurou e lhe deu o nome de Xinwu. Zuojie tambem raspou a cabeca e recebeu o nome Yuanpin; Xunjie ficou como discipula menor, chamada Miaoyan. De dia, Ming'er tinha comida, roupa e jardins tranquilos; de noite, a cama fria lhe pesava.
Uma tarde, uma daogu pediu pouso. Disse chamar-se Benyang, de sobrenome Shouci, natural de Yangzhou, viuva e sem parentes. Era limpa, branca, cheia de corpo e de fala viva. Ming'er a recebeu. Comeram, conversaram e, chegada a noite, Ming'er propos que dividissem a cama para conversar.
No escuro, Benyang perguntou por que uma mulher tao jovem entrara pela porta vazia. Ming'er disse que o marido morrera e que guardava fidelidade. Benyang suspirou e contou historia parecida: tambem viuva, sem filhos, despojada pelo cla. Depois disse que nunca conhecera verdadeiro contentamento no casamento, pois a haviam casado com um velho. Ming'er, sentindo que ambas padeciam do mesmo mal, escutou com o coracao aceso. Benyang falou dos recursos com que algumas mulheres se consolavam entre si. Ming'er fingiu incredulidade; Benyang passou das palavras aos atos.
Entao se revelou o engano: Benyang nao era mulher. Aprendera uma tecnica para ocultar o sexo e viajava disfarçado de daogu, entrando em casas e conventos para seduzir viuvas jovens. Ming'er, longe de se indignar, ficou fascinada. Depois chamou Yuanpin e Miaoyan; elas tinham ouvido tudo atras da cama e ja estavam fora de si. Benyang passou a noite com as tres.
Ao amanhecer, Ming'er o fez jurar que nao as abandonaria. Benyang jurou que, se um dia as deixasse por outras, morreria despedaçado sob castigo oficial. Desde entao viveu em Cibei An como mestre secreto da casa. Ensinou a Ming'er um metodo de "colheita": segundo ele, uma mulher podia conservar juventude e vigor absorvendo a energia dos homens. A narrativa conta isso com crueza fantastica; aqui basta dizer que Ming'er aprendeu com avidez.
Benyang, porem, tinha coracao leviano. Depois de algum tempo ouviu falar de Lin Fu, homem rico e devoto, que tinha uma filha chamada Fogu. Lin Fu e a esposa Yu Shi adoravam monges e daogu, e desejavam para a filha um marido igualmente piedoso. Benyang foi a casa deles como religiosa iluminada. Os dois velhos o receberam como imortal. Fogu, fechada e educada entre rezas, primeiro o venerou; depois, pouco a pouco, foi presa por suas palavras, sua proximidade e seu falso ar sagrado.
Benyang a seduziu. No comeco fez a jovem crer que seu corpo era raro, mas feminino; depois confessou ser homem, dizendo que viera por compaixao da juventude dela. Fogu, ja rendida, aceitou. Os pais, vendo a filha alegre e vicosa, acreditaram que recebera alta doutrina. Na verdade, Benyang a visitava sem freio. A imprudencia trouxe gravidez.
Uma criada descobriu os dois dormindo sem roupa e avisou uma velha serva. Esta observou o ventre de Fogu e contou a Lin Tong, irmao da moca. Lin Tong fez a esposa Qiang Shi examina-la e confirmou a desgraça. Quando Benyang voltou, prendeu-o e o levou ao magistrado.
O magistrado, irritado por aquele disfarce usado para violar a confianca de uma familia, interrogou-o. Benyang insistiu que era mulher. Chamaram parteiras; nao encontraram corpo comum de mulher. O magistrado compreendeu o artificio e ordenou uma prova humilhante que o desmascarou. Furioso, disse que aquele perverso maculara muitas mulheres e nao merecia gastar papel em sentenca formal. Mandou os oficiais espanca-lo ate a morte. Assim se cumpriu seu juramento.