Dizia-se: que obra justa fizera Jia Wenwu? Na verdade, era um coracao ardente pelo reino e pelo povo. Aquele malvado Li Zicheng, em anos anteriores, invadira Fengyang: cortou as arvores dos mausoleus, incendiou os palacios do repouso ancestral, matou funcionarios, soltou culpados da casa imperial e saqueou tudo que encontrou. Ainda nao satisfeito, avancou matando pelos distritos junto ao rio, de olho em Nanjing. As tropas oficiais fugiam ao ouvir seu nome; velhos, fracos e gente comum enchiam fossos e barrancos, enquanto filhos, filhas, sedas e riquezas eram carregados em carros e cavalos. A crueldade daquela matanca mal suporta palavra.
Como Fengyang guardava os mausoleus ancestrais, os exercitos de todas as partes, embora aterrorizados, nao podiam deixar de tentar recupera-la, e vieram reforcos. Os bandidos errantes, ja carregados de mulheres e bagagens, nao tiveram tempo de atacar Nanjing. Eles nao queriam terras para governar; ao saber que vinham tropas, levaram mangas vermelhas e verdes, prata branca e ouro amarelo, e foram embora entre risos e tambores. Vendo que os lugares eram ricos e mal defendidos, iam e vinham a vontade, perturbando tudo a cada instante.
Antes de contar suas atrocidades, expliquemos de onde saiu aquele bandido cego, para que o leitor conheca sua origem e veja em que miseria ficou entao a vida do povo. Cuspamos todos sobre seu nome, ao menos para aliviar um pouco o rancor de quem viveu aqueles anos.
Sua familia vinha do condado de Mizhi, prefeitura de Yan'an, em Shaanxi. Seu pai se chamava Li Shouzhong. Sete ou oito geracoes antes houve na casa um antepassado muito rico, devoto de alimentar monges e daoistas, que durante decadas nao abandonou as obras de caridade. Todos o chamavam Li Shanyou, Li o Bom Amigo. Ja velho, um dia chegou a sua casa um daoista esfarrapado, de cheiro insuportavel, pedindo comida. Li Shanyou nao o desprezou e o recebeu com alegria. Terminada a refeicao, o daoista disse que conhecia sua constancia no bem e que seus descendentes teriam um homem de grande posicao. Em montanhas a mais de duzentas li, acrescentou, havia um lugar bendito onde ele poderia ser enterrado ao morrer; dali sairia prosperidade.
Li Shanyou, encantado, convidou o daoista a ver o local. No caminho chegaram a uma aldeia cheia de gente de sobrenome Li; ao comparar genealogias, descobriram que todos eram do mesmo cla, ainda dentro dos graus de luto, e Li Shanyou se alegrou mais. No dia seguinte o daoista marcou a cova. Mandou levantar ao redor um grande circulo e colocar dentro uma tina de ferro cheia de oleo de lampada: se a lampada de ferro nao se apagasse, os Li prosperariam. Quando Li Shanyou quis recompensa-lo, o daoista disse que apenas retribuia sua vida de boas acoes, nao buscava pagamento, e saiu voando como se tivesse asas. Todos acharam que era um imortal. Li Shanyou voltou, contou o caso a filhos e netos, e recomendou repetidas vezes que o enterrassem daquele modo.
Mais de dez anos depois morreu, e seus descendentes cumpriram a instrucao. Ao se saber que era terra propicia, outros parentes quiseram tomar parte daquela fortuna e enterraram ao redor mais de dez sepulturas. No tempo de Li Shouzhong, este tinha um irmao mais velho chamado Li Shouyi, trinta anos mais velho que ele, cujo filho Li Zida era ate dois anos mais velho que Shouzhong. Desse ramo ficaria depois um neto, Li Guo.
Li Shouzhong foi alguazil do condado. Era violento, cruel e habil; em centenas de li, ladroes grandes e pequenos o tinham por patrono, pagavam-lhe todo ano e mandavam prata todo mes. Passava dos trinta e ainda nao tinha esposa. Um fisionomista o encontrou um dia, maravilhou-se com seu rosto e disse que a honra daqueles tracos nao cairia sobre sua propria vida, mas sobre um filho futuro; contudo, devia acumular merito para que esse filho chegasse a grandeza incomparavel. A previsao combinava com a lenda ancestral. Shouzhong, que tinha mais de dois mil taels acumulados, deixou o cargo e pediu a uma casamenteira de sobrenome Lian que lhe procurasse uma esposa afortunada.
Naquele tempo havia uma cortesã famosa de sobrenome Gou. Morta sua alcoviteira, ela administrava a propria casa. Tinha mais de trinta anos e quase vinte de poeira e vento; ja provará todos os sabores daquele oficio e pensava em se retirar. Um dia um monge estrangeiro foi a sua casa. Depois de passar a noite, disse-lhe que sua estrutura prometia um filho nobre, e que ela nao devia se desperdiçar no campo de prazer: convinha casar com um homem destinado a prosperar. Gou Shi, que ja queria refazer a vida, pediu tambem casamenteira; era a mesma Lian. Ao ouvir que as duas previsoes coincidiam, Li Shouzhong e Gou Shi se alegraram e celebraram o casamento.
O narrador zomba de seus esforcos para gerar um "filho nobre": noite apos noite buscavam o sinal prometido, mas passaram anos sem fruto. Shouzhong suspirou uma noite que gastara incontaveis sementes nobres e nao via sombra de filho nobre. Gou Shi riu e respondeu que, se cada tentativa fosse nobre, seu velho campo teria recebido tantos titulos quanto uma sala de funcionarios. Quando Shouzhong chegou aos quarenta, ambos se purificaram e foram ao templo do Grande Imperador Jintian, no monte Hua, pedir descendencia. Naquela noite sonharam juntos que o deus lhes entregava uma estrela Pojun vestida de amarelo-avermelhado. Gou Shi engravidou, e aos dez meses nasceu Li Zicheng. Pelo traje amarelo do sonho, o pai lhe deu o nome infantil Huanglai'er. Mimaram-no como tesouro, e ja aos sete ou oito anos era preguiçoso, briguento e dado a pancadaria na rua.
Li Guo, neto de Li Shouyi e um ano mais novo que Zicheng, cresceu com ele. Embora fossem tio e sobrinho, tratavam-se como irmaos. Quando Shouzhong tentou manda-los estudar, fugiram, e o pai, quase morto de susto, nunca mais tocou no assunto dos livros. Aos quinze ou dezesseis, ambos gostavam de bordeis e jogo. Zicheng, mimado ao extremo, recebia tudo que pedisse se estivesse ao alcance do pai. Por isso foi chamado Li Chuangzi, "Li o que irrompe"; Li Guo, mais astuto e brutal, recebeu o apelido Yi Zhi Hu, "Um Tigre".