O velho comentarista recordou as palavras de Yue Zhongwu: um general precisa de sabedoria, boa-fé, benevolência, coragem e severidade; se lhe faltar uma só virtude, não está completo. Só então compreendeu os nomes daqueles homens. Shang Zhi punha a sabedoria em primeiro lugar; Mu Yi, a justiça; Lin Zhong, a lealdade; e Bao Xin acrescentava a confiança. Reunidas as quatro, podiam servir à corte, animar os soldados e tornar-se o escudo de Jiangbei. A lição não devia ser desprezada por vir de uma narrativa popular.
Shi Qi, obedecendo a Li Zicheng, avançou para Liuhe com três mil cavaleiros. Não atacava cidades: saqueava tudo pelo caminho. Desta vez, porém, os campos estavam vazios, os celeiros removidos e as aldeias abandonadas. Ao amanhecer viu os portões de Liuhe abertos e julgou que a cidade também estivesse deserta.
Então ribombou um canhão. Shang Zhi saiu à frente de quatrocentos homens com armaduras listradas de tigre. Miao Ce e Man Fu comandavam o centro e a direita. Seus soldados não formaram uma linha rígida: lançaram-se contra cavalos e cavaleiros com sabres, clavas, lanças e foices. Os rebeldes, acostumados a ver os oficiais fugirem, ficaram atônitos.
Pela retaguarda surgiu Guo Shou, de elmo de prata, armadura branca e longa lança, acompanhado por Zhuo Gao e Chang Sheng. Shi Qi tentou escapar. Pensou ver reforços próprios em duas colunas que se aproximavam, mas eram Mu Yi e Lin Zhong, cada qual com oitocentos voluntários. Cercados pelos quatro lados, os arqueiros rebeldes não encontraram distância para armar os arcos.
Guo Shou alcançou Shi Qi e cravou a lança contra a armadura de seu flanco. O golpe quase o derrubou, mas Shi Qi agarrou-se à sela e fugiu. Dos três mil homens, pouco mais de mil escaparam. Shang Zhi impediu uma perseguição imprudente, recolheu armas e cavalos e mandou Bao Xin comunicar a vitória a Shi Kefa e Le Weishan, em Nanjing.
Durante o banquete de recompensa, Shang Zhi advertiu que Li Zicheng viria com dezenas de milhares. Propôs golpear a vanguarda, fazer Lin Zhong partir o centro e Mu Yi cair sobre a retaguarda. Bao Xin acrescentou um estratagema: redigiria uma falsa petição de rendição.
Nela fingia temer Shang Zhi e prometia abrir os portões ao “grande rei”. Yi Ce, caminhante tão veloz quanto um cavalo, levou o documento. Song Xiance suspeitou de uma armadilha, mas Li Zicheng, embriagado pelas vitórias, zombou da prudência. Ordenou que mais de vinte mil cavaleiros cobrissem quinhentos li em duas noites e um dia, sem comboio de provisões.
Marchavam Gou Jie e Hou Jiao na vanguarda; Hu Weiqun e Yang Wei pela esquerda; Li Zicheng, Niu Jinxing, Song Xiance e Ma Lei no centro; Zhang Huang e Zhu Jiwen pela direita; Lu Ben e Yuan Hua fechavam a coluna. Seus títulos e apelidos eram grandiosos, mas o narrador os amontoa como nomes de animais, ridicularizando a manada que pretendia lutar contra tigres.
Ao amanhecer chegaram famintos e exaustos. Shang Zhi os esperava a sete ou oito li da cidade. Seu exército golpeou a frente; Lin Zhong atravessou o centro; Mu Yi caiu sobre a cauda. No meio do combate surgiu Guo Shi, esposa de Lin Zhong e irmã de Guo Shou, com lança de flor de pereira e cavalo vermelho. Derrubou Zhang Huang e Zhu Jiwen e abriu caminho para o marido.
Lin Zhong, acompanhado por Xiong Pi, Meng Ruhu e Ban Bao, procurou diretamente Li Zicheng. Quando foi cercado, largou a lança e sacou dois sabres. Guo Shi aproximava-se pelo outro flanco. Li Zicheng entendeu que não venceria e fugiu com a guarda; ao vê-lo, todo o exército se dispersou.
Shang Zhi não confundiu sorte com força. Haviam vencido porque o inimigo percorrera quinhentos li sem repouso. Se o deixassem recuperar-se, a desigualdade numérica voltaria a prevalecer. Naquela noite, com bocas e sinos abafados, os três exércitos avançaram em silêncio para atacar o acampamento rebelde.
Li Zicheng, certo de que poucos voluntários não ousariam segui-lo, quase não dispusera sentinelas. Na terceira vigília, Shang Zhi e Mu Yi irromperam por lados opostos. Lin Zhong e Guo Shi aguardaram na rota de fuga. O acampamento despertou entre fogo, gritos e confusão. Shi Qi tentou mais uma vez abrir caminho, mas Guo Shou o alcançou. Desta vez não escapou: sua coragem sem juízo terminou sob a lança do homem que desafiara.
Os rebeldes abandonaram tendas, armas e montarias. Li Zicheng conseguiu fugir, humilhado por duas derrotas sucessivas. A vitória não tornou Shang Zhi e seus companheiros arrogantes. Reuniram os mortos, trataram os feridos e atribuíram o mérito à disciplina dos voluntários.
O relato passa então a Gao Jie. Ele servira Li Zicheng, mas sua esposa Xing Shi enxergava com mais clareza. Convenceu-o a abandonar a rebelião e submeter-se à dinastia. Gao Jie ofereceu tropas e informações e recebeu o título de conde de Xingping. O narrador não apenas louva seu retorno: humilha Li Zicheng, cuja própria casa já não partilhava sua causa.
A sátira volta-se para os outros casamentos do chefe. Yang Shi mantinha em segredo relações com Li Jin enquanto ele se gabava de dominar a todos. O texto insiste que um homem incapaz de governar a própria casa aspirava a governar o império. Conservamos a acusação e a ironia, não a obscenidade com que a fonte as ornamenta.
Enquanto isso, os soldados oficiais enviados contra os rebeldes muitas vezes mostravam o avesso daqueles voluntários: barulho sem coragem, cobiça sem disciplina. Alguns fugiam antes de ver o inimigo; outros apresentavam como vitória o saque de aldeias indefesas. O narrador exagera para provocar riso, mas declara que oito ou nove partes em dez eram verdadeiras.
Em outra casa, Yu Yiming deixou à mostra uma comédia de enganos. Sua filha Chun era simples e crédula; Diao Shi, astuta e hábil em proteger os próprios interesses. Nora, filha, criados e parentes enredaram-se em acusações, disfarces e desejos vergonhosos. Contudo, a esperteza de Diao Shi acabou deixando rastros, ao passo que a tolice de Chun preservou um fundo de consciência. Para o narrador, ingenuidade com coração valia mais que inteligência sem retidão.