PREFÁCIO
Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.
– Fernando Pessoa in “Durmo. Se sonho, ao despertar não sei”
“Teus Sentimentos – Prosas que Vivem nos Meus Poemas” é uma travessia entre o sentir e o compreender, entre o que o coração experimenta e o que a mente insiste em decifrar. Entre o sonhar e despertar de que Fernando Pessoa evoca no lampejar das suas escritas. Os textos aqui reunidos não são meras composições isoladas, mas fragmentos de uma mesma alma que se expande e se recolhe, ora confessional, ora crítica, ora filosófica.
O eu-poético percorre o abismo da existência, o amor e suas contradições, o desencanto com o mundo, a fé e as incertezas sobre Deus, o tempo e as feridas da memória. Ao longo das páginas, o autor não apenas escreve — ele se descobre escrevendo, como quem se olha num espelho que ora reflecte luz, ora sombra.
Uma voz poética que enuncia a voz do povo, dos subúrbios, da terra que o formou e das contradições que o cercam. Daí o seu tom humano, íntimo e colectivo ao mesmo tempo. Mas também a liberta ao mais alto tom a voz do coração, da paixão, da traição, da dúvida, da desilusão.
Entre o real e o simbólico, cada poema é um território onde a poesia e a prosa convivem sem fronteiras, porque o sentimento, quando é verdadeiro, não aceita molduras.
Este livro não se propõe a ensinar, mas a partilhar. Porque o que nele vive — e resiste — é a certeza de que a arte ainda é um lugar de salvação.
NOTAS DE UM AUTOR
De que adianta escrever?
Se o que escrevo só eu sinto?
Se não sinto o que escrevo,
De mim duvido.
Para que leio?
Se o que leio não vivo?
Se vivesse o que leio,
Seria um homem mais tranquilo.
Por que então reflito?
Se tal acto são sumários desvios?
Se não refletisse,
Teria os dissabores como fetiches.
Podem-me ater a atados indiretos;
São para estes desagrados que sou propenso.
Podem-me ater aos flagras de desrespeito;
Consigo sobreviver na selva da censura do universo.
FAMILIARIDADE
Lá fora, nada me é familiar
Pessoas, animais, casas, rua…
Tudo me parece desconhecido,
Mesmo que saia às vezes com meus entes queridos
Apenas sinto um grande desconforto
Dessas ligações que não controlo
Até vejo certos sorrisos quando chego
E de igual modo, adoptei este hábito quando os vejo
Não sei se eu sou ingénuo,
Mas não tenho mais o mesmo sentimento
De quando criança, eu e os meus amigos
Aquela sensação prazerosa em que tudo era divertido
Estarei a ser muito exigente? Intransigente?
Mm… Talvez, mas respondam-me:
O que nos leva a estar com alguém?
É, pois é! Eu sei, não precisas dizer
Talvez sou eu que não seja um bom amigo
Apenas sei que já não compactuo com tudo isto
Não é que não saiba quem são
O problema está na forma como são
Não, está na maneira como eu sou
Como eu me entendo como pessoa e elas, as outras pessoas
Além do nome e historial não encontro nada em comum
Esse requisito de interesses imposto nas relações humanas pelo mundo
Acho que eu tenho ainda um raciocínio miúdo perante estes adultos
Vamos lá, penso que o justo é que eu aceite que sou imaturo
Quer dizer, espero que não se ofendam que eu me isole nesta ilha fora do continente
É que não consigo me interessar pelas superficialidades do presente
Este gosto desgostoso de viver de acordo como os outros, por exemplo
Essa influencia desinfluente que proclamou a governação da mente
Ahf! Estou cansado de os entender
Hoje falamos de filosofia como uma religião, vai saber o que é?
Quando ouço os assuntos que são levantados nos círculos de amizades
Digo sempre para mim mesmo, “Meu Deus, onde eu fui me meter?”
Aceitamos tudo o que a maioria define o que é o certo a se fazer, Será mesmo?
Amizade hoje é só um canal de propaganda para divulgar sentimentos de ódios
Os vínculos já não são vínculos
São jogos de interesses, na maioria das vezes desajustados
Manifestamos sobre o direito a liberdade
Por outro lado invadimos privacidades
Prometi a minha criança proporcioná-la felicidade, não me critiquem
Apenas acho o vosso parque de diversões, um conjunto de frivolidades
ÓRFÃOS
Órfãos, são as palavras que escrevo
Sem sequer lê-los
Em papéis que amasso e deito
Uma vez que entregá-los me nego.
Órfãos, são os sentimentos que despejo