Mulan em Mim

Capítulo 1: Despertar no leito de terra

ANTES DO CAPÍTULO:

Acordei no corpo de Mulan. Não falo chinês. Não sei lutar. E o pior: sou mulher.

Sofia Rodrigues acordou com a boca seca e uma dor latejante atrás dos olhos. A língua tinha gosto de cobre e de mais alguma coisa, um amargor que não conseguia identificar. Tentou se apoiar nos cotovelos, mas o movimento arrancou um gemido dela: uma pressão incômoda apertava seu peito, como se alguém tivesse enrolado faixas de pano áspero em volta do seu torso.

Olhou para baixo. Ataduras. Alguém tinha enfaixado seus seios com um tecido grosseiro, cor de cru, amarrado com nós malfeitos que mordiam suas costas. O pânico subiu pela garganta antes que ela pudesse formular um pensamento claro. Esticou as mãos na frente dos olhos e não as reconheceu: eram mais pálidas que as suas, com os nós dos dedos menos marcados e as unhas cortadas rente.

Uma voz de mulher a sobressaltou.

À sua esquerda, uma figura se inclinava na direção dela com uma tigela fumegante entre as mãos. A mulher era pequena, rosto marcado pelo sol e pelo trabalho, cabelo preso num coque apertado. Falava numa língua que Sofia não entendia, uma sucessão de sons guturais e tons que subiam e desciam sem nenhuma ancoragem possível. Mas o corpo dela parecia entender: sentiu a urgência de responder, um reflexo estranho que tensionou sua mandíbula.

A mulher colocou a tigela em suas mãos. O líquido era turvo e cheirava a ervas fervidas.

— Toma — insistiu a mulher, e Sofia soube, sem saber como, que aquela palavra significava "toma".

Apertou os dedos em volta da tigela e bebeu. Estava amargo e quente.

A mulher tocou sua testa com as costas da mão, igualzinho como sua Mainha fazia nas manhãs de febre no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. O gesto era idêntico: palma áspera, nós dos dedos rachados pelo trabalho doméstico, uma ternura que não precisava de tradução. Sofia sentiu algo se partir dentro dela. As lágrimas vieram sem aviso, mas não eram lágrimas normais. Eram pesadas, densas, como se tivessem esperado séculos para cair. Lembrou da biblioteca da Universidade Federal da Bahia, o livro aberto sobre a mesa, as páginas amareladas de "A balada de Hua Mulan". Tinha chorado sobre elas, e então uma luz dourada tinha envolvido tudo.

— Preciso voltar — disse em português, e ouviu a própria voz como se viesse de outra pessoa —. Lin Hao está me esperando.

A mulher franziu a testa. Não entendia.

Sofia tentou de novo, buscando em algum canto da mente as palavras que seu corpo parecia conhecer de antemão. A língua se moveu com dificuldade, desenhando sons que não pertenciam ao seu idioma natal.

— Lin Hao — pronunciou, e o nome saiu com uma entonação estranha, como se tivesse aprendido num sonho.

A mulher negou com a cabeça.

— Não conheço esse homem. Descanse agora, Mulan. Você parte ao amanhecer.

Mulan. Essa palavra sim a atingiu com a força de um portão se fechando. Mulan. Hua Mulan. A lenda chinesa, a heroína que foi para a guerra disfarçada de homem. O livro que estava lendo naquela tarde — quanto tempo tinha passado desde então? — quando as lágrimas começaram a cair sobre as páginas e o mundo se desfez numa luz dourada.

Levou as mãos à cabeça. As lembranças de Salvador chegavam em rajadas bagunçadas: o cheiro da moqueca de peixe que sua mãe fazia aos domingos, a feira de São Joaquim com suas barracas de ervas e cachaça, as manhãs intermináveis enviando currículos que nunca recebiam resposta, as ligações da mãe perguntando quando ela ia "assentar o burro" — arrumar um emprego decente, casar, sossegar. A última imagem que guardava era o rosto de Lin Hao na tela do celular, seu sorriso suave e suas palavras: "Quando você se formar, a gente vai juntos para a China. Vou te ensinar tudo que sei."

Tinha chorado sobre o livro. E depois, nada.

Agora estava aqui.

Obrigou-se a olhar para o lugar onde se encontrava. O cômodo era pequeno, paredes de barro e telhado de palha. Uma mesa de madeira rústica ocupava o centro, e sobre ela repousava um pergaminho enrolado com caracteres que não entendia. Num canto, encostado na parede, um homem mais velho a observava em silêncio. Tinha o rosto sulcado de rugas e o peito fundo sob a túnica. De vez em quando, uma tosse seca sacudia seus ombros.

— Você já devia estar casada — disse o homem entre tosses —. Assim pelo menos teria escapado dessa.

Sofia não entendeu as palavras, mas entendeu o tom: resignação, culpa, uma tristeza antiga que se fincou no seu estômago.

Quis explicar quem era, de onde vinha, que tudo aquilo era um erro. Mas como se explica uma coisa dessas? Como dizer "sou uma estudante baiana presa no corpo de uma heroína chinesa" sem que te chamem de louca?

Aquela noite ela não dormiu. Ficou acordada no catre de terra, ouvindo os roncos do homem doente e os suspiros da mulher que a tinha chamado de Mulan. O medo revirava seu estômago, mas debaixo do medo sentia outra coisa: raiva. Raiva por ter sido arrancada da sua vida. Raiva por não entender nada. E debaixo da raiva, um pensamento que não queria admitir: talvez aquela vida em Salvador não fosse tão maravilhosa quanto lembrava. O desemprego. As entrevistas fracassadas. A sensação constante de não ser suficiente.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 17.05.2026

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