Mulan em Mim

Capítulo 2: A soldada que não fala

Caminharam o dia inteiro.

Sofia mantinha a cabeça baixa e os ombros para trás, imitando a postura dos homens que marchavam ao seu redor. Seus pés, calçados com botas de pano grandes demais, criaram bolhas antes que o sol atingisse seu ponto mais alto. Cada passada era uma lição de sobrevivência: passos largos, o quadril ligeiramente para a frente, os braços soltos. Nada de requebrar. Nada de juntar os joelhos ao sentar. Nada de tocar no cabelo — preso sob um capacete que ficava grande e roçava suas orelhas.

As faixas no peito cortavam sua respiração a toda hora. Tinha se acostumado a inspirar pelo nariz e expirar devagar, racionando o ar como se fosse um recurso escasso. O tecido áspero já tinha deixado marcas vermelhas debaixo dos braços.

A paisagem mudava devagar: as terras de cultivo deram lugar a colinas áridas, e depois a uma floresta rala de árvores tortas pelo vento. Sofia tentava memorizar cada detalhe: a posição do sol, a direção das sombras, o cheiro da terra. Seu avô, nos morros de Salvador, tinha lhe ensinado a se orientar assim. "Quem sabe ler o mato nunca se perde", dizia enquanto caçavam lagartos e preás. "E nunca é pego desprevenido."

No meio da tarde, uma pedra solta debaixo do pé direito a fez tropeçar. Caiu de joelhos no cascalho, e um soldado que vinha atrás esbarrou nela.

— Anda logo, mudo! — gritou, dando-lhe um empurrão.

Sofia se levantou com dificuldade. O joelho sangrava através do rasgo no tecido. Ninguém parou para ajudá-la. Os recrutas olhavam com aborrecimento, como se ela fosse mais um peso numa marcha já insuportável.

Enxugou o sangue com a manga e continuou andando, mancando de leve. A dor era aguda, mas não tanto quanto a vergonha. Já era a última da fila. Já era a mais lerda. E agora, também a mais desajeitada.

Ao cair da tarde, as muralhas do acampamento apareceram diante deles. Não eram as muralhas imponentes dos filmes épicos: eram paliçadas de madeira reforçadas com terra batida, que serpenteadas sobre as colinas como uma cicatriz mal sarada. Torres de vigia se erguiam em intervalos regulares, e a fumaça das fogueiras manchava o céu com farrapos cinzentos.

O oficial de recrutamento os conduziu pelo portão principal e os alinhou junto a outros três grupos de novos recrutas. Sofia mantinha o olhar fixo no chão, o pescoço rígido, as mãos apertadas em punhos para disfarçar o tremor. Contou mentalmente: havia quarenta e três homens ao seu redor. Quarenta e três vozes falando numa língua que não entendia. Quarenta e três ameaças em potencial se descobrissem quem ela era.

— Você — disse o oficial, apontando para ela —. Barraca nove. Com os outros.

Entregaram-lhe um número gravado numa tabuinha de madeira e a empurraram na direção de uma das barracas mais afastadas. Sofia caminhou sentindo os olhares dos outros recrutas na nuca. Alguém cuspiu na sua passagem. Outro murmurou algo que soou como "inútil".

A barraca era um retângulo de lona grossa esticada sobre postes de madeira, com o chão coberto de palha seca. Dez esteiras estavam dispostas em duas fileiras, separadas apenas por um palmo de distância. Sem privacidade. Sem divisórias. Sem um único canto onde uma mulher pudesse se trocar sem ser vista.

Sofia escolheu a esteira do canto mais afastado, encostada na lona da barraca. Encolheu-se nela, abraçando os joelhos, e rezou em silêncio para que ninguém lhe dirigisse a palavra.

— Você é surdo além de mudo?

Um soldado veterano, de rosto quadrado e bigode ralo, a mirava da entrada. Era o mesmo que tinha gritado com ela durante a marcha. Sofia captou o desprezo na voz dele, embora as palavras continuassem sendo estranhas.

— Deixa ele em paz, Lao Chen — interveio uma voz atrás dela.

Um jovem robusto, ombros largos e dentes separados, se deixou cair na esteira vizinha à dela. Cheirava a suor e a uma coisa doce, tipo fruta madura. Estendeu um pedaço de pão duro sem parar de sorrir.

— Toma. Você tá com cara de fome.

Sofia aceitou o pão com mãos desajeitadas. Mordeu: estava duro como pedra e sabia a grão moído com areia. Mas era comida. Engoliu com dificuldade e assentiu para o jovem, tentando transmitir um agradecimento que não podia pronunciar.

— Meu nome é A Chai — disse ele, batendo no peito —. De uma aldeia lá no sul. Bom, do que sobrou da aldeia depois que os cobradores levaram até os porcos. E você?

Sofia olhou sem responder. Apontou para a garganta e negou com a cabeça.

— Ah, certo. Mudo — A Chai não parecia incomodado com seu silêncio. Se recostou na esteira e continuou falando como se fossem amigos de infância —. Não se preocupa. Aqui todo mundo aprende a calar a boca mais cedo ou mais tarde. Quem fala demais é o primeiro a morrer.

Da entrada da barraca, Lao Chen cuspiu no chão.

— Outro inútil e um mudo. Só o que faltava.

A Chai não se deu ao trabalho de responder. Piscou um olho para Sofia e começou a desembrulhar seu próprio embrulho, de onde tirou uma tira de carne seca que cheirava a especiarias.

— Minha mãe que preparou — explicou —. Ela diz que carne com cominho dura mais sem estragar. Embora tudo que minha mãe cozinha tenha gosto de cominho, então talvez não seja truque, é que ela não sabe cozinhar mesmo.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 17.05.2026

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