O primeiro dia de treinamento foi uma catástrofe.
Os recrutas foram acordados antes do amanhecer com gritos e pisadas. Sofia se levantou num pulo, o coração disparado, e levou uns segundos para lembrar onde estava. A palha da esteira tinha grudado na sua bochecha e o lado direito do rosto estava todo dormente.
O instrutor era um homem baixo e quadrado, nariz torto de uma fratura antiga e uma voz que parecia sair de um barril.
— Espada! — gritou, e atirou uma arma de madeira para cada recruta.
Sofia pegou a sua por instinto. Pesava mais do que tinha imaginado. O cabo era áspero e escorregadio de tanto uso, e a lâmina de madeira estava lascada de tanto bater em outros escudos.
— Posição um!
Os recrutas se colocaram em posição: pés separados, joelhos flexionados, a espada em cima. Sofia tentou imitar, mas seus braços tremiam e a ponta da arma descrevia círculos irregulares no ar. O instrutor passou entre as fileiras corrigindo posturas com tapas secos nas costas e nas pernas.
Quando chegou em Sofia, parou.
— Isso é o quê? — afastou a espada dela com um tapa —. Nem um pedaço de pau você sabe segurar. De onde te tiraram?
Sofia não entendeu as palavras, mas o tom era inconfundível. Baixou a cabeça, as bochechas ardendo.
— De novo!
Tentou outra vez. Dessa vez separou mais os pés e flexionou os joelhos até doerem os músculos. O instrutor a olhou de cima a baixo e soltou um bufo.
— Mudo e inútil — sentenciou —. Pelo menos os inúteis que falam podem pedir ajuda.
A Chai, que estava dois postos à frente, jogou um olhar de apoio e fez um gesto com os lábios que Sofia interpretou como "não liga pra ele". Mas era fácil dizer isso quando a gente não era o alvo de todas as gozações.
As horas seguintes foram uma tortura interminável. Flexões, corrida com esteira nas costas, prática de formações que Sofia não entendia. Cada vez que o instrutor gritava uma ordem, ela olhava para os companheiros e tentava copiar seus movimentos com um segundo de atraso. Ao meio-dia, doíam todos os músculos que ela sabia que tinha e vários que não sabia.
Durante uma pausa para beber água, A Chai se aproximou dela.
— Escuta — sussurrou —. Lao Chen está te olhando faz tempo. Não sei o que ele quer, mas cuidado.
Sofia assentiu. Já sabia. Desde que tinha chegado, sentia os olhos do veterano cravados na sua nuca como duas agulhas.
E aí aconteceu.
Um jovem recruta — A-Fu, um dos rapazes que dividiam a barraca com ela — se cortou no braço enquanto limpava a espada. A lâmina escorregou e abriu um talho no antebraço, bem debaixo do cotovelo. O sangue jorrou escuro e grosso.
Os soldados se afastaram. Alguém gritou chamando o médico. A-Fu ficou olhando o braço com uma expressão de incredulidade infantil, como se não pudesse acreditar que aquilo estava acontecendo com ele.
Sofia agiu sem pensar.
Correu para os arbustos que margeavam o campo de treinamento. Seus dedos reconheceram a forma das folhas antes que sua mente: lanceoladas, com o verso prateado, iguais às folhas de alecrim-pimenta que sua avó cultivava no quintal de terra batida lá em casa, no Rio Vermelho. Arrancou um punhado, amassou com os dentes — o sabor amargo encheu sua boca — e fez uma pasta verde que aplicou sobre o ferimento de A-Fu.
— O que você tá fazendo? — gritou alguém.
— O mudo endoidou.
— Tira isso dele!
Sofia ignorou as vozes. Apertou a pasta contra o corte e segurou o braço de A-Fu com firmeza. Lembrava de sua avó curando os ferimentos dos vizinhos, naquele bairro onde não tinha clínica nem médico, onde tudo se resolvia com o que crescia nos vasos e no fundo do quintal.
A-Fu a olhava com os olhos bem abertos, mudo de espanto ou de medo.
O médico militar chegou depois de uns minutos. Era um homem mais velho, barba rala e dedos manchados de tinta e pomadas. Afastou Sofia com um empurrão e examinou o ferimento.
O que viu fez ele empalidecer.
O corte tinha inflamado. A pele ao redor estava vermelha e inchada, e umas bolhas minúsculas começavam a se formar nas bordas. A-Fu reclamou de uma dor latejante que não tinha antes.
— O que você colocou nele? — o médico se virou para Sofia com os olhos incendidos de raiva.
Sofia recuou, negando com a cabeça, as palmas para fora. Não podia explicar. Não podia dizer que em Salvador aquelas folhas curavam, que sua avó tinha usado a vida inteira, que ela não queria fazer mal. Tudo que conseguiu fazer foi mostrar as mãos manchadas de verde e balançar a cabeça.
— Veneno! — trovejou o médico —. Esse imbecil envenenou o soldado!
Um murmúrio de horror percorreu o grupo. Os recrutas se afastaram de Sofia como se ela tivesse peste. Lao Chen apontou o dedo para ela.
— Sabia que não dava pra confiar! Desde que chegou, eu sabia!
O médico limpou o ferimento com água e passou uma pomada de verdade. A-Fu se retorcia de dor, mas o avermelhado começou a diminuir devagar. Depois de uma hora, o perigo tinha passado. Mas o estrago já estava feito.