O respeito no acampamento não se media com palavras, mas com gestos. Depois do episódio com Zhou Dayong, os soldados pararam de chamar Sofia de "mudo" com desprezo e começaram a chamar ela de "mudo" com uma coisa parecida com reconhecimento. Cediam passagem na fila da comida. Guardavam um lugar pra ela perto da fogueira. Lao Chen ainda olhava com hostilidade, mas já não apontava o dedo quando passava.
No entanto, o respeito não resolvia as coisas práticas. E as coisas práticas, num acampamento militar, eram o que fazia a diferença entre viver e morrer.
Sofia descobriu isso numa manhã durante um exercício de curativos. O instrutor distribuiu tiras de pano grosseiro entre os recrutas e mandou eles treinarem torniquetes. Sofia pegou a dela e, no primeiro puxão, o pano rasgou na costura. Era um material áspero, mal tecido, que se desfiava só de olhar.
— Concentração! — gritou o instrutor —. Um torniquete mal feito é um morto no campo de batalha. Se não sabem fazer curativo num companheiro, melhor se despedirem logo das suas pernas.
Sofia tentou dar nó no pano de novo. Rasgou outra vez.
Aquela noite, enquanto os outros dormiam, ela pegou o embrulho que a mãe Hua tinha preparado antes da partida. Entre as túnicas de reserva e o pente de madeira, encontrou um novelo de fio de cânhamo. Era áspero, dum marrom acinzentado, e cheirava a celeiro. Mas era bem fiado.
— O que cê tá fazendo? — murmurou A Chai lá da esteira dele, com um olho aberto.
Sofia mostrou o novelo e apontou pro curativo rasgado que tinha guardado de amostra.
— Ah. Quer arrumar — A Chai se virou pro outro lado —. Pois faça quieto que eu tô com sono.
Não era só arrumar. Era melhorar.
Sofia lembrava das tardes na Feira de São Joaquim, sentada num banquinho ao lado da mãe. Dona Carmem tecia rendas de bilro com uma técnica que tinha aprendido com a própria mãe, que por sua vez tinha aprendido com a mãe dela, numa corrente de mãos de mulher que vinha lá do sertão. "O segredo tá na torção", dizia ela, manipulando os bilros com dedos ágeis apesar dos calos. "Primeiro você faz a base com fio duplo, depois enrola a camada de fora bem apertado. Assim o fio aguenta o triplo do peso."
Sofia não tinha bilros. Mas tinha uns gravetos retos que tinha pegado no bosque. Lixou contra uma pedra até deixar lisos e começou a trabalhar.
O processo era lento. Primeiro desfiou o novelo e separou os fios mais compridos. Depois começou a trançar, seguindo o ritmo que a mãe tinha ensinado: polegar pra cima, indicador pra baixo, cruzar, apertar, repetir. Os dedos recuperaram a memória muscular quase na hora, como se o corpo lembrasse o que a mente tinha esquecido.
Trançou durante horas. O amanhecer a pegou com os dedos doloridos e uma fita pronta entre as mãos.
Era estreita, de apenas dois dedos de largura, mas incrivelmente resistente. Quando esticou com toda força, a fita não cedeu. Podia se enrolar sobre si mesma, dar nó com facilidade e fazer pressão uniforme. Era, no fundo, um torniquete perfeito.
— Isso é o quê?
A Chai tinha acordado e olhava com os olhos remelentos. Sofia estendeu a fita pra ele. Ele esticou, dobrou, tentou rasgar com as mãos. Não conseguiu.
— Isso é mais forte que os curativos do médico — disse, com uma expressão de espanto que tirava o sono do rosto —. Foi você que fez?
Sofia assentiu.
— Me ensina.
Ela balançou a cabeça. Não porque não quisesse, mas porque era impossível explicar a técnica sem palavras. Em vez disso, deu a fita pronta pra ele.
— É pra mim? — A Chai olhou como se ela tivesse entregado uma espada de ouro —. Mano, isso vale mais que o salário de um mês.
Naquela manhã, durante o treinamento, o instrutor botou eles pra praticar curativos outra vez. Sofia pegou a fita trançada e usou pra simular um torniquete no braço de Pedra. O instrutor parou ao lado dela.
— Que negócio é esse?
Sofia mostrou a fita. O instrutor esticou, examinou dos dois lados, franziu a testa.
— De onde você tirou isso?
— Foi ele que fez — interveio A Chai, apontando pra Sofia com o polegar —. Na mão. Com fio de cânhamo.
O instrutor ficou em silêncio uns segundos. Depois guardou a fita no bolso.
— Me traz dez dessas pra amanhã.
Sofia piscou.
— Você é surdo além de mudo? — resmungou o instrutor —. Dez! E do mesmo comprimento!
Foi a primeira ordem direta que ela recebeu. E pela primeira vez, era uma ordem que podia cumprir.
Aquela noite, Sofia sentou perto da fogueira com o novelo de cânhamo no colo. Enquanto os dedos trançavam, os soldados se aproximavam pra olhar. Alguns pediam pra ela fazer uma fita. Outros ofereciam troca: uma ração extra de carne, um turno de guarda coberto, uma manta pras noites frias.
Sofia aceitava com inclinações de cabeça e continuava tecendo.
Pedra foi o primeiro a receber a dele. Amarrou na coxa como um amuleto e deu um tapa nas costas de Sofia que quase jogou ela no fogo.