Mulan em Mim

Capítulo 8: Aquele que observa

Três dias depois, Chen Yan chegou ao acampamento.

Sofia viu ele de longe, durante o treinamento matinal. Um grupo de soldados tinha acabado de chegar da guarnição do leste, com as botas empoeiradas e os rostos cansados da marcha. Entre eles, um se destacava sem fazer nada pra se destacar: era mais jovem que a maioria, porte sereno e ombros relaxados, com uma túnica que caía melhor que a dos outros. Não usava armadura completa, só uma proteção de couro no peito, e o cabelo preso num rabo baixo que roçava a nuca.

O coração deu um pulo na boca.

Não era o coração dela. Era o coração de Mulan.

Sofia ficou imóvel, a espada de treinamento pendurada numa mão, enquanto uma torrente de sensações estranhas inundava seu peito. Reconhecia aquele rosto. Ou melhor, o corpo dela reconhecia. Era como se cada célula da pele puxasse na direção daquele homem, como se os ossos sussurrassem um nome que sua mente não conhecia.

Na noite anterior, tinha acontecido de novo. Acordou no meio da escuridão murmurando palavras em chinês que não lembrava de ter aprendido. O corpo de Mulan falava sozinho enquanto Sofia dormia. Era como se a memória da antiga dona do corpo ainda estivesse ali, escondida nos ossos, esperando o momento certo pra sair.

Chen Yan.

O amigo de infância. Aquele que tinha ensinado Mulan a subir em árvores, a nadar no rio, a assobiar com uma folha de grama entre os dentes. Aquele que tinha prometido, quando eram crianças, que casaria com ela.

Mas também era o homem que agora olhava pra ela com a testa franzida.

Sofia desviou o olhar. Tarde demais.

Chen Yan se aproximou com passo tranquilo, desviando dos soldados que se apressavam pra formar filas. Parou a uns passos dela e observou com uma expressão que Sofia não soube interpretar: não era hostilidade, não era alegria. Era uma coisa no meio, suspensa entre a esperança e a desconfiança.

— Mulan.

O jeito que ele pronunciou aquele nome atravessou seu peito. Tinha peso naquela palavra, uma história longa e compartilhada que Sofia não conhecia mas que seu corpo sentia falta.

Sofia baixou a cabeça e assentiu.

— Me falaram que você tava aqui. Que veio no lugar do seu pai. Não queria acreditar.

Chen Yan deu outro passo. Estava perto o bastante pra Sofia sentir o cheiro de couro da armadura dele e mais alguma coisa, um aroma limpo de sabão de cinzas.

— Você tá bem?

Sofia assentiu de novo, sem levantar o olhar.

— Por que não fala comigo?

Ela apontou pra garganta e balançou a cabeça, o gesto que tinha aperfeiçoado até virar reflexo automático.

— Você tá doente?

Assentiu.

Chen Yan ficou em silêncio. Depois, com um movimento lento, enfiou a mão na bolsa e tirou um ramalhete de flores silvestres. Eram pequenas, dum roxo pálido, com as pétalas levemente amassadas pela viagem.

— Encontrei no caminho. São daquelas que você sempre gostava. Lembra? As que cresciam perto do rio, na beira do moinho velho.

Sofia pegou o ramalhete com mãos desajeitadas. Não lembrava de nada. Não sabia que rio, que moinho, que tardes compartilhadas estavam gravadas na memória do corpo que habitava. Pra ela, aquelas flores eram só flores.

Mas o corpo de Mulan lembrava. Os dedos tremeram. Os olhos marejaram sem que ela pudesse controlar.

— Você mudou — disse Chen Yan.

Não era uma pergunta. Era uma constatação. O tom não era doce nem nostálgico: era frio, avaliador, como o de um caçador que examina umas pegadas que não reconhece.

— Não sei o que aconteceu com você — continuou, baixando a voz —. Mas não é a mesma. Anda diferente. Olha diferente. Até cheira diferente.

Sofia sentiu o sangue gelar. Primeiro Xiao Ce. Agora ele. Quanto tempo ia levar pros outros notarem?

— Não vou te perguntar nada — disse Chen Yan, e pela primeira vez a voz perdeu um pouco da frieza —. Não ainda. Mas preciso saber se a Mulan que eu conhecia ainda está aí dentro.

A pergunta ficou flutuando no ar como uma espada suspensa por um fio.

Sofia quis responder. Quis dizer a verdade: que ela não era Mulan, que Mulan provavelmente tinha morrido ou desaparecido no momento em que a alma dela ocupou aquele corpo, que sentia muito mais do que podia expressar. Mas tudo que conseguiu foi segurar o ramalhete contra o peito e balançar a cabeça, um gesto ambíguo que podia significar qualquer coisa.

Chen Yan olhou pra ela longamente. Depois assentiu, como quem anota uma informação pra processar mais tarde.

— Se cuida — disse.

E foi embora.

Sofia ficou parada no meio do campo de treinamento, as flores apertadas contra o coração, enquanto os soldados retomavam os exercícios ao redor dela. Ninguém parecia ter notado o encontro. Ninguém exceto A Chai, que se aproximou com o passo despreocupado de sempre.

— Amigo seu? — perguntou, apontando com o queixo pra direção onde Chen Yan tinha desaparecido.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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