Mulan em Mim

Capítulo 9: Milho roxo

A ideia surgiu numa tarde de calor sufocante, quando os soldados se arrastavam pelo acampamento com a língua de fora e a comida tinha gosto de barro requentado.

— O que eu não daria por um caldo de cana bem gelado — murmurou Sofia em português, abanando com a mão.

A Chai, que tava largado do lado dela, levantou uma sobrancelha.

— Que foi que você disse?

Sofia balançou a cabeça. Mas a ideia já tinha sido plantada.

O caldo de cana com gengibre e limão era a bebida da infância dela. A Mainha preparava quase todo fim de semana numa panela enorme, com cana espremida na hora, gengibre ralado, limão espremido e muito gelo. Quando Sofia voltava da escola, ela mesma tirava do freezer um copo e sentava no quintal pra beber devagar, sentindo o frescor descer pela garganta e aliviar o calor de Salvador. Era o gosto das tardes de verão, das histórias da avó, de um lar que agora parecia irreal.

Sofia tinha notado uma coisa estranha nos últimos dias. Quando tentava falar chinês de propósito, as palavras saíam tortas, embaralhadas. Mas quando não pensava — quando só deixava o corpo agir — saía quase certo. Era como se Mulan ainda estivesse ali, dentro dela, ajudando quando ninguém tava olhando.

Mas ela tava na China. Não tinha cana-de-açúcar, não tinha gengibre como conhecia, não tinha limão igual ao de casa. O que tinha era milho silvestre — de grão pálido, não escuro como o milho roxo que a Mainha usava pras canjicas — e frutinhas dos arbustos que cresciam perto do rio.

— Ô — disse pra A Chai, apontando pra floresta —. Me ajuda?

A Chai se levantou com um gemido.

— Mudo, com você é sempre trabalho. Mas beleza, pelo menos não é chato.

Recolheram milho do depósito de grãos e frutinhas dos arbustos perto dali. As frutinhas eram azedas e pequenas, dum vermelho intenso que manchava os dedos. Sofia examinou cada uma com cuidado antes de aprovar: tinha aprendido a lição de não usar planta desconhecida sem testar antes.

— O que a gente vai fazer? — perguntou A Chai, carregando um punhado de espigas.

— Beber — respondeu Sofia, no chinês mais direto que conseguiu juntar.

— Ah, então eu topo.

O processo foi um desastre. A primeira tentativa queimou porque A Chai botou o fogo alto demais. A segunda ficou azeda demais porque Sofia errou a quantidade de frutinha. A terceira tinha gosto de água suja, e A Chai cuspiu com uma careta de novela das seis.

— Isso é veneno — declarou —. Pior que o do A-Fu.

— De novo — disse Sofia.

— De novo? Já foram três!

Sofia olhou fixo pra ele.

— Tá bom, tá bom — A Chai levantou as mãos —. Mas depois você me deve uma.

A quarta tentativa foi a definitiva. Sofia ajustou as quantidades: menos frutinha, mais tempo de fervura, um toque de mel que tinha conseguido trocando uma fita trançada com o cozinheiro. Quando finalmente provou o caldo, um sabor agridoce encheu sua boca. Não era o caldo de cana da Mainha. Não se parecia nem um pouco com o de casa. Mas era fresco, aromático e estranhamente gostoso.

— Prova — disse pra A Chai.

Ele bebeu um gole. Os olhos arregalaram.

— Tá bom! — exclamou —. Arretado, mudo! Isso tá bom de verdade!

O cheiro atraiu outros soldados. Primeiro Pedra, que se aproximou cheirando o ar como um cachorro de caça. Depois Zhou Dayong, que não disse nada mas estendeu a xícara. Depois outros, mais outros, até que formaram uma roda em volta da fogueira.

Sofia serviu a bebida em todas as xícaras que encontrou. Os soldados bebiam e comentavam, surpresos que uma coisa tão simples pudesse ser tão gostosa. Alguém tirou um pedaço de carne seca e compartilhou. Outro começou a cantar uma canção da aldeia dele, com uma voz rouca e desafinada que arrancou gargalhadas.

— Isso que tava faltando nesse acampamento — disse Pedra, lambendo os beiços —. Uma coisa que não tenha gosto de rancho.

— Devia fazer isso todo dia — propôs outro.

— É, mudo, larga o treinamento que pra isso você não serve.

Era brincadeira, mas Sofia recebeu como um elogio. Pela primeira vez, as risadas não eram contra ela. Eram risadas compartilhadas, dessas que unem os homens em volta de uma fogueira.

Aquela noite, quando os soldados foram dormir, A Chai ficou perto das brasas com ela.

— Como chama isso? — perguntou, apontando pra xícara vazia.

Sofia hesitou. Não sabia como traduzir "caldo de cana" pro chinês. Mas sabia como chamar no idioma dela.

— Chicha — disse, simplesmente.

— Tchí-tcha — repetiu A Chai, com o sotaque impossível dele —. Estranho. Mas gostei.

Ficaram quietos um tempo, escutando o estalar das brasas. Bai Ling tinha se aproximado e lambia o fundo de uma xícara vazia.

— Ô, mudo — disse A Chai de repente —. Você não é daqui, né?



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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