A convocação chegou ao amanhecer, com o orvalho ainda grudado nas lonas e o frio entrado nos ossos.
— Patrulha de reconhecimento! — gritou o oficial, plantado no centro do acampamento com uma tabuinha na mão —. Preciso de voluntários com bom olho e melhor perna. Quem não presta, fica esquentando a esteira.
Sofia se levantou num pulo. Fazia semanas que esperava uma oportunidade pra sair do acampamento, pra mostrar que era capaz de alguma coisa além de trançar fita e cozinhar bebida. Se colocou na fila dos voluntários antes que o medo pudesse convencê-la do contrário.
— Mudo, você tá fazendo o quê aqui? — A Chai apareceu ao lado dela, esfregando os olhos —. Isso não é passeio pra colher frutinha.
Sofia sustentou o olhar. A Chai resmungou.
— Tá bom, tá bom. Vou com você. Se te matarem, que não seja sem testemunha.
O grupo ficou formado por oito homens: Xiao Ce no comando, Chen Yan como segundo, A Chai, Pedra, Zhou Dayong e outros dois soldados veteranos. E Sofia. O oficial de recrutamento olhou desconfiado, mas Xiao Ce interveio antes que ele pudesse contestar.
— Ela sabe de erva e tem bom olho pro terreno. Que venha.
Foi a primeira vez que Xiao Ce a defendeu abertamente. Sofia não soube se se sentia lisonjeada ou apavorada.
Partiram com o sol despontando sobre as colinas. A Muralha se erguia ao longe como uma cobra de pedra, borrada pela bruma da manhã. Sofia marchava no meio do grupo, a mão apoiada no cabo do facão que Pedra tinha dado a ela. A floresta se fechava dos dois lados do caminho, densa e úmida, cheia de sons que os outros soldados ignoravam mas que ela registrava um por um: o estalo de um galho ao norte, o bater de asas de um pássaro assustado ao leste, o cheiro almiscarado de um bicho que tinha passado ali pouco tempo antes.
O avô dela tinha ensinado a ler o mato como outros leem um livro. "Cada pegada é uma palavra, cada cheiro é uma frase", dizia ele nos morros de Salvador, quando levava ela pra caçar com uma fisga e um alforje de couro. "Quem sabe ler o mato nunca passa fome. E nunca é pego de surpresa."
Foi esse treinamento que salvou a vida dela.
No meio da manhã, Sofia parou de repente. Alguma coisa tinha mudado no ar: um cheiro metálico, denso, que não pertencia à floresta. Cheiro de suor de cavalo.
— Que foi? — perguntou A Chai.
Sofia levantou uma mão. Apontou pra moita, depois pro nariz, depois pra frente.
Xiao Ce a observou uns segundos. Depois fez um sinal pro grupo parar.
— O que você detectou? — perguntou baixo.
Sofia não podia explicar. Em vez disso, se agachou e desenhou na terra com o dedo: uma ferradura, uma figura humana, uma flecha apontando na direção deles.
Xiao Ce franziu os olhos.
— Exploradores rouran. Preparem as armas.
A emboscada veio num instante. De dentro das árvores surgiram cinco homens a cavalo, com o rosto curtido pelo vento da estepe e as espadas curvas brilhando ao sol. Um deles investiu direto contra A Chai, que tava na linha da frente.
Sofia não pensou. Agiu.
O corpo dela se moveu com a memória de centenas de caçadas: agachar no último segundo, deixar o inimigo passar, e aí golpear. Não com força — ela não tinha força de homem — mas com precisão. O facão descreveu um arco baixo e golpeou o cavaleiro na coxa, num corte superficial mas dolorido. O cavalo relinchou, o cavaleiro perdeu o equilíbrio, e Sofia varreu as pernas dele com um chute baixo.
O rouran caiu no chão. Pedra finalizou ele antes que pudesse se levantar.
— Mudo! — gritou A Chai, com uma mistura de alívio e espanto —. De onde você tirou isso?
Sofia ofegava, o coração batendo nas costelas. Tinha sido um movimento instintivo, o mesmo que usava pra desviar de porco-do-mato quando caçava com o avô. Não era técnica de guerra. Era técnica de sobrevivência.
O combate durou só uns minutos. Os exploradores rouran, em menor número, recuaram pra dentro da floresta deixando dois dos seus pra trás. O grupo de Xiao Ce não teve baixas.
— Recolham o que presta e vamos — ordenou Xiao Ce, limpando a espada com um pano —. Não ficamos aqui.
Mas antes de continuar a marcha, parou ao lado de Sofia.
— Aquele movimento — disse, com o tom frio de sempre —. Não é de soldado. Onde você aprendeu?
Sofia apontou pra floresta e depois imitou o gesto de atirar com funda.
— Caçando — disse, num chinês truncado.
Xiao Ce olhou pra ela longamente. Depois assentiu, uma só vez, e seguiu andando.
Aquela noite, acamparam numa clareira protegida por uma saliência de pedra. Enquanto os outros dormiam, Xiao Ce sentou perto da fogueira e disse pra Chen Yan, que estava de guarda:
— Aquela pessoa, seja quem for, tem reflexo de caçador. Já vi soldados treinados por anos que não se movem assim.
Chen Yan não respondeu de imediato. Olhava as chamas com a testa franzida.
— Eu sei — disse por fim —. A Mulan que eu conhecia não sabia caçar.