Encontraram a moça no dia seguinte, numa vila destruída na fronteira.
Era um lugar desolado: casas de barro com telhados desabados, um poço seco, restos de uma paliçada queimada. A guerra passara por ali como um arado.
— Aqui não tem ninguém — disse Pedra, chutando uma vasilha quebrada.
— Espera.
Sofia apontou para uma construção em ruínas no fundo do caminho. Uma figura humana, pequena mas ereta, apoiada no que restava de um muro de pedra.
Tinha a idade de Sofia, talvez menos. Cabelo escuro preso numa trança apertada. Rosto manchado de poeira e sangue seco. Mas os olhos brilhavam com uma ferocidade que não deixava espaço para compaixão. A seus pés, dois soldados rouran caídos, um ainda gemendo. A lâmina da faca em sua mão pingava sangue.
— O que vocês estão olhando? — A voz era áspera, sem medo. — Chegaram tarde. Eu já resolvi.
Xiao Ce deu um passo à frente.
— Somos uma patrulha Han. Não vamos te machucar.
— Claro que não. — A moça soltou uma risada seca. — Porque não conseguiriam.
Sofia viu o corte no antebraço direito dela. Fundo. Sangrava através de um curativo improvisado com farrapos da própria roupa. Sem pensar, pegou o saquinho de ervas e se aproximou.
A faca se ergueu.
— Quieta. Um passo e te abro.
Sofia parou. Levantou as mãos, palmas para fora. Depois apontou para o saquinho. Para o ferimento. Para a própria boca e negou com a cabeça.
— Você é muda?
Sofia assentiu.
— Uma soldada muda. Isso eu nunca vi.
A faca baixou.
Sofia se ajoelhou. Não fez movimentos bruscos. Abriu o saquinho, mostrou as folhas, apontou para o corte. A moça a observava como um falcão observa uma presa.
— Se doer, eu grito — disse a moça. — E se eu gritar, meus amigos ali — apontou com o queixo para os homens caídos — acordam. E aí a conversa muda.
Sofia assentiu. Arrancou duas folhas de alecrim-pimenta, mastigou até formar pasta. Aplicou sobre o ferimento. A moça não se mexeu. Não gemeu. Só observava.
— Você é estranha — disse, quando Sofia terminou de enfaixar com uma das fitas trançadas. — Sabe curar. Mas não parece soldado.
Sofia deu de ombros.
— Me chamo Aina. Sou rouran. Das de baixo, não das que mandam. Meu povo me expulsou porque não quis casar com o velho que me arrumaram. Agora luto por conta.
Apontou para os homens caídos.
— Esses vieram saquear o que restou. Já não vão saquear mais nada.
Aina falava com uma mistura de orgulho e amargura que Sofia reconheceu na hora. Era a voz das mulheres que enfrentavam marido abusivo e patrão explorador no Rio Vermelho. A voz da mãe dizendo que "nenhuma tristeza dura para sempre".
— Erva — disse Sofia, apontando para o curativo. — Para sangue.
— Funciona. Melhor que as porcarias que os curandeiros da minha tribo usam.
Sofia pegou um punhado de folhas secas e estendeu.
— Para você.
Aina pegou. Seus dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário sobre a palma de Sofia.
— Ninguém nunca me deu nada sem pedir algo em troca. O que você quer?
Sofia balançou a cabeça.
Aina ficou em silêncio. Depois, num movimento rápido, sacou uma faca curta — lâmina curva, afiada só de um lado — e a estendeu pelo cabo.
— Toma. É minha faca reserva. Aprende a usar.
Sofia pegou. A arma era leve e equilibrada.
— Olha. — Aina se levantou e fez um movimento: corte diagonal de baixo para cima, rápido como um estalo. — Não é força. É velocidade e ângulo. Se esperar o inimigo terminar o golpe, você já morreu. Você entra enquanto ele está no meio do movimento.
Sofia imitou. Foi desajeitada no começo, mas Aina corrigiu com paciência — ajustou o cotovelo, o pulso, a posição dos dedos no cabo.
— Não aperta tanto. Faca não é porrete. Você segura como se estivesse fazendo carinho num gato. Firme, mas solto. Se tensionar os dedos, o corte sai duro.
Sofia afrouxou. O próximo golpe saiu mais fluido.
— Isso. Agora dez vezes.
Ela fez dez. No fim, o movimento saiu limpo.
— Pronto. Com isso, você pode cortar a mão de quem tentar te agarrar. Não é muito. Mas é melhor que nada.
Xiao Ce observava de longe, sem intervir. Chen Yan, ao lado, tinha a testa franzida.
— Aquela moça é rouran — murmurou. — Não devíamos confiar.
— Olha para elas — disse Xiao Ce. — Duas mulheres, de lados diferentes, ensinando uma à outra a sobreviver. Tem mais lealdade nesse gesto que na metade dos oficiais que conheço.
Aina partiu ao fim da tarde. Ia para o norte, procurar outros sobreviventes de sua tribo. Antes de ir, apertou o ombro de Sofia.