Mulan em Mim

Capítulo 11: A guerreira que veio do norte

Encontraram a moça no dia seguinte, numa vila destruída na fronteira.

Era um lugar desolado: casas de barro com telhados desabados, um poço seco, restos de uma paliçada queimada. A guerra passara por ali como um arado.

— Aqui não tem ninguém — disse Pedra, chutando uma vasilha quebrada.

— Espera.

Sofia apontou para uma construção em ruínas no fundo do caminho. Uma figura humana, pequena mas ereta, apoiada no que restava de um muro de pedra.

Tinha a idade de Sofia, talvez menos. Cabelo escuro preso numa trança apertada. Rosto manchado de poeira e sangue seco. Mas os olhos brilhavam com uma ferocidade que não deixava espaço para compaixão. A seus pés, dois soldados rouran caídos, um ainda gemendo. A lâmina da faca em sua mão pingava sangue.

— O que vocês estão olhando? — A voz era áspera, sem medo. — Chegaram tarde. Eu já resolvi.

Xiao Ce deu um passo à frente.

— Somos uma patrulha Han. Não vamos te machucar.

— Claro que não. — A moça soltou uma risada seca. — Porque não conseguiriam.

Sofia viu o corte no antebraço direito dela. Fundo. Sangrava através de um curativo improvisado com farrapos da própria roupa. Sem pensar, pegou o saquinho de ervas e se aproximou.

A faca se ergueu.

— Quieta. Um passo e te abro.

Sofia parou. Levantou as mãos, palmas para fora. Depois apontou para o saquinho. Para o ferimento. Para a própria boca e negou com a cabeça.

— Você é muda?

Sofia assentiu.

— Uma soldada muda. Isso eu nunca vi.

A faca baixou.

Sofia se ajoelhou. Não fez movimentos bruscos. Abriu o saquinho, mostrou as folhas, apontou para o corte. A moça a observava como um falcão observa uma presa.

— Se doer, eu grito — disse a moça. — E se eu gritar, meus amigos ali — apontou com o queixo para os homens caídos — acordam. E aí a conversa muda.

Sofia assentiu. Arrancou duas folhas de alecrim-pimenta, mastigou até formar pasta. Aplicou sobre o ferimento. A moça não se mexeu. Não gemeu. Só observava.

— Você é estranha — disse, quando Sofia terminou de enfaixar com uma das fitas trançadas. — Sabe curar. Mas não parece soldado.

Sofia deu de ombros.

— Me chamo Aina. Sou rouran. Das de baixo, não das que mandam. Meu povo me expulsou porque não quis casar com o velho que me arrumaram. Agora luto por conta.

Apontou para os homens caídos.

— Esses vieram saquear o que restou. Já não vão saquear mais nada.

Aina falava com uma mistura de orgulho e amargura que Sofia reconheceu na hora. Era a voz das mulheres que enfrentavam marido abusivo e patrão explorador no Rio Vermelho. A voz da mãe dizendo que "nenhuma tristeza dura para sempre".

— Erva — disse Sofia, apontando para o curativo. — Para sangue.

— Funciona. Melhor que as porcarias que os curandeiros da minha tribo usam.

Sofia pegou um punhado de folhas secas e estendeu.

— Para você.

Aina pegou. Seus dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário sobre a palma de Sofia.

— Ninguém nunca me deu nada sem pedir algo em troca. O que você quer?

Sofia balançou a cabeça.

Aina ficou em silêncio. Depois, num movimento rápido, sacou uma faca curta — lâmina curva, afiada só de um lado — e a estendeu pelo cabo.

— Toma. É minha faca reserva. Aprende a usar.

Sofia pegou. A arma era leve e equilibrada.

— Olha. — Aina se levantou e fez um movimento: corte diagonal de baixo para cima, rápido como um estalo. — Não é força. É velocidade e ângulo. Se esperar o inimigo terminar o golpe, você já morreu. Você entra enquanto ele está no meio do movimento.

Sofia imitou. Foi desajeitada no começo, mas Aina corrigiu com paciência — ajustou o cotovelo, o pulso, a posição dos dedos no cabo.

— Não aperta tanto. Faca não é porrete. Você segura como se estivesse fazendo carinho num gato. Firme, mas solto. Se tensionar os dedos, o corte sai duro.

Sofia afrouxou. O próximo golpe saiu mais fluido.

— Isso. Agora dez vezes.

Ela fez dez. No fim, o movimento saiu limpo.

— Pronto. Com isso, você pode cortar a mão de quem tentar te agarrar. Não é muito. Mas é melhor que nada.

Xiao Ce observava de longe, sem intervir. Chen Yan, ao lado, tinha a testa franzida.

— Aquela moça é rouran — murmurou. — Não devíamos confiar.

— Olha para elas — disse Xiao Ce. — Duas mulheres, de lados diferentes, ensinando uma à outra a sobreviver. Tem mais lealdade nesse gesto que na metade dos oficiais que conheço.

Aina partiu ao fim da tarde. Ia para o norte, procurar outros sobreviventes de sua tribo. Antes de ir, apertou o ombro de Sofia.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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