A neblina baixou sobre o acampamento na noite em que voltaram da patrulha. Sofia não dormia. Ficava sentada na entrada da tenda, a faca de Aina no colo, repetindo o movimento de corte no ar.
A Chai roncava lá dentro. Zhou Dayong resmungava algo dormindo. Bai Ling estava enroscada aos seus pés.
O golpe saía mais limpo agora. Seu avô dizia que um movimento repetido mil vezes vira instinto. Ela ainda não tinha repetido mil vezes. Mas estava chegando perto.
— Isso é golpe rouran.
A voz veio da escuridão. Xiao Ce.
Ele se aproximou sem pressa, os passos silenciosos na terra seca. Parou a dois passos e olhou a faca.
— Quem te ensinou?
— Aina — disse Sofia. — A moça da vila.
— Uma inimiga.
— Ela me ensinou a me defender.
Xiao Ce ficou em silêncio. Depois disse, com aquela voz pausada que nunca traía emoção:
— Guarde esse golpe. E guarde o nome dela. Inimigos às vezes são mais leais que aliados.
Sofia olhou para ele. Era a coisa mais pessoal que Xiao Ce já dissera.
— Por que o senhor me protege?
A pergunta saiu antes que ela pudesse contê-la.
Xiao Ce não respondeu de imediato. Sentou-se num tamborete perto da fogueira, os olhos fixos nas brasas.
— Tive um irmão — disse ele. — Mais novo. Morreu na primeira batalha. Não porque era ruim de luta. Porque ninguém o protegeu quando ele cometeu um erro.
Ele não olhou para Sofia. Continuou olhando o fogo.
— Você cometeu um erro com aquele soldado. Quase o matou. Mas depois testou as ervas no próprio braço. Não pediu ajuda. Não culpou ninguém. Só... fez o que tinha que fazer.
Levantou-se.
— Pessoas assim merecem uma segunda chance. Só uma. Não a desperdice.
E foi embora.
Sofia ficou sentada, a faca no colo, as palavras de Xiao Ce girando na cabeça. Ele não a protegia por bondade. Protegia porque via nela algo que reconhecia — um eco do irmão que não pôde salvar.
Bai Ling se mexeu. Levantou a cabeça, as orelhas apontadas para o norte.
Sofia seguiu seu olhar. Além da paliçada, as colinas estavam escuras. Mas no horizonte, pontilhadas como estrelas caídas, as fogueiras dos acampamentos rouran brilhavam.
Eram mais do que na noite anterior.
Muito mais.
Sofia prendeu a respiração. Seu avô dizia: "Quando os fogos do inimigo se multiplicam, a batalha está próxima."
Ela contou as fogueiras que conseguia ver. Perdeu a conta depois de trinta.
Amanhã. Ou depois. Ou na próxima lua. Mas a guerra estava chegando. E desta vez, não seria uma patrulha de reconhecimento. Seria o ataque total.
Bai Ling apoiou o focinho em seu joelho. Sofia acariciou a cabeça da raposa.
— Você sabe, né? — murmurou. — Sabe que vai ser grande.
A raposa lambeu sua mão.
Sofia não dormiu naquela noite. Ficou sentada, a faca de Aina na mão direita, o saquinho de ervas na esquerda. Uma mulher entre dois mundos, esperando a tempestade.
Dentro da tenda, A Chai resmungou algo sobre chicha. Zhou Dayong virou de lado. Pedra roncou mais alto.
Eles ainda não sabiam.
Mas a contagem regressiva tinha começado.
�� Nota da autora (Mike A Sir): XIAO CE TEVE UM IRMÃO. E a Sofia lembrou ele do irmão que morreu. “Pessoas assim merecem uma segunda chance. Só uma.” Agora tudo faz sentido — ele não é frio, ele é marcado. E AS FOGUEIRAS ROURAN SE MULTIPLICANDO NO HORIZONTE! A guerra grande tá chegando. Vocês tão prontos? ��