Mulan em Mim

Capítulo 13: Sangue no facão

Os chifres soaram ao amanhecer. Três toques longos — o código de invasão.

Sofia se levantou num pulo. Ao lado, A Chai já calçava as botas.

— Eles tão aí — disse ele, a voz irreconhecível.

O acampamento explodiu em movimento. Soldados corriam para as paliçadas, oficiais gritavam ordens, as catapultas rangiam ao serem tensionadas. Sofia pegou a bolsa de ervas, a faca de Aina e um fardo de ataduras limpas. Correu para a tenda de curativos.

Quando chegou, o ataque já tinha começado.

Os rouran investiram contra a paliçada leste com escadas e aríetes. Os gritos se misturavam ao estrondo da madeira contra madeira. Do lado de dentro, os defensores jogavam óleo fervente e pedras. Os primeiros feridos chegaram à tenda antes que o sol terminasse de nascer.

Sofia limpou, mastigou, aplicou, enfaixou. O ritual mecânico era a única coisa que a impedia de pensar no horror que se desenrolava lá fora. Um soldado com ombro deslocado. Outro com queimadura de óleo. Um terceiro com um corte profundo na coxa. Ela trabalhava sem parar, as mãos manchadas de verde e vermelho.

E então um estrondo diferente.

Uma seção da paliçada sul cedeu.

— Pra brecha! — gritou alguém.

Sofia hesitou um segundo. Depois pegou a faca e a bolsa e correu.

O caos era absoluto. Soldados Han e rouran lutavam corpo a corpo entre madeiras estilhaçadas. Zhou Dayong brandia uma maça que parecia pesar mais que um homem, defendendo a posição como um urso acuado.

E então Sofia viu.

A Chai estava caído. Um cavaleiro rouran se aproximava, a espada curva erguida.

Ela não pensou. O corpo agiu.

O golpe que Aina ensinara — corte diagonal de baixo para cima — saiu limpo. A lâmina atingiu o cavaleiro na coxa, bem onde a armadura deixava uma fresta. O homem gritou. O cavalo empinou. A Chai rolou para o lado e se levantou, ainda tonto.

— Mudo! — gritou ele, os olhos arregalados.

Ela não respondeu. Olhava a faca. A lâmina pingava sangue. Sangue de verdade, quente, que respingara em sua mão. O homem que ela golpeara estava no chão, segurando a perna, ainda vivo.

Alguém a puxou pelo braço. Zhou Dayong.

— Continua — disse ele, e a arrastou para fora da linha de combate.

A brecha foi fechada minutos depois. Os rouran recuaram, deixando corpos para trás. O primeiro ataque fora repelido.

Sofia caminhou para trás do depósito de grãos. Encostou-se na parede de barro. E vomitou.

A Chai a encontrou ali, as mãos nos joelhos, o corpo sacudindo.

— A primeira vez é a pior — disse ele, estendendo o cantil. — Eu chorei igual criança depois da minha.

Sofia pegou o cantil. Bebeu. A água desceu amarga.

— Você me salvou — disse A Chai. — De novo.

Ela balançou a cabeça.

— Salvou sim. Não discute.

Ele sentou ao lado dela no chão de terra. Ficaram em silêncio, ombro a ombro, enquanto o sol subia sobre o acampamento devastado. Ao longe, alguém gritava por um médico. Alguém chorava.

— Sabe qual é a pior parte? — disse A Chai. — Depois você acostuma. Isso é o pior de tudo.

Sofia fechou os olhos. Ainda sentia o peso da faca na mão. O impacto da lâmina contra a carne. O som que o homem fizera ao cair.

Quando voltou para a tenda de curativos, lavou a faca três vezes. A água ficou rosada. Na terceira vez, a lâmina já refletia seu rosto.

Ela guardou a faca na cintura. Não ia dormir naquela noite. Mas também não ia vomitar de novo.

Ao anoitecer, os feridos estavam estáveis e os mortos, enfileirados perto da paliçada. Sofia caminhou entre as fileiras de corpos cobertos com lonas. Reconheceu um dos soldados que tinham bebido sua chicha na noite da roda. Agora estava imóvel, o rosto coberto, os pés descalços.

Alguém se aproximou. Era Pedra, a cabeça enfaixada, um corte ainda fresco na sobrancelha.

— Era um bom homem — disse Pedra, olhando o corpo. — Chamava-se Bo. Era da minha aldeia.

Sofia não disse nada. Ficou ao lado dele.

— Amanhã eles voltam — continuou Pedra. — Os batedores dizem que o grosso do exército rouran ainda nem chegou.

— Eu sei.

— Você vai estar aqui?

Ela olhou para ele.

— Vou.

Pedra assentiu. Depois tirou do bolso uma tira de carne seca e dividiu no meio. Estendeu a metade para ela.

— Toma. Vai precisar de força.

Sofia aceitou. Comeram em silêncio, lado a lado, enquanto a noite caía sobre o acampamento. Em algum lugar, alguém tocava uma flauta — uma melodia triste que falava de casa.

Naquela noite, Sofia não dormiu. Mas também não tremeu.

�� Nota da autora (Mike A Sir): Primeira batalha de verdade da Sofia. Ela salvou o A Chai, vomitou, lavou a faca três vezes. “A primeira vez é a pior. Depois você acostuma. Isso é o pior de tudo.” A Chai falando a verdade mais dura. E o Pedra dividindo a carne seca no meio... esses pequenos gestos são tudo. Amanhã os rouran voltam. Vocês estão preparados? ��



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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