Gao Wei apareceu na tenda de curativos na manhã seguinte.
Não estava ferido. Não trazia nenhum soldado ferido. Só entrou, as mãos nas costas, e percorreu o espaço com o olhar de quem inspeciona uma propriedade.
— Então é aqui que você trabalha — disse, parando diante de Sofia.
Ela estava separando ervas sobre a mesa, as costas viradas para a entrada. Não se virou.
— Me falaram que você salvou um homem ontem. Na brecha. Com uma faca.
Sofia continuou separando as folhas.
— E que vomitou depois. — Gao Wei sorriu. — Isso não me contaram, mas eu imaginei.
Ela se virou. Gao Wei estava mais perto do que esperava, a armadura polida cheirando a óleo perfumado.
— Você é uma contradição interessante — continuou ele. — Pequeno demais para ser soldado. Quieto demais para ser oficial. E, no entanto, todos falam de você. O comandante. O médico. Até meu tio perguntou sobre você na última carta.
Sofia sentiu um calafrio. Gao Gong perguntara sobre ela.
— Meu tio é um homem muito ocupado — disse Gao Wei, pegando uma folha de alecrim-pimenta da mesa e a cheirando com desdém. — Não se interessa por soldados rasos. O fato de ele ter perguntado sobre você... bem, é notável.
Ele largou a folha. Ela caiu no chão.
— Vou ficar de olho em você — disse Gao Wei. — E quando meu tio chegar, ele também vai querer te conhecer.
Saiu sem se despedir.
A Chai entrou logo depois, carregando um fardo de ataduras.
— O que aquele porco queria?
Sofia catou a folha do chão. Estava amassada, mas ainda servia.
— Informação — disse ela.
Naquela tarde, durante o treinamento, Gao Wei voltou a aparecer. Desta vez, estava acompanhado de dois soldados de sua escolta pessoal. Parou na borda do campo e ficou observando.
— Você — chamou, apontando para Sofia. — Me traz água.
Ela hesitou. O instrutor olhou para Gao Wei, depois para Sofia, e não disse nada. A hierarquia falava mais alto.
Sofia foi até o poço, encheu uma xícara e levou até ele. Gao Wei estendeu a mão. Quando ela foi entregar, ele deliberadamente não segurou. A xícara caiu. A água se esparramou na terra.
— Desajeitado — disse Gao Wei. — Enche outra.
Sofia respirou fundo. Foi ao poço. Encheu outra. Desta vez, segurou a xícara até sentir que ele a tinha segurado. Só então soltou.
Gao Wei bebeu. Devolveu a xícara vazia. Seus dedos roçaram os dela.
— Melhor — disse. — Pode ir.
Ela voltou para o treinamento. A Chai a olhou com raiva contida.
— Se quiser, eu dou um jeito nele — murmurou.
— Não — disse Sofia. — Ele quer provocar. Não vou dar esse gosto.
Mas suas mãos tremiam. Não de medo. De fúria.
Naquela noite, Chen Yan apareceu na tenda.
— Gao Wei está interessado em você — disse, sem preâmbulo.
— Eu notei.
— Não é só interesse. É... — Ele hesitou. — Ele gosta de colecionar coisas. Pessoas. Animais. Objetos. Quanto mais raro, melhor.
Sofia olhou para ele.
— E você veio me avisar?
— Vim.
— Por quê?
Chen Yan ficou em silêncio. Depois disse:
— Porque você não é ela. Mas também não é uma estranha. E eu... ainda não sei o que fazer com isso.
Saiu antes que ela pudesse responder.
Sofia ficou sentada na esteira, a faca de Aina no colo. Três homens a observavam agora. Xiao Ce, com sua proteção condicional. Gao Wei, com sua cobiça. Chen Yan, com sua confusão.
Ela passou o polegar pelo fio da lâmina. Estava afiada.
�� Nota da autora (Mike A Sir): Gao Wei começou a mostrar as garras. “Ele gosta de colecionar coisas. Quanto mais raro, melhor.” QUE NOJO. Chen Yan veio avisar — ele ainda não sabe o que sente, mas não quer que ela se machuque. E o fato de Gao Gong ter perguntado sobre a Sofia na carta... isso é muito perigoso. O cerco tá se fechando!