O mestre armeiro era um homem de barba grisalha e mãos calejadas que passara trinta anos construindo máquinas de cerco. Quando A Chai transmitiu a proposta de Sofia, ele riu.
— O mudo quer melhorar a catapulta? Trinta anos fazendo isso. O que um recruta que nem sabe falar vai me ensinar?
Era uma manhã fria, três dias depois do primeiro ataque. Os batedores tinham informado que o exército principal rouran estava a menos de uma semana de marcha. Cada dia contava.
Sofia não se abalou. Ajoelhou-se na terra e desenhou com um graveto: uma linha reta, uma linha curva, cordas trançadas. Apontou para a curva, depois para a catapulta, depois para a distância que o projétil deveria alcançar.
O mestre armeiro olhou com desprezo.
— Isso é loucura. A curva tira força, não aumenta.
— Deixa ele tentar — interveio A Chai. — Se não funcionar, a gente perde uma tarde. Se funcionar, a gente ganha alcance.
Xiao Ce, que observava de longe, se aproximou.
— Deixa ele tentar — repetiu.
O mestre armeiro resmungou, mas cedeu.
O processo foi um desastre e um triunfo. O primeiro braço curvo quebrou quando o aqueceram. O segundo ficou torto demais. O terceiro — aquele que A Chai segurou com as mãos trêmulas enquanto Sofia soprava o fogo para amolecer a madeira no ponto certo — desenhou um arco perfeito.
Sofia então mostrou ao mestre armeiro como trançar as cordas de tensão. A mesma técnica das ataduras: fio duplo, torção firme, nó de pescador. O velho observava com os olhos apertados, mas suas mãos copiavam os movimentos.
— Isso é ridículo — murmurava. — Absurdo. Perda de tempo.
Mas não parava de trabalhar.
Quando tudo ficou pronto, carregaram uma pedra do mesmo peso de sempre. Tensionaram. O mestre armeiro ajustou a última corda com as próprias mãos.
— Atirem — disse Xiao Ce.
A pedra voou.
E voou.
E continuou voando até se espatifar um quarto de légua além do alcance anterior.
O mestre armeiro ficou parado, a boca entreaberta. Depois se virou para Sofia.
— Onde você aprendeu isso?
— Meu avô — disse ela. — Fazia estilingues.
O velho a olhou por um longo momento. Depois fez algo que ninguém esperava: abaixou a cabeça. Não era uma reverência, mas quase.
— Trinta anos — disse ele. — Trinta anos fazendo catapultas. E um recruta que não fala me mostra que eu nunca soube nada.
Deu meia-volta e foi para sua oficina. Mas antes de entrar, parou.
— Traz mais desses desenhos amanhã — disse, sem se virar.
Naquela noite, a notícia se espalhou. Os soldados vinham ver a nova catapulta, tocavam as cordas trançadas, avaliavam o braço curvo. Pedra deu um tapa nas costas de Sofia que quase a derrubou.
— O mudo salvou a gente de novo!
A Chai organizou uma roda perto da fogueira. Trouxe uma jarra de chicha — a receita já era famosa — e serviu todos.
— Pelo mudo! — brindou. — Que me fez segurar madeira quente e quase queimar minhas mãos!
— Pelo mudo! — repetiram.
Sofia bebeu. Não sorriu, mas seus ombros relaxaram.
Mais tarde, Xiao Ce a encontrou perto da catapulta, sozinha.
— O comandante quer saber quem fez isso — disse ele. — Eu disse que foi o mestre armeiro.
Sofia o olhou.
— Você não precisa de mais atenção do que já tem — continuou Xiao Ce. — Gao Wei está farejando. Gao Gong chega na próxima semana. Quanto menos souberem sobre você, melhor.
— O senhor mentiu para o comandante.
— Eu protegi um recurso valioso — corrigiu ele. — É diferente.
E foi embora.
Sofia ficou olhando a catapulta, o braço curvo recortado contra o céu estrelado. A máquina funcionava. Ela funcionava.
Na cintura, a faca de Aina. No bolso, as ervas. No pulso, a fita trançada que Zhou Dayong devolvera. E agora, uma catapulta que levava seu conhecimento sem levar seu nome.
Ela não era mais a estudante que chorou sobre um livro na biblioteca da universidade.
Mas ainda não sabia quem era.
�� Nota da autora (Mike A Sir): A CATAPULTA FUNCIONOU!!! O velho armeiro quase se curvou — “trinta anos e eu nunca soube nada”. E o Xiao Ce mentiu pro comandante de novo! “Eu protegi um recurso valioso.” Esse homem é um escudo. Mas Gao Gong chega na próxima semana... o que será que vai acontecer quando ele puser os olhos na Sofia? �� Comentem!