A noite estava calma. Calma demais.
Sofia cumpria seu turno de guarda no perímetro norte, uma zona pouco movimentada que fazia divisa com um bosque de pinheiros anões. O frio mordia as bochechas. O sono pesava nas pálpebras. Ao lado, Bai Ling dormitava feito um novelo, o rabo peludo cobrindo o focinho.
Então a raposa levantou a cabeça.
As orelhas giraram como agulhas de bússola. Um rosnado grave, quase inaudível, vibrou em sua garganta. Sofia conhecia aquele comportamento — já vira cães de caça fazerem o mesmo nos morros de Salvador quando pressentiam uma presa.
— Que foi? — sussurrou.
Bai Ling se levantou. Fincou os dentes na manga da túnica de Sofia e puxou. Não era brincadeira. A raposa puxava com insistência, gemendo baixo, os olhos escuros refletindo uma urgência que Sofia nunca tinha visto.
Lembrou-se do avô. "Bicho que avisa perigo não é bicho de estimação. É aliado."
Levantou-se. O coração acelerou.
— Tá bom, tá bom. Vou com você.
Bai Ling guiou-a para o norte, encostada na paliçada. Avançava com a barriga no chão, as patas silenciosas na terra seca. Sofia seguia agachada, imitando os movimentos, a mão apoiada no cabo da faca de Aina.
Chegaram a um ponto cego do perímetro, onde a paliçada fazia uma curva e a luz das tochas não alcançava. Sofia parou. Prendeu a respiração.
Escutou.
No começo, nada. Só o vento entre os pinheiros. Depois, um estalo. Um galho quebrando. Vozes.
Não falavam chinês.
Espiou por uma fresta da paliçada. Ali, a menos de vinte metros, três homens se deslizavam entre as árvores. Vestiam túnicas escuras e carregavam espadas curvas nas costas. O mesmo estilo dos exploradores rouran que tinham emboscado sua patrulha.
— Espiões — murmurou em português.
Podia ter gritado. Podia ter dado o alarme. Mas se o fizesse, eles fugiriam. E levariam a informação que tinham recolhido.
Recuou com cuidado e encontrou o sentinela mais próximo, um veterano de bigode grisalho que estava quase adormecido encostado num poste.
— Rouran — disse no ouvido dele. — Três. Ali.
O veterano despertou na hora. Sofia apontou para o ponto cego com gestos precisos: três dedos para os homens, um arco para a direção, um punho fechado para indicar que deviam cercá-los.
A captura foi rápida. Quatro soldados cercaram os espiões enquanto eles tentavam escalar um ponto fraco da paliçada. Os rouran resistiram, mas estavam em minoria. Em menos de um minuto, estavam de joelhos, as mãos amarradas.
— Tochas! — gritou o sargento.
À luz do fogo, os prisioneiros eram três jovens de rosto anguloso, maçãs do rosto saltadas. Carregavam mapas rudimentares do acampamento escondidos nas botas — anotações sobre os pontos fracos da paliçada, os horários das trocas de guarda, a localização do depósito de grãos.
— Baita achado — disse o sargento, examinando os mapas. Depois olhou para Sofia. — Foi você?
Ela assentiu.
— Como descobriu?
Sofia apontou para Bai Ling, sentada a seus pés com o rabo enrolado nas patas.
O sargento olhou para a raposa. Depois para Sofia.
— Isso é uma raposa — disse, como se não acreditasse no que estava vendo.
— Foi ela que me avisou — disse Sofia, em chinês.
O sargento soltou uma risada curta.
— Então temos uma raposa de guarda. — Guardou os mapas no bolso. — Vou reportar ao comandante. E você... bom trabalho, soldado.
Na manhã seguinte, o comandante mandou chamá-la.
Era a primeira vez que Sofia pisava na tenda de comando. Mapas sobre a mesa, braseiros acesos, oficiais em pé ao redor. Xiao Ce estava presente, o braço ainda enfaixado. Chen Yan também, encostado num poste.
— Então foi você que descobriu os espiões — disse o comandante, um homem careca e corpulento. — Como fez?
— A raposa — disse Sofia. — Ela me avisou.
— Uma raposa?
— Esse animal já alertou sobre outros perigos — interveio Xiao Ce. — Não é a primeira vez.
O comandante olhou para Bai Ling, que esperava sentada na entrada da tenda como se entendesse cada palavra.
— Pois então temos uma sentinela de quatro patas. — Fez uma pausa. — Quero que você continue nos turnos de guarda noturna. Se sua raposa fareja inimigos, que o faça onde for mais útil.
Sofia assentiu.
Quando saiu da tenda, A Chai a esperava. Tinha ouvido a notícia.
— Sua raposa é mais esperta que metade dos sentinelas — disse, coçando a cabeça de Bai Ling. — Sabe o que vou fazer? Uma coleira nova. De couro. Pra todo mundo saber que ela é soldado também.
Sofia quase sorriu.
Naquela noite, sentada em seu canto de sempre, trançou uma fita fina de cânhamo e a amarrou no pescoço de Bai Ling. A raposa deixou. Depois lambeu seus dedos.