Mulan em Mim

Capítulo 17: A confissão no riacho

Chen Yan não apareceu por três dias.

Sofia o via de longe, nos treinamentos, nas refeições. Ele não a evitava, mas também não se aproximava. Apenas observava. Como um homem que tenta decifrar um mapa escrito numa língua que não conhece.

No quarto dia, ele a encontrou no riacho.

Era o lugar onde Sofia ia para lavar o rosto longe dos olhares. Um córrego estreito entre pedras cinzentas, escondido por salgueiros. Ela estava agachada, as mangas arregaçadas, a água gelada escorrendo pelos pulsos.

— Aqui.

Ela se virou. Chen Yan estava parado a três passos, o rosto tenso.

— Foi aqui que a Mulan me disse que ia se alistar. Que o pai não podia lutar. Que não tinha escolha.

Ele deu um passo. Depois outro.

— Eu pedi para ela não ir. Ela disse que não havia outro jeito. Ficamos aqui até o sol se pôr. Depois ela foi embora.

Sofia se levantou. A água pingava de suas mãos.

— Você não lembra — disse Chen Yan. Não era pergunta.

— Não.

— E o moinho? O moinho onde a gente brincava quando criança. Onde você caiu na água e eu te tirei pelo cabelo. Onde você chorou a tarde inteira e depois riu porque eu também caí tentando te consolar.

Sofia balançou a cabeça.

— Não sou ela.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que todos os que já tinham compartilhado. Chen Yan ficou imóvel, os punhos fechados ao lado do corpo.

— Então quem é você?

Ela respirou fundo. Não havia mais como fugir.

— Meu nome é Sofia. Venho de um lugar que não existe nos seus mapas. Uma terra que você nunca vai encontrar, do outro lado do tempo. Minha avó me ensinou as ervas. Minha mãe me ensinou a trançar. Meu avô me ensinou a caçar. Tudo que eu sei fazer aqui... aprendi com eles.

Chen Yan a olhava como se ela tivesse falado numa língua desconhecida.

— Isso é impossível.

— Eu sei.

— Você está dizendo que... que a Mulan morreu?

— Não sei. Talvez ela tenha morrido antes de chegar ao acampamento. Talvez seu corpo tenha me recebido sem querer. Não sei como isso aconteceu. Só sei que aconteceu.

Ele deu um passo para trás. Depois outro. Seus olhos estavam úmidos, mas sua voz saiu firme.

— Você deveria ter me dito antes.

— Como? Como se explica uma coisa dessas sem parecer louca?

Chen Yan ficou em silêncio. O vento soprava entre os salgueiros, e o riacho continuava correndo, indiferente.

— Eu amava ela — disse ele, por fim. — Desde criança. Esperei por ela. Todo dia, toda noite, desde que me disseram que ela tinha se alistado. E agora você me diz que...

Sua voz quebrou. Ele se virou.

— Preciso de tempo — disse, de costas. — Não sei o que fazer com isso.

Deu três passos. Parou.

— Mas... ainda quero te proteger.

Não olhou para trás. E foi embora.

Sofia ficou parada no riacho, a água gelada cobrindo seus pés. As lágrimas vieram sem aviso — não de tristeza, mas de algo mais complicado que ela não sabia nomear. Alívio? Culpa? As duas coisas?

De noite, encontrou um bilhete sobre sua esteira. A caligrafia era de Chen Yan — firme, mas com uma leve tremura no último caractere.

"Não sei o que você é. Não sei de onde veio. Mas sei o que fez por este acampamento. Por mim. Isso não muda."

Ela dobrou o bilhete e o guardou no livro, ao lado da flor roxa que ele lhe dera.

Nota da autora (Mike A Sir): A CONFISSÃO ACONTECEU. “Meu nome é Sofia. Venho de um lugar que não existe nos seus mapas.” Chen Yan ficou destruído, mas mesmo assim deixou um bilhete. “Não sei o que você é. Mas sei o que fez.” Ele precisa de tempo, mas não consegue ir embora de vez. Esses dois vão me matar de tanto chorar.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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