Mulan em Mim

Capítulo 18: Febre

Começou com um soldado.

Um recruta jovem que acordou com febre, os olhos vidrados, o corpo encharcado de suor. O médico examinou e diagnosticou um resfriado. Receitou repouso.

No dia seguinte, eram oito.

Oito homens caídos nas esteiras, tremendo apesar das mantas. Vômito. Fraqueza tão extrema que não conseguiam ficar de pé. O médico mudou o diagnóstico: febre do norte, trazida talvez pelos prisioneiros ou pelos exploradores que voltavam do front.

No terceiro dia, um homem morreu.

O pânico se espalhou como rastilho de pólvora. Os soldados evitavam se tocar. As refeições eram servidas em silêncio. Os oficiais ordenaram isolar os doentes, mas já era tarde — o mal tinha criado raiz.

Sofia observava tudo com uma sensação crescente de impotência. Os sintomas eram familiares. Febre alta. Suores. Prostração. A Mainha tinha tratado casos assim com casca de quina nos bairros pobres de Salvador, onde as febres tropicais devastavam famílias sem acesso a hospital.

Mas não havia quina na China antiga. Ou havia?

Na quarta noite, quando os doentes já somavam vinte, Sofia foi até a tenda de Xiao Ce.

— Preciso ir para a floresta. Buscar plantas. Para a febre.

Xiao Ce levantou os olhos dos mapas.

— O médico diz que não tem cura.

— O médico não conhece todas as plantas.

Um silêncio. Depois ele perguntou:

— Tem certeza do que está procurando?

— Não — admitiu ela. — Mas se eu não for, mais gente vai morrer.

Xiao Ce tamborilou os dedos na mesa.

— Leva quem quiser. E volta.

Sofia escolheu A Chai e Zhou Dayong. Saíram ao amanhecer, com as primeiras luzes do dia, e se internaram nas colinas florestadas a leste do acampamento.

O terreno era íngreme. Sofia marchava na frente, os olhos fixos no chão, procurando entre as moitas. A casca amarga que sua avó usava vinha de uma árvore de folhas lanceoladas. Não seria igual na China. Mas a Mainha dizia: "As plantas que curam crescem onde o solo é pobre. A natureza bota o remédio onde mais falta."

Procuraram o dia inteiro.

— Tá ficando noite — disse A Chai. — Devíamos voltar.

— Mais um pouco.

E então, numa clareira perto de um córrego seco, ela viu.

Era uma árvore de porte médio, casca rugosa, folhas lanceoladas com o verso mais claro. Sofia arrancou um pedaço da casca com a faca de Aina. Mordeu. O sabor era amargo, intenso, adstringente.

— É isso — disse, cuspindo os restos. — Pode funcionar.

— Tem certeza? — perguntou Zhou Dayong.

— Não.

Mas era o que tinham.

Recolheram toda a casca que conseguiram carregar. Zhou Dayong arrancou um galho inteiro com as mãos nuas. A Chai encheu seu alforge. Voltaram para o acampamento quando a lua já estava alta.

Sofia não descansou. Foi direto para a tenda dos doentes. O médico militar a recebeu com olheiras profundas e uma expressão de quem já tinha perdido a esperança.

— Se isso falhar...

— Se falhar, a culpa é minha — cortou ela. — Mas se não tentarmos, nunca saberemos.

Ferveu a casca em água limpa, seguindo o mesmo método que a Mainha usava. O cheiro que subiu da panela era amargo e terroso, exatamente como em casa. Coou e entregou a primeira tigela ao médico.

— Dê aos que estão piores. Uma tigela a cada quatro horas.

O médico hesitou. Depois pegou a tigela e foi até o soldado mais próximo.

Aquela noite, Sofia não dormiu. Ficou ao lado dos doentes, observando. A Chai ficou com ela, enchendo tigelas, trocando panos úmidos. Zhou Dayong carregava os que pioravam para perto do braseiro.

Ao amanhecer, o primeiro soldado abriu os olhos.

Tinha o olhar mais claro. A pele menos ardente. Pediu água.

— A febre baixou — disse o médico, a voz incrédula. — Está baixando.

Sofia fechou os olhos.

A epidemia não terminou naquele dia. Mas a infusão de casca amarga foi dada a todos os doentes. No terceiro dia, não havia novos contágios. No quinto, os primeiros soldados se levantavam.

— Você conseguiu — disse A Chai, a voz rouca de cansaço. — De novo, mudo. Você conseguiu.

Sofia não respondeu. Olhava os homens que tinham sobrevivido e pensava na Mainha. Nas mãos artríticas amassando folhas no pilão. Na voz cansada dizendo: "Aprende, minha filha. Isso vai te servir um dia."

Aquele dia tinha chegado. E chegaria de novo.

Naquela noite, o médico militar a procurou. Trazia um pedaço de papel e um pincel.

— A receita — disse ele. — Escreva para mim. Se um dia você não estiver aqui, alguém precisa saber.

Sofia pegou o pincel. Com sua caligrafia ainda imperfeita, desenhou os caracteres para "casca amarga" e "febre". Depois acrescentou, sem pensar, o nome da planta em português.



#1464 en Fantasía
#1848 en Otros
#112 en Aventura

En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

Añadir a la biblioteca


Reportar




Uso de Cookies
Con el fin de proporcionar una mejor experiencia de usuario, recopilamos y utilizamos cookies. Si continúa navegando por nuestro sitio web, acepta la recopilación y el uso de cookies.