Aina voltou numa manhã de neblina, quando os sentinelas ainda esfregavam os olhos e o orvalho molhava as lonas.
Vinha acompanhada de duas moças — uma da idade de Sofia, outra quase uma criança, não mais que doze anos, o rosto anguloso e os olhos desconfiados. As três vestiam túnicas rouran surradas e carregavam facões na cintura. A mais jovem tinha um corte recente na mão, enfaixado com um pano sujo.
— Preciso de mais ervas — disse Aina, parando diante de Sofia. — Acabaram as que você me deu.
Sofia entregou o embrulho que já tinha preparado — folhas secas de alecrim-pimenta, casca amarga para febre e três fitas trançadas de reserva. Aina apalpou o conteúdo e assentiu.
— Melhorou a embalagem.
— Você também melhorou a companhia — disse Sofia, olhando para as duas moças.
— Minha prima e a filha dela. A aldeia delas foi queimada. Não sobrou ninguém. — Aina fez uma pausa. — Agora elas lutam comigo.
Sofia olhou para a menina de doze anos. A mão enfaixada tremia levemente, mas seus olhos não tinham medo. Tinham fome. Daquelas que Sofia reconhecia — a fome de quem já perdeu tudo e agora só quer sobreviver.
— Senta — disse Sofia, apontando para um tamborete.
A menina olhou para Aina, que assentiu. Sofia desenrolou a atadura suja. O corte não era profundo, mas estava inflamado, as bordas vermelhas e inchadas.
— Como se chama? — perguntou Sofia, enquanto limpava o ferimento com licor de arroz.
A menina não respondeu. Aina traduziu:
— Ela não fala chinês. Chama-se Sarnai.
Sofia aplicou a pasta de alecrim-pimenta e enrolou uma fita limpa. Sarnai observava cada movimento com uma atenção feroz. Quando terminou, a menina tocou a atadura nova com a ponta dos dedos e disse algo em rouran.
— Ela quer saber como se faz — traduziu Aina.
Sofia pegou uma folha, mostrou como mastigar, como aplicar. Sarnai imitou o gesto, os dentes cerrados, a expressão concentrada. Errou a primeira vez — mastigou demais, a pasta ficou aguada. Sofia apontou para a folha, depois para a boca, depois para o ferimento. A menina tentou de novo. Desta vez, acertou.
Aina observava com o canto da boca torcido naquele sorriso de rachadura.
— Você tem jeito — disse. — Devia ter sido professora.
— Prefiro curandeira.
Naquela tarde, depois que as moças descansaram, Aina puxou Sofia para o córrego.
— Não vim só pelas ervas. Tem um ataque grande vindo. Meu povo não quer lutar, mas os chefes do norte estão pressionando. Vocês têm semanas. Talvez um mês.
Sofia sentiu o sangue gelar.
— Por que está me contando isso?
— Porque você me deu ervas sem pedir nada em troca. Porque cuidou da Sarnai como se fosse sua. — Aina cuspiu no chão. — E porque não quero ver você morta.
Ficaram em silêncio. O córrego corria, indiferente.
— Agora — disse Aina, sacando a faca —, vamos ao que importa. Você praticou?
Sofia mostrou a faca que Aina lhe dera. Fez o corte diagonal. Aina observou, franziu a testa.
— Melhorou. Mas ainda está muito lenta.
— Eu pratiquei.
— Praticou errado, então. — Aina se pôs em posição. — Olha. Você está fazendo o golpe em dois tempos: primeiro olha, depois corta. Aí já morreu. O golpe tem que ser um movimento só. Seus olhos não podem dar pista.
Ela demonstrou. O corte saiu tão rápido que Sofia só viu o brilho da lâmina.
— Agora você.
Sofia repetiu. Errou. Repetiu. Errou de novo. Na quinta tentativa, o golpe saiu sem hesitação.
— Isso — disse Aina. — Agora vou te ensinar outra coisa.
Mudou a posição. Segurou a faca com a lâmina para baixo, o braço relaxado.
— Isso não é golpe de ataque. É defesa. Você usa quando alguém vier te agarrar. Não tenta furar. Só corta o que estiver mais perto — a mão, o braço, o que aparecer.
Demonstrou num tronco podre. A faca entrou e saiu num piscar de olhos.
— Você não é forte — continuou Aina. — Então não pode se dar ao luxo de ser lerda. Cada golpe seu tem que contar. Se errar, não tem segunda chance.
Sofia praticou até o braço doer. Aina corrigia com paciência de quem já treinou muitos novatos.
Quando o sol começou a baixar, Aina guardou a faca.
— Chega por hoje. Se sobreviver à batalha, te ensino mais.
— Se eu sobreviver, você também vai ter sobrevivido.
Aina sorriu — aquele sorriso torto.
— Isso é verdade.
Na hora da partida, Aina apertou o ombro de Sofia.
— Se precisar de abrigo, meu povo te esconde. Não importa de que lado você esteja.
— Por quê?
— Porque você não é de lado nenhum. Você é das que se viram sozinhas. Essas aí se reconhecem.