Mulan em Mim

Capítulo 20: O espião na sombra

Xiao Ce convocou-a na manhã seguinte, antes do treinamento.

Sua tenda estava mais escura que o normal, as velas apagadas, só a luz cinzenta do amanhecer entrando pelas frestas. Sobre a mesa, um pergaminho desenrolado.

— Feche a lona — ordenou.

Ela obedeceu. Quando se virou, viu Chen Yan encostado no canto, os braços cruzados.

— Interceptei isto ontem — disse Xiao Ce, apontando para o pergaminho. — Era levada por um mensageiro que disse ter recebido de alguém dentro do acampamento.

Sofia se inclinou. A leitura do chinês ainda era difícil, mas reconheceu vários termos militares: "muralha leste", "patrulha noturna", "ponto fraco". E um caractere que fez seu sangue gelar: Gao.

— Alguém está passando informação para os rouran — continuou Xiao Ce. — Sabe quantos somos, onde estão os sentinelas, quando trocam as guardas. Se esta carta tivesse chegado ao destino, o próximo ataque teria sido um massacre.

— Quem mandou? — perguntou Chen Yan.

— O mensageiro não sabe. Disse que só conhecia o contato por um sinal: uma bolsa de couro com um broche de bronze.

Sofia lembrou. O assistente de Gao Wei. Um homem pequeno, careca, que vivia carregando uma bolsa de couro com um broche de bronze. Tinha-o visto rondando o depósito de grãos tarde da noite.

— O assistente — disse ela. — De Gao Wei.

Xiao Ce e Chen Yan trocaram um olhar.

— Tem certeza?

— Vi ele perto do armazém. Várias vezes. Tarde da noite.

— Isso não é prova suficiente — disse Xiao Ce. — Precisamos pegá-lo em flagrante.

— Eu posso seguir — disse Sofia. — Sei me mover sem fazer barulho.

Xiao Ce hesitou. Depois assentiu.

— Mas não enfrenta. Não fala com ele. Só observa. Se for nosso homem, ele vai tentar fazer contato de novo. E quando fizer...

— A gente pega — completou Chen Yan.

Nos três dias seguintes, Sofia virou uma sombra.

Aproveitava as pausas do treinamento para rondar a tenda de Gao Wei. Sentava-se perto do depósito de grãos com seu saquinho de ervas, fingindo separar folhas, enquanto seus olhos registravam cada movimento.

No segundo dia, viu o assistente sair da tenda de Gao Wei com a bolsa de couro apertada contra o peito. O homem olhou para os lados — um gesto rápido, quase imperceptível — e seguiu na direção do depósito.

Sofia o seguiu. Pisando com a ponta dos pés, como o avô ensinara. Respirando pela boca para não fazer barulho.

O assistente entrou no depósito. Ela esperou fora, atrás de uma pilha de sacos. Ouviu vozes abafadas. Depois um assobio — um sinal, talvez. Depois silêncio.

Espiou por uma fresta. O assistente estava ajoelhado perto de um monte de grãos, entregando um objeto pequeno a uma figura que Sofia não conseguia ver. Trocaram algo — um papel? um mapa? — e a figura desapareceu por um alçapão no chão que ela nunca tinha notado.

Um alçapão. Havia uma passagem secreta sob o depósito.

Sofia recuou. Não enfrentou. Não falou. Apenas correu para a tenda de Xiao Ce.

A captura aconteceu naquela mesma noite.

Xiao Ce acordou quatro homens de confiança e cercaram o depósito. Quando o assistente saiu, com a bolsa apertada contra o peito, encontrou-se com cinco espadas apontadas para seu pescoço.

— O que estava fazendo no depósito a essa hora? — perguntou Xiao Ce.

— Eu... eu só contava sacos — gaguejou o homem. — O tenente Gao Wei me pediu...

— Revistem.

Na bolsa, encontraram duas cartas. Uma continha um plano detalhado das defesas do acampamento. A outra, uma lista dos oficiais com anotações sobre as fraquezas de cada um: "Xiao Ce — ombro ferido, lento na esquerda", "Chen Yan — leal demais, previsível".

— Isso não é contar sacos — disse Xiao Ce, a voz gelada.

O assistente tremia. As palavras saíam aos borbotões.

— Eu só faço o que me mandam! O tenente Gao Wei me paga! Mas as ordens vêm de cima, da capital, do senhor Gao Gong! Eu só sou um intermediário!

— Gao Gong — repetiu Chen Yan. — O conselheiro do imperador.

— Ele está por trás de tudo — disse Xiao Ce. — E tem um homem aqui dentro executando.

O assistente, vendo que a sorte estava lançada, começou a rir — uma risada nervosa e aguda.

— Não adianta me prender. O senhor Gao Gong já sabe que vocês estão investigando. E não liga. Porque dentro de poucos dias, os rouran vão atacar com todas as forças. E quando isso acontecer, o acampamento vai cair.

Xiao Ce mandou amarrá-lo. Depois ficou em silêncio, os nós dos dedos apoiados na mesa.

— Precisamos de provas irrefutáveis — disse. — Uma carta do próprio Gao Gong. Sem isso, não podemos tocar nele.

— E como conseguimos? — perguntou Chen Yan.

Xiao Ce olhou para Sofia.

— Alguém vai ter que entrar na tenda dele.



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En el texto hay: reencarnação, mulher forte, china antiga

Editado: 03.06.2026

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