Xiao Ce convocou-a na manhã seguinte, antes do treinamento.
Sua tenda estava mais escura que o normal, as velas apagadas, só a luz cinzenta do amanhecer entrando pelas frestas. Sobre a mesa, um pergaminho desenrolado.
— Feche a lona — ordenou.
Ela obedeceu. Quando se virou, viu Chen Yan encostado no canto, os braços cruzados.
— Interceptei isto ontem — disse Xiao Ce, apontando para o pergaminho. — Era levada por um mensageiro que disse ter recebido de alguém dentro do acampamento.
Sofia se inclinou. A leitura do chinês ainda era difícil, mas reconheceu vários termos militares: "muralha leste", "patrulha noturna", "ponto fraco". E um caractere que fez seu sangue gelar: Gao.
— Alguém está passando informação para os rouran — continuou Xiao Ce. — Sabe quantos somos, onde estão os sentinelas, quando trocam as guardas. Se esta carta tivesse chegado ao destino, o próximo ataque teria sido um massacre.
— Quem mandou? — perguntou Chen Yan.
— O mensageiro não sabe. Disse que só conhecia o contato por um sinal: uma bolsa de couro com um broche de bronze.
Sofia lembrou. O assistente de Gao Wei. Um homem pequeno, careca, que vivia carregando uma bolsa de couro com um broche de bronze. Tinha-o visto rondando o depósito de grãos tarde da noite.
— O assistente — disse ela. — De Gao Wei.
Xiao Ce e Chen Yan trocaram um olhar.
— Tem certeza?
— Vi ele perto do armazém. Várias vezes. Tarde da noite.
— Isso não é prova suficiente — disse Xiao Ce. — Precisamos pegá-lo em flagrante.
— Eu posso seguir — disse Sofia. — Sei me mover sem fazer barulho.
Xiao Ce hesitou. Depois assentiu.
— Mas não enfrenta. Não fala com ele. Só observa. Se for nosso homem, ele vai tentar fazer contato de novo. E quando fizer...
— A gente pega — completou Chen Yan.
Nos três dias seguintes, Sofia virou uma sombra.
Aproveitava as pausas do treinamento para rondar a tenda de Gao Wei. Sentava-se perto do depósito de grãos com seu saquinho de ervas, fingindo separar folhas, enquanto seus olhos registravam cada movimento.
No segundo dia, viu o assistente sair da tenda de Gao Wei com a bolsa de couro apertada contra o peito. O homem olhou para os lados — um gesto rápido, quase imperceptível — e seguiu na direção do depósito.
Sofia o seguiu. Pisando com a ponta dos pés, como o avô ensinara. Respirando pela boca para não fazer barulho.
O assistente entrou no depósito. Ela esperou fora, atrás de uma pilha de sacos. Ouviu vozes abafadas. Depois um assobio — um sinal, talvez. Depois silêncio.
Espiou por uma fresta. O assistente estava ajoelhado perto de um monte de grãos, entregando um objeto pequeno a uma figura que Sofia não conseguia ver. Trocaram algo — um papel? um mapa? — e a figura desapareceu por um alçapão no chão que ela nunca tinha notado.
Um alçapão. Havia uma passagem secreta sob o depósito.
Sofia recuou. Não enfrentou. Não falou. Apenas correu para a tenda de Xiao Ce.
A captura aconteceu naquela mesma noite.
Xiao Ce acordou quatro homens de confiança e cercaram o depósito. Quando o assistente saiu, com a bolsa apertada contra o peito, encontrou-se com cinco espadas apontadas para seu pescoço.
— O que estava fazendo no depósito a essa hora? — perguntou Xiao Ce.
— Eu... eu só contava sacos — gaguejou o homem. — O tenente Gao Wei me pediu...
— Revistem.
Na bolsa, encontraram duas cartas. Uma continha um plano detalhado das defesas do acampamento. A outra, uma lista dos oficiais com anotações sobre as fraquezas de cada um: "Xiao Ce — ombro ferido, lento na esquerda", "Chen Yan — leal demais, previsível".
— Isso não é contar sacos — disse Xiao Ce, a voz gelada.
O assistente tremia. As palavras saíam aos borbotões.
— Eu só faço o que me mandam! O tenente Gao Wei me paga! Mas as ordens vêm de cima, da capital, do senhor Gao Gong! Eu só sou um intermediário!
— Gao Gong — repetiu Chen Yan. — O conselheiro do imperador.
— Ele está por trás de tudo — disse Xiao Ce. — E tem um homem aqui dentro executando.
O assistente, vendo que a sorte estava lançada, começou a rir — uma risada nervosa e aguda.
— Não adianta me prender. O senhor Gao Gong já sabe que vocês estão investigando. E não liga. Porque dentro de poucos dias, os rouran vão atacar com todas as forças. E quando isso acontecer, o acampamento vai cair.
Xiao Ce mandou amarrá-lo. Depois ficou em silêncio, os nós dos dedos apoiados na mesa.
— Precisamos de provas irrefutáveis — disse. — Uma carta do próprio Gao Gong. Sem isso, não podemos tocar nele.
— E como conseguimos? — perguntou Chen Yan.
Xiao Ce olhou para Sofia.
— Alguém vai ter que entrar na tenda dele.