Na noite seguinte, Chen Yan encontrou Sofia no poço.
Ela estava ensaiando palavras em chinês, como fazia quase toda noite. As frases saíam mais fluentes agora — já conseguia manter conversas curtas sem parecer uma estrangeira completa.
— Xìn rèn — repetiu, testando o tom. Confiar.
— Se diz xìn rèn — corrigiu Chen Yan. — O tom desce no final, não sobe.
Ela se virou. Ele estava parado a dois passos, o cabelo preso às pressas, a túnica solta.
— Posso sentar? — perguntou.
Ela assentiu.
Ficaram lado a lado, olhando a água escura do poço. A lua se refletia, trêmula. Chen Yan não dizia nada. Sofia também não. Mas o silêncio entre eles já não era o mesmo de antes. Era mais leve. Como se a confissão no riacho tivesse tirado um peso que os dois carregavam.
— Eu estava com raiva — disse Chen Yan por fim. — Quando você me contou. Raiva de você. Raiva do que aconteceu com a Mulan. Raiva de não poder fazer nada.
Sofia não respondeu. Deixou-o falar.
— Mas depois... vi você salvar Zhou Dayong. Vi você parar a epidemia. Vi você ensinar aquela menina rouran a fazer curativo sem nem falar a língua dela. — Ele fez uma pausa. — E entendi uma coisa.
Levantou os olhos para ela.
— Não sei quem você é, Sofia. Não sei de onde veio. Mas sei o que você fez por este acampamento. Por mim. E já não importa como chegou aqui. Importa o que você é agora.
Sofia sentiu um nó na garganta.
— Obrigada — disse.
— Não me agradeça ainda. — Ele tirou do bolso uma carta amarrotada. — Recebi isto hoje. É da aldeia. A mãe da Mulan... está doente. Muito doente. Pedem que ela volte.
Sofia pegou a carta. Leu com dificuldade. "Mãe está mal. Volte, Mulan. Volte antes que seja tarde."
— Eu não posso voltar — disse ela. — Não sou filha dela.
— Eu sei.
— Mas... posso escrever? — Sofia olhou para ele. — Uma carta. Para ela. Como se fosse Mulan.
Chen Yan hesitou. Depois tirou um pincel e um pedaço de papel da bolsa. Sofia sentou-se na borda do poço e, com sua caligrafia ainda imperfeita, escreveu:
"Sua filha está viva. Ela está lutando. Ela vai voltar. Aguente mais um pouco. Aguente por ela."
Não assinou como Sofia. Assinou como Mulan.
Dobrou a carta e a entregou a Chen Yan. Ele leu. Seus olhos ficaram úmidos, mas não chorou.
— Obrigado — disse.
— Eu não queria mentir para ela.
— Não é mentira. — Ele guardou a carta no peito. — É esperança. E esperança não é mentira.
Ficaram em silêncio mais um pouco. Depois Chen Yan se levantou.
— Amanhã — disse ele —, Xiao Ce vai planejar como entrar na tenda de Gao Gong. Vai ser perigoso.
— Eu sei.
— Se algo der errado...
— Não vai dar errado — cortou ela.
Chen Yan a olhou. E pela primeira vez desde que chegara, Sofia viu algo nos olhos dele que não era dor, nem desconfiança, nem saudade da mulher perdida.
Era orgulho.
— Vou com você — disse ele. — Se for para roubar as cartas de um traidor, que seja com testemunha.
Sofia quase sorriu.
Quando Chen Yan foi embora, ela ficou sentada no poço. Bai Ling apareceu do nada e se enrolou em seu colo.
— Ele me chamou de Sofia — murmurou para a raposa. — Não de Mulan. De Sofia.
Bai Ling lambeu sua mão.
Pela primeira vez, Sofia sentiu que não estava apenas ocupando o corpo de outra pessoa. Estava construindo algo próprio. Um nome. Um lugar. Pessoas que confiavam nela não apesar de quem era, mas por causa de quem era.
Na manhã seguinte, o plano começaria.
�� Nota da autora (Mike A Sir): CHEN YAN A CHAMOU DE SOFIA. Pela primeira vez. “Não sei quem você é. Mas sei o que você fez.” E ela escreveu uma carta como Mulan para a mãe doente: “Sua filha está viva. Aguente mais um pouco.” Isso não é mentira, é esperança. Agora o plano pra pegar as cartas do Gao Gong vai começar. Quem tá ansioso? ����